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Crônicas Agudas


Escritórios: alto, mais aalto, muito
Uma longa história do tempo

POR SERGIO TEPERMAN


Acredito que o mais expressivo desses edifícios seja a excelente solução urbanística, agora já antiga, do Arche de la Défense, do dinamarquês Spreckelsen que, como prêmio por ter projetado essa maravilha, ganhou o suicídio. O contraponto, um absurdo formal, arquitetônico e construtivo é a sede de uma empresa chinesa de telecomunicações projetada por Rem Koolhaas do OMA (Office for Merdopolitan Architecture), na verdade mais publicitário do que arquiteto, totalmente irracional, seja do ponto de vista funcional, seja do ponto de vista construtivo.

O impactante monolito de Kohn, Pedersen and Fox para Shanghai, obra cujos investidores são japoneses, possuía no estudo inicial um enorme orifício circular próximo à cobertura, um efeito formal e também um atenuador de vento - este, o grande problema estrutural, até maior do que a carga, para edifícios altos. O orifício teve de ser transformado em um trapézio porque, para os chineses, a forma circular lembra a bandeira do Japão e a triste memória da invasão japonesa de Shanghai, tão bem retratada no filme de minha maior preferência, O império do sol, de Steven Spielberg. Ficou parecendo um adequado abridor de Coca-Cola.

Shanghai e a província de Guangdong são os exemplos do que há de melhor e de pior na arquitetura dos novos edifícios de escritórios. O mesmo se repete nos Emirados Árabes, brincando entre si e com os chineses para ver quem constrói mais alto. Nessa batalha, que começou nos Estados Unidos, pulou a Europa e passou para a Ásia e Oriente Médio, o World Trade Center, o Empire State e o Sears Tower foram substituídos pelos edifícios de Shanghai, pelo edifício-pagode de Taipei, pelas belíssimas Petronas Towers, de César Pelli, na Malásia, todos atingindo na média entre 400 m e 600 m de altura. 

Só que o recorde vai para os árabes: já que derrubaram em Nova York dois edifícios de 400 m de altura, estão fazendo o Burj Dubai, com 800 m. Elisha Otis deve estar pulando de felicidade na tumba.

A propósito, 30 anos atrás, o edifício da sede mundial da Otis ficava em Nova York em uma casa térrea!

Em todas essas obras, formidáveis contingentes de mão-de-obra qualificada (suecos, dinamarqueses, ingleses, holandeses, australianos, canadenses, americanos, suíços etc.) e não qualificada (chineses, palestinos, indonésios, malaios, indianos, filipinos, paquistaneses etc.), são importados e acabam com o aço do mundo, para satisfação de Steinbruch e Eike Batista.

Onde isso vai parar? Ninguém sabe, mas atualmente não é voar (literalmente) demais pensar que, se dobraram a altura do World Trade Center, por décadas o edifício mais alto do mundo, porque não seria possível imaginar que algum país (o Japão é o palpite mais viável, por sua tecnologia, riqueza e tremenda concentração urbana em Tokyo), multiplique por dois o Burj Dubai e construa o antigo desenho de Frank Lloyd Wright, o Mile High Tower, com 1.600 m?

Sei lá, mas acho que em uma cidade chamada Babel já pensaram nisso e não se deram muito bem.

Enfim, já que a China é a bola da vez, Beijing, Beijing, Tsiao, Tsiao.

P.S. Eu sei que vão dizer que não falei dos Green Buildings. Ora, depois que dão LEED no mundo inteiro para prédios de vidro (que são LEEDindos), falar o quê? Da temperatura? E além disso, como disse Gagarin, a terra não é verde, é azul.            

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