Lucro real ou presumido? A dúvida não se refere às modalidades tributárias que incidem sobre as pessoas jurídicas. Fala-se, aqui, no sentido literal: como saber se o negócio está gerando retorno efetivo, ou se os ganhos para o empreendedor são enganosos e, no fundo, ele tem pago para trabalhar? Uma das chaves para esclarecer a questão, apontam especialistas, está na adequada inclusão, no cálculo do orçamento, dos custos inerentes ao trabalho do arquiteto. Confira a seguir parâmetros para melhor aferição dos resultados da empresa, além de dicas para assegurar o almejado lucro mês a mês.
Definição de lucro
Há que se desmistificar uma confusão comum que se faz no universo corporativo acerca do conceito de lucro. Idealmente, o lucro tem o objetivo de constituir uma reserva para o negócio, a ser utilizada em momentos de sufoco ou crise interna. Serve também para financiar ampliações ou modernizações, melhorias na estrutura física, entre outros investimentos. Por fim, é do lucro que vem o pagamento pelo capital aplicado no escritório de arquitetura.
Salário
A remuneração pelo trabalho do proprietário deve ser mensal, em valor compatível ao de profissionais do mercado que desenvolvem a mesma função. É o chamado pró-labore, que tem de ser tratado como custo fixo, uma despesa administrativa assim como salários de funcionários em geral, por exemplo. É claro que, sendo sócio ou dono do escritório, o arquiteto não precisa ficar limitado ao pró-labore: se o negócio estiver saudável, as reservas da empresa estiverem fortificadas e o crescimento bem, pode-se absorver certo percentual dos lucros. Mas não é o tipo de procedimento para se adotar o tempo todo, sem critério: recomenda-se que essa absorção aconteça no máximo duas vezes por ano.
Ponto de equilíbrio
Separadas as definições de lucro e remuneração para os administradores do escritório, entra-se na questão central: como saber se o lucro de fato tem existido? De acordo com a receita básica, descontadas todas as despesas integrantes do negócio, aquilo que restar do faturamento pode ser considerado lucro. Se não sobrar nada, a empresa encontra-se em ponto de equilíbrio - sem ganhos e sem perdas. Nem por isso o arquiteto ficará na mão, uma vez que nos custos já abatidos do faturamento terá sido contabilizado seu salário - o pró-labore.
Se os custos da empresa não forem apurados com o devido cuidado e abrangência, há o risco de se criar um lucro mascarado no balanço de determinado período. Ou seja: por contas malfeitas, o empresário supõe que o negócio vai bem, quando, na verdade, não está ganhando nada - ou pior: está sofrendo prejuízos sem nem ter conhecimento.
Custos diretos e indiretos
Para que a análise do desempenho financeiro se equipare à realidade, há diferentes classificações para diferentes custos. De forma imediata, aparecem os custos diretos. No contexto dos escritórios de arquitetura, são constituídos habitualmente por gastos com recursos humanos (colaboradores permanentes e consultores externos), serviços de apoio técnico (ensaios, testes, laudos e demais materiais que subsidiem a consultoria autônoma) e outros valores despendidos na execução dos trabalhos (impressões de desenhos, cópias reprográficas, encadernações, fotografias, mídias, locações de veículo, diárias em hotéis, refeições, passagens aéreas).
Por serem mais palpáveis, os custos diretos costumam ser melhor assimilados pelos escritórios. É essencial ao controle das contas (e ao desejado lucro) que essas despesas sejam dissolvidas nos preços dos serviços cobrados pelo profissional. O arquiteto George Hochheimer, sócio do escritório Hochheimer Imperatori Arquitetura, de São Paulo, conhece bem essa necessidade. "Às vezes, pode ser saudável deixar de atender a um cliente porque o orçamento não dá conta de pagar o seu custo", afirma. "Por isso, o primeiro passo é saber quais serão os custos do projeto. É aí que você transforma expectativa de produção em preço."
Não são apenas esses custos mais evidentes que devem pesar na composição dos orçamentos. Tudo precisa ser levantado e diluído nos preços, incluindo os chamados "custos indiretos".
Os custos indiretos abrangem tudo o que o escritório gasta com encargos sociais e benefícios aos funcionários, assim como assessoria jurídica e contábil, atestados, certidões e outros documentos cartoriais. Também entram nessa lista as contas de água, luz e telefone, manutenção da sede e de equipamentos, despesas com segurança. Sem falar nos impostos e contribuições que recaem sobre o faturamento da empresa (PIS, Cofins, ISS) e as tarifas bancárias. "Nós computamos tudo, incluindo as licenças com os softwares originais, que são caríssimas", conta Hochheimer. O arquiteto reforça a importância de não se ignorar os impostos, que na sua estimativa consomem 16% do valor dos projetos - índice que "chega a ser maior que a parte de cada sócio na receita compartilhada".
Preços personalizados
É a partir da avaliação dessa diversidade de custos (tanto os sutis quanto os ostensivos) que se mensuram os preços mais adequados dos trabalhos de arquitetura. Com base apenas nesse aspecto, já seria possível atestar que não faz sentido ter orçamentos idênticos de uma mesma demanda por parte de escritórios diferentes. No entanto, a decisão pelo valor a ser cobrado dos clientes vai além da consideração de custos. Há outros fatores com poder de influência, tão óbvios quanto os próprios custos diretos.
A experiência do arquiteto é um desses fatores. "Um recém-formado não vai concorrer com um escritório que está há dez anos em atividade", pondera o consultor financeiro Ari Rosolem, do Sebrae-SP (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo). "É preciso saber escolher seu concorrente - e precisa ser alguém do mesmo nível técnico que você. Os arquitetos não costumam fazer isso."
Rosolem assessorou recentemente um escritório com problemas corriqueiros entre as empresas do setor. Eram duas arquitetas cujo faturamento oscilava intensamente mês a mês. Havia períodos em que não conseguiam sequer custear a estrutura física, com gastos mensais da ordem de dez mil reais. "É importante estabelecer uma meta de 'x' projetos por mês e correr atrás disso, porque as metas não vão se cumprir automaticamente", orienta o consultor. "De preferência, montar um plano de divulgação da empresa, com parcerias e ações de marketing."
Segundo Rosolem, o planejamento das metas deve ser constituído em função das horas técnicas cobradas pelos profissionais, ou do preço fechado por um projeto. "Tem que se aprender a calcular. Não basta pesquisar o preço por metro quadrado", salienta. Em se tratando de fiscalização de obras, Rosolem recomenda que a porcentagem sobre o valor do projeto (forma usual de remuneração do arquiteto em atuações dessa natureza) seja fixada conforme o tamanho do empreendimento: quanto menor o projeto, maior o percentual.
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