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Crônicas Agudas


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ARQUITETURA E DEMOCRADURA

POR SERGIO TEPERMAN



As Olimpíadas de Beijing me fizeram vir à mente um assunto que sempre pensei em comentar, mas às vezes, por mais que tentemos ser objetivos e realistas, temos uns ataques ou recaídas estudantis de um sério desvio cultural denominado "politicamente correto" e que acaba não só turvando o raciocínio mas, principalmente, nos fazendo tapar o sol com a peneira e não enxergar a realidade.

Dito esse intróito fica fácil mencionar a tese supercontestada deste artigo que é a seguinte: para grandes obras de arquitetura e engenharia a democracia só atrapalha.

Na verdade, para outras coisas também, mas como disse Churchill, "a democracia é o pior sistema de governo, melhor apenas do que todos os outros". E teve a prova disso imediatamente após ter ganho a 2a guerra mundial para o Reino Unido, quando, como prêmio, perdeu a eleição para o Partido Trabalhista.

A questão surgiu de maneira visível com o Império do Centro (que nome adequado para a China, que é como os norte-americanos chamam a porcelana, uma espécie de china in box) e o seu impressionante progresso nos últimos anos. Quando vemos o inacreditável crescimento vertical de Beijing, Shanghai e outras aldeias similares, quase nos esquecemos de que, sem um governo forte, forte não, fortíssimo, tudo isso teria sido impossível a longo prazo, mais impossível ainda (será que existe mais impossível?) no tempo em que foi feito.

Ruas e quadras inteiras foram arrasadas por quilômetros, ou sei lá que medida eles usam, destruindo grande parte dos famosos Hutongs de enorme charme para os turistas ocidentais - e principalmente para os acidentais - que permaneciam, quando muito, meia hora naquelas pocilgas.  

O extraordinário conjunto de barragens das Três Gargantas deslocou de suas cidades milhões de pessoas, quando não cidades inteiras. E não se trata de simples vilas onde ficou só a torre da igreja aparecendo. Como resultado, uma enorme geração de energia, controle de enchentes, navegação contínua e um sofrimento intenso. Duríssimas escolhas, só possíveis em regimes ditatoriais. Algumas, apesar de sofridas, acertadas. Outras burríssimas, como afogar as Sete Quedas do Rio Paraná, o maior volume de água caindo do mundo, na época.

Assim como na China, não é politicamente correto admiti-lo, mas a maior parte das mais belas obras de arquitetura do globo foi possível porque os governantes não tinham que dar satisfação a ninguém. Embora a democracia seja uma invenção antiga (da Grécia, onde, é bom lembrar, havia escravos), é de uso muito recente, e em boa parte do mundo ainda não existe.

E os arquitetos não tinham que ficar discutindo com colegas burocratas de órgãos públicos, nem refazendo desenhos porque as cotas deviam ter tamanho 80 e não 60 e as flechinhas deviam ser vermelhas e não azuis. Nem ficar debatendo códigos de acabamentos quando foi você o inventor do sistema.

Sejamos honestos, qual de nós arquitetos não adoraria arrasar uma parte decrépita de uma cidade e aí projetar e construir praticamente o que quisesse, só dando satisfação e recebendo uma grana do tirano de plantão? É pena nenhum jornalista politicamente incorreto ter perguntado a Albert Speer, agora já morto, que tal foi projetar e começar a construir a Berlim que deveria durar mil anos ao entrevistá-lo na saída da prisão onde passou 20 anos (saiu barato, visto que Speer virou Ministro de Armamentos de Hitler).

Enfim Berlim, Beijing é tudo a mesma coisa.

A título de esclarecimento, menciono alguns itens da democrática cartilha de comportamento entregue aos aldeões de Beijing, Shanghai e outros subúrbios cariocas para se apresentarem bem aos estrangeiros durante as Olimpíadas:
1) Ao entrar no ônibus, respeitar a fila e não entrarem 100 chineses ao mesmo tempo
2) Para os taxistas, não comer alho
3) Para todos, não cuspir no chão (nem nos outros, espero)
4) Para os de olhos puxados, sorrir sempre
5) Para as mulheres de pernas grossas, usar meias longas pretas (brilhante providência!)
6) Ao conversar com estrangeiros, não perguntar sobre a sua idade, os seus rendimentos ou a sua vida amorosa (então vão conversar sobre o quê?)

Em resumo, se estiver interessado em projetos em Beijing, deve haver outra cartilha avisando que não é permitido sair com a secretária do cliente ou do chefe do partido.

Obedecendo a essas regras, Paul Andreu, o arquiteto dos aeroportos, projetou o magnífico teatro nacional e Norman Foster o aeroporto de Beijing. Sem falar em Herzog e de Meuron e dos arquitetos australianos do Cubo d'Água que conseguiram obras arquitetônicas para ficar na história, como a Grande Muralha ou a Cidade Proibida.

E, talvez, se você não conseguir o projeto do ninho de pássaros, negociará o ninho de cobras e até poderá comê-las com molho agridoce.

Daniel Piza escreveu em O Estado de S. Paulo que antes do seu início, as Olimpíadas já tinham um vencedor: a arquitetura. O estádio das Olimpíadas de Berlim tinha e tem uma arquitetura correta, que não tem culpa nem da carga simbólica que carrega, nem de sua imagem ter sido detonada por Jesse James Owens, um negro, o Carl Lewis de 1936. E isso porque ninguém menciona que Hitler solicitou aos norte-americanos que retirassem dois negros da sua equipe de revezamento 4 x 100 m, ao que os norte-americanos prontamente atenderam, substituindo-os por dois judeus.

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