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Exercício Profissional

Terceira dimensão
Por Thiago Oliveira


Ainda na década de 1980, a revolução começou a se manifestar quando pranchetas passaram a ser substituídas pelas telas dos computadores com o surgimento do sistema CAD (Computer Aided Design) e de seus traçados em duas dimensões. Na modernidade do século 21, anunciam-se novas mudanças na forma de concepção de projetos de arquitetura. A sigla em torno da qual as atenções se voltam agora é: BIM, de Building Information Modeling, ou Modelagem de Informações para Construção.

Em síntese, o avanço se concentra em duas esferas. A primeira é a elaboração dos projetos em 3D, incrementando sutileza espacial à visualização geométrica dos edifícios. A grande novidade, porém, reside na atribuição de informações aos elementos do desenho. Mais: essas informações, muito além do que simples legendas, seguem atachadas àquele elemento durante todas as fases do projeto - até o material chegar às mãos do engenheiro executor. Por fim, o detalhe valioso: qualquer ajuste feito nessa informação, nesse atributo do elemento, é imediatamente processado, repercutindo de maneira instantânea ao longo de todo o projeto.

Na prática, os desenhos deixam de ser representações abstratas - entidades isoladas com linhas, arcos, círculos e polígonos, como ocorre no CAD - e passam a absorver especificações técnicas. Um simples caixilho, no BIM transforma-se em um caixilho de alumínio natural fosco com vidros canelados medindo 1,67 m x 1,36 m, por exemplo. "O processo de produtividade é inverso: perde-se mais tempo no começo, agregando informações no software, para ganhar depois", diz o arquiteto André Augusto Prevedello, do escritório Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados.

Com os novos recursos, avista-se uma lista de benefícios: redução nos conflitos entre os elementos construtivos, facilidade nas revisões, aumento da produtividade, diminuição de retrabalho. "Pretende-se evitar passos ao pegar informações com outros agentes. Na hora de compatibilizar com o projetista estrutural, basta importar as informações dele e o BIM automaticamente insere no meu protótipo", explica Prevedello. "Começamos a ter uma base única de informações para todos." Grosso modo, significa que todas as equipes, de arquitetura e engenharia, trabalham sobre um mesmo arquivo eletrônico.

A partir dessa idéia de integração de especialidades, salienta-se a força de mudança capaz de incidir sobre a cadeia de profissionais. "Em termos de controle de custo, de velocidade e por considerar os mais diversos processos construtivos, o BIM possui um enorme impacto", destaca Dominic Gallello, presidente da Graphisoft, empresa desenvolvedora do software ArchiCAD, ao qual o BIM é integrado. "O sistema pode especificar para o cliente quanto custará a obra durante o desenvolvimento do projeto, sem esperar três meses até a construtora fornecer os dados", descreve.

Duas perspectivas do mesmo projeto hipotético

Propagação limitada
Tão significativos quanto as potenciais vantagens do BIM são os desafios de popularizá-lo no mercado. Isso porque, sem uma adoção em massa por escritórios de projeto e construtoras, o sistema perde boa parte de seus efeitos.

Por ora, ao que se tem notícia, a aplicação efetiva da modelagem é raridade. "Não conheço nenhum empreendimento que empregue BIM no ciclo completo de projeto", indica o professor Charles de Castro Vincent, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

"Os poucos casos de escritórios de arquitetura que empregam BIM têm dificuldades em sua implementação vertical completa, e praticamente inexistem casos em que ocorra a implementação horizontal (entre os diversos colaboradores, tais como calculistas, engenheiros de instalações e outros)", completa Vincent, que além da área acadêmica atua também profissionalmente, em metodologias de projeto e computação gráfica.

A percepção é partilhada pela professora Regina Coeli Ruschel, da FEC/Unicamp (Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas): "Estamos muito incipientes ainda", avalia. Em se tratando da escassa utilização dos recursos BIM, Regina viveu uma experiência curiosa.

Recentemente, procurou a desenvolvedora de um dos vários softwares integrados ao BIM: queria fazer uma pesquisa junto às revendas do produto, intrigada com a impressão de que o programa vinha sendo explicado e ensinado apenas como ferramenta para modelagem em 3D.

O dirigente da empresa com quem conversou rebateu a idéia, garantindo que há muitos clientes usando o software em todas as suas funcionalidades. No entanto, não autorizou a pesquisa. "Por algum tempo, ainda vamos usar o programa (integrado ao BIM) como uma prancheta eletrônica, assim como o CAD", opina a professora.

Entraves
As razões para a morosidade na transição são presumíveis, a começar pelos elevados custos envolvidos. Mas há outros fatores. "Além do alto custo por estação de trabalho, alto custo da capacitação e algum conservadorismo com relação às novas tecnologias, há um descompasso acentuado entre os padrões construtivos nacionais e as possibilidades oferecidas pelos softwares BIM, invariavelmente norte-americanos", acredita Charles Vincent.

O professor explica que o problema da capacitação não passa só pelo treinamento adequado de arquitetos e projetistas, mas pela organização de padrões de intercambialidade dos arquivos BIM. "As práticas usuais de profissionais diversos divergem quanto a padrões gráficos e escalas de trabalho", aponta. "Nos softwares BIM, identificamos seqüências de trabalho que não coincidem com as seqüências tradicionais de tomada de decisão projetual e ênfases diversas em cada etapa de trabalho."

Vincent vai além e diz que enquanto o fluxo de informações entre os vários players da indústria de construção civil não for padronizado, o impacto de softwares de grande complexidade será marcadamente negativo, "e não me refiro à padronização por baixo que o uso do CAD implica", alerta.

Como alternativa ao desafio da padronização, o docente do Mackenzie menciona propostas como o IFC (Industry Foundation Classes), modelo elaborado pela IAI (International Alliance for Interoperability) e aprovado pela ISO (International Standardization Organization) que viabiliza o intercâmbio de informações arquitetônicas e construtivas entre softwares com inteligência objetual - tais como os BIM.

"Iniciativas assim poderiam ser incorporadas às práticas de grandes empresas e, com o tempo, ajustadas às nossas necessidades locais", sugere.

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