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Crônicas Agudas


Escritórios: alto, mais aalto, muito
Uma longa história do tempo

POR SERGIO TEPERMAN


Uns 20 anos mais tarde, presenciei estarrecido, das janelas do Hotel Broadway, na Avenida São João, que pertencia a meu pai, o horror que é um incêndio em um edifício alto, e que aquelas inocentes platibanda e saliência erradamente projetadas impediram o fogo de lamber a laje de cobertura e permitiram salvar as pessoas com os helicópteros.

Anos depois testemunhei da janela do apartamento do meu tio, na Avenida Paulista, o primeiro incêndio do Grande Avenida. O curioso é que meu tio tinha escritórios no edifício. Outro horror e daí a importância que considero indispensável dar às rotas de fuga em edifícios altos, mesmo o Grande Avenida não sendo tão alto assim.

Quando trabalhei em Londres, participei do projeto do que eles chamavam uma tower em Mayfair, bem no centro chique da cidade, e a Grosvenor Tower tinha... dez andares! Uma questão de escala.

Old stories, assim como os velhos ornamentos que empestearam os edifícios norte-americanos durante uns 15 anos, por razões puramente comerciais, da mesma forma como nossos novos ricos se encantam com os edifícios neoclássicos e que Charles Jencks chamou de post-modern. Naturalmente foi uma reação do cidadão comum aos edifícios "the box", que se originaram da "preguiça" de Mies de levantar cedo às segundas-feiras.

A mesma "preguiça" dos arquitetos que resolvem tudo com uns painéis e vigas de concreto aparente mais vidro temperado. O mercado norte-americano e os escritórios de arquitetura, por razões comercialmente justificáveis adotaram com facilidade o post-modern, até esse pastiche "derreter" como dizem nossos corretores para os edifícios totalmente comercializados.

Hoje em dia, post-modern para os intelectuais denomina qualquer coisa, desde filmes de David Lynch até pratos inventados pelos stars do momento, como sardinha com goiabada e bacalhau com chantilly.

Assim, New York Knicks se vingou dos Chicago Bulls e, em pleno final do 20º século, voltaram os edifícios de estrutura metálica revestidos de ridículos enfeites de pedra. Enfim, voltou o historical - agora hysterical style.

E o que havia dentro de todos esses edifícios, de alvenaria, de concreto, de estrutura metálica ou post-modern? O que há até hoje, uma completa estandartização de procedimentos, de mobiliário, de divisórias, de tudo. Os projetos de interiores foram enormemente facilitados pelos computadores, tornando-se um joguinho de mesas e divisórias altas ou baixas que, como dizem os camelôs, não requer prática nem habilidade e qualquer criança pode manejar. O exemplo mais famoso é o filme The apartment, em que Jack Lemmon, um mísero funcionário no meio de um salão com centenas de mesas, empresta a chave de seu apartamento para os chefões encontrarem as amantes e vai subindo de posto, primeiro chegando à janela, depois se aproximando das salas dos diretores, até conseguir uma sala fechada e, finalmente, a glória: o famoso corner office, o escritório do canto, com janelas em toda a volta.

Robert Propst, um dos inventores do Action Office, o mobiliário que "revolucionou" os escritórios, representado no Brasil por meu primo Milly, deu-me o prazer de uma visita ao meu escritório, todo mobiliado com o Action Office original, hoje considerado vintage. Teve a paciência de contar toda a história do Action Office, de onde deriva todo o mobiliário nos escritórios de hoje e falou da tristeza dele próprio e de Ettore Sotsass ao perceberem que o fantástico bürolandschaft (escritório paisagem) dos alemães, de onde se originou o conceito dos escritórios abertos, ter se tornado uma simples maneira de reduzir área, empilhando funcionários - como no filme de Jack Lemmon, pensei.

Imagino o que Propst pensaria dos call centers dos famosos SACs (Serviço de Agressão ao Consumidor). E dizia da impossibilidade de projetar corner offices para todos os funcionários.

E hoje? Embora na maior parte dos casos nunca iremos nos liberar totalmente da escola de Chicago, porque constitui a base construtiva dos edifícios modernos, há uma mudança real de atitude em certos projetos, como sempre para o bem ou para o mal, para o melhor ou o pior. Há uma busca de novas formas, mas devemos reconhecer que é extremamente difícil em função dos próprios conceitos estruturais e dos processos construtivos conseguir criar formas diversas como em edifícios horizontais, dos quais o mais bem-sucedido é o Aetna Life Insurance, de Roche Dinkeloo.

Ao lado das novas formas, surge novamente o famoso complexo que já deve ter sido analisado pela psicologia e que se denomina "complexo de Strozzi-Pitti", ou seja, quem constrói mais alto.

Enfim, a arquitetura dos novos famosos edifícios de escritórios é uma busca por forma/altura encarcerada pelas limitações estruturais e construtivas de edifícios altos. Nessa perseguição há proezas estruturais como o Turning Torso, de Calatrava, na Suécia, ainda que seja um edifício de apartamentos fora do escopo deste artigo. E invenções incríveis, como os elevadores de dois ou mais andares, os jumbos dos elevadores.

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