Ao conceber a residência BV para um jovem casal, no bairro do Morumbi, na zona Sul de São Paulo, o arquiteto paulistano Mario Biselli soube explorar ao máximo a solução estrutural, que surpreende pelos balanços ousados. Apesar da importância que as lajes nervuradas de concreto assumem como geradoras do espaço - afinal, é a partir delas que se desenvolve todo o raciocínio arquitetônico - outros elementos sobressaem na obra. Empenas de madeira e caixilhos criam uma linguagem arquitetônica que já é própria do autor na produção de casas.
Manter as lajes de concreto aparentes, uma das propostas iniciais do projeto, acabou não se realizando porque, devido à grande quantidade de instalações técnicas, optou-se pela colocação de um forro de gesso. Ao ocultar a estrutura, perdeu-se um pouco da plasticidade e da clareza estrutural que só a sua exposição propiciaria. Apesar disso, fica evidente para o observador que se trata de um partido estrutural arrojado, posto que os amplos vãos livres e os balanços da obra só poderiam ter sido viabilizados pelas lajes nervuradas que, no caso, foram moldadas in loco com cubas de polipropileno.
Um dos elementos que mais chama a atenção na casa é a empena lateral de madeira que marca o acesso principal da residência. Não é a primeira vez que Biselli incorpora esse tipo de elemento na produção da arquitetura residencial. As casas GR, LPVM e SWS também dispõem desse recurso, que garante a privacidade dos moradores e protege a construção da insolação excessiva. Mais do que isso: tais planos criam nichos agradáveis de convivência para os habitantes e, sem eles, muito provavelmente, os espaços se tornariam demasiadamente sintéticos e rígidos.
A obra de Biselli, em relação à concepção estrutural e à abstração formal faz alusão ao brutalismo paulista, escola que o arquiteto admira e, nesse sentido, persegue. Mas revela um estilo próprio e único quando joga com os planos - brises, pérgulas e empenas - numa linguagem arquitetônica bem distante do "funcionalismo reducionista" que alguns jovens arquitetos ainda produzem. Biselli incorpora aquilo que lhe interessa do passado e do presente, superando "estilismos" em função de uma arquitetura própria e contemporânea.
"Na turbulência dos nossos dias, quando muitas noções de arte perambulam à deriva, Biselli e Katchborian acreditam na beleza do objeto, na arquitetura dos arrojos formais e plásticos que emociona e agrada de imediato aos sentidos. Optam com freqüência pelas operações compositivas, sofisticadas e ricas, que pedem mais atenção para serem percebidas e apreciadas", escreve o arquiteto Alessandro Castroviejo no texto de apresentação do livro Biselli e Katchborian, da Romano Guerra Editora.
Formado em arquitetura e urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1985, Mario Biselli já produziu obras em várias escalas e temas. O uso do aço como material favorável à exploração plástica da estrutura, sobretudo à da cobertura, é um aspecto marcante na produção do arquiteto, que tem como destaques o Ginásio de Esportes de Barueri, em São Paulo, e o Aeroporto Internacional Hercílio Luz, em Florianópolis - este último, vencedor do concurso promovido pelo IAB e Infraero, foi feito em parceria com o arquiteto Guilherme Motta.
Na casa BV, o aço é representado em elementos desenhados com apuro, como o guarda-corpo do terraço e os caixilhos. No segundo pavimento, painéis de alumínio do tipo camarão permitem a abertura total do vão, de onde se pode avistar a vegetação de um parque público situado em frente. A solução, além de eficiente, trouxe ritmo e movimento à fachada principal. Um quadro de alumínio que se sobressai da elevação lateral de madeira emoldura janelas de banheiros diferentes.
Há mais detalhes primorosos na construção, como a escada de concreto revestido com madeira que conduz à área íntima. Sobre a circulação, a clarabóia de vidro traz luz natural para o vazio central da sala de estar, de onde é possível avistar todo o exterior. O ambiente fica plenamente integrado com o terraço quando as portas envidraçadas de correr estão abertas. O piso de madeira naval que compõe o terraço cria um percurso até a piscina revestida com pastilhas azuis, cercada de pedra solarium.
EXECUÇÃO ATÍPICA
Além dos amplos vãos livres, as lajes nervuradas, moldadas in loco por fôrmas de polipropileno (cubetas), permitiram uma execução rápida da obra. "A estrutura teve de ser concretada inteira até a cobertura, sem a remoção dos escoramentos, para que a estrutura entrasse em funcionamento de cima para baixo", explica Paulo Sayeg. Assim, para evitar o carregamento excessivo do pavimento inferior e possibilitar a mobilização correta da estrutura, a remoção das escoras foi iniciada pela cobertura, situação contrária à adotada em situações convencionais.
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