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Crônicas Agudas


Escritórios: alto, mais aalto, muito
Uma longa história do tempo

POR SERGIO TEPERMAN


WillG/Shutterstock
O Arche de la Defense, em Paris, de Johann Otto von Spreckelsen

Por incrível que pareça, o edifício que deu origem a todos os edifícios de escritórios que povoam, embelezam ou infestam as cidades do mundo inteiro (dependendo do ponto de vista), foi um conjunto de apartamentos projetado por Mies: Lake Shore Drive. Quem acha que foi Le Corbusier a maior influência da arquitetura moderna, foi alguém que jamais passou pelo centro de negócios de qualquer cidade.

Todos os princípios que determinaram os projetos de todos os edifícios de escritório do mundo partiram da pesquisa estrutural, construtiva, de colunas, vigas e perfis acoplados de aço "unidos" por uma cortina de vidro. Foi a solução construtiva encontrada por Mies para um edifício de vidro, desenhado (não projetado) pelo mestre alemão em... 1922!

Décadas depois, os arquitetos norte-americanos Schipporeit and Heinrich (que nomes adequados!) repetiram as linhas de Mies no Lakepoint Tower, concluído em 1968. Muita gente, inclusive eu, sempre achou que Mies tinha sido o arquiteto do Lakepoint Tower e que só 50 anos depois tinha conseguido construir aquele desenho.

Pronto, como todo mundo, não escapei de comentar a escola de Chicago! Duas possíveis razões: minha falta de imaginação ou a tremenda importância de uma cidade de ex-gangsters, do jazz e da arquitetura, duas de minhas paixões. O mundo se encarregou de disseminar à exaustão esses edifícios, naturalmente sem a classe dos melhores (atenção, só dos melhores) arquitetos norte-americanos.

Mies dizia que não queria projetar um edifício novo toda monday morning. Assim ele (e o mundo) projetaram o mesmo edifício todos os dias. É por isso que eu digo que Frank Lloyd was right, mas Mies van der errou.

Na verdade, o grande drama arquitetônico nos edifícios aço-e-vidro foi ter aberto a possibilidade, na verdade inevitável, de que as razões comerciais e de racionalização de espaço viessem a ditar as soluções dos edifícios de escritórios a partir das respostas de estrutura, sanitários, escadas e elevadores, mais as instalações mecânicas. Ou seja, a forma não seguiu mais a função, a função é que seguiu a economia.

Matt Grant/Shutterstock e Thierry Maffeis/Shutters
À esquerda, o edifício Pirelli, em Milão, de Gio Ponti, e à direita as Petrona Towers, em Kuala Lumpur, Malásia, de Cesar Pelli

Seria chato esticar o assunto, mas também injusto deixar de mencionar os maiores exemplos na arquitetura aço-e-vidro: a Lever House (SOM, Bunshaft), Seagram Building (Mies, Johnson), John Hancock Center (SOM/Bruce Graham), Sears Tower (SOM/Bruce Graham) e o surpreendente edifício da SAS em Copenhagen (Arne Jacobsen).

Verdade que os vidros do John Hancock começaram a cair de 400 m de altura, interditando totalmente a praça em frente e provocando um monstruoso processo financeiro, mas com um prédio tão espetacular, quem vai se preocupar com isso?

Talvez Edward Stone, segundo Tom Wolfe o inventor da arquitetura chamada post modern na Broadway, que projetou também o edifício da Amoco, todo revestido com pedras (stones!) e que foi acionado em 80 milhões de dólares porque as pedras começaram a cair e rolar (rolling stones).

Coube a Saarinen, Roche e Dinkeloo quebrar esse protótipo, com o edifício da Ford Foundation, ainda que mantendo certos princípios construtivos de Chicago (quem escapa?). Saarinen, meu arquiteto preferido, projetava, sim, um edifício diferente cada monday morning.

Recordo-me da ocasião em que fui convidado pelo editor da Progressive Architecture para um drink no bar/restaurante mais bonito do mundo, o Four Seasons, e Ray Smith mostrou-me o hall em que Phillip Johnson quase teve um ataque ao ver que as linhas das juntas do piso e das paredes, revestidos com o mesmo material, não coincidiam. Lá isso também acontece. Mas os norte-americanos também faziam edifícios de concreto, não tão altos, e com a grande vantagem de reduzirem enormemente os problemas em caso de incêndio - o fogo, afinal de contas, foi a razão principal (fora os aviões!) da queda do World Trade Center.

Os norte-americanos têm uma neurose mais do que justificada com incêndios em edifícios, sejam eles altíssimos ou térreos. Essa preocupação também me atinge. A pergunta que sempre faço no escritório ao projetar um edifício é: estrepe-se a norma, vamos respeitá-la sim, mas fazendo isso dá para o pessoal escapar? Se não der, a norma é inútil. A Norma e algumas outras mulheres.

Tenho um pequeno exemplo para contar: quando estava no 5o ano da faculdade, fui estagiário do gentilíssimo e talentoso arquiteto Majer Botkowski, que projetou o edifício Andraus, visivelmente inspirado no famoso edifício Pirelli, de Gio Ponti. Coube a mim a tarefa de desenhar o heliporto e, na discussão com o Majer, resolvemos levantar uma platibanda e coroá-la com uma saliência para diferenciar o prédio do da Pirelli. Ignorantes totais éramos (e todos) das normas (se existiam) do pouso de helicópteros, nas quais essas saliências são lógico, terminantemente proibidas.

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