Lucio Costa nos deu uma boa explicação de arquitetura: é construção com intenção plástica." Foi assim que Zenon Lotufo, importante baluarte da arquitetura paulista do século 20, introduziu a conclusão de sua tese Arte ou Artifício, na FAUUSP, em 1966.
Curiosamente, é Lucio Costa, junto com Oscar Niemeyer, quem faz a apresentação de João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, em completa e expressiva publicação homônima de sua obra, lançada em 2000. Nela, Lucio Costa é categórico ao definir Lelé como "o arquiteto em quem arte e tecnologia se encontram e se entrosam - o construtor".
Com seu trabalho, Lelé resgata a figura do "arquiteto construtor" em contraposição ao "arquiteto desenhador".
Embora historicamente consolidada pela tradição, haja vista o patrimônio cultural edificado pela engenhosidade dos arquitetos desde que se tem registro da profissão, durante o Renascimento um novo contexto se formou. A partir daí, a busca por ascensão social junto às cortes reais, a retomada de novos ideais estéticos relacionados aos padrões clássicos e a própria recuperação dos escritos de Vitrúvio passam a evidenciar a figura do arquiteto simultaneamente técnico e letrado, com progressiva valorização da segunda categoria, instituindo a dicotomia que passará a dominar quanto ao caráter da profissão, principalmente no âmbito da formação pelas escolas.
No mundo moderno, essa dicotomia foi responsável por uma não rara dúvida acerca da competência do arquiteto para resolver a construção. Da parte dos profissionais, a questão muitas vezes se expressa pelo dilema em se considerarem artistas ou técnicos, como se estas fossem efetivamente dimensões antagônicas em arquitetura. Curiosamente, a etimologia da denominação profissional não deixa margem a dúvidas: o termo grego Arkhitekton, derivado de arkhein (dirigir) e tekton (construtor, carpinteiro) significa exatamente "mestre-construtor".
É talvez por conta disso que Lucio Costa, ainda na apresentação do livro sobre a obra de João Filgueira Lima, anuncia que Lelé chegou na hora certa para preencher uma grave lacuna no desenvolvimento da arquitetura brasileira, visto que ele enfrenta e resolve de forma racional, econômica e com apurado teor arquitetônico os mais variados e complexos desafios que a sociedade moderna programa e impõe.
E não foram pequenos os desafios colocados para Lelé como arquiteto. Recém-formado, com 25 anos, é destacado por Oscar Niemeyer para conduzir suas obras em Brasília nos primórdios da construção da capital, em condições exigentes de trabalho, conforme ele próprio conta:
"Naquela época, em Brasília, não havia muita diferença entre engenheiro e arquiteto. Quero dizer, íamos lá construir uma Superquadra, então tínhamos que fazer o trabalho que houvesse. Levei uma porção de livros. De noite, pegava o lampião e ia estudar como é que era a fundação. Estudava feito um desesperado. Não havia luz; nós tínhamos um pequeno gerador na obra que era apagado às oito horas. Tinha que saber como era o traço do concreto, tinha de fazer as instalações elétricas. Tudo isso tinha de ser feito, senão Brasília não seria feita."
A premência de construir a nova cidade em um prazo exíguo - cerca de três anos - foi o princípio da experiência com a industrialização da construção, que se tornaria marca registrada de sua obra.
Décadas depois, em meados dos anos 80, dirigindo a Fábrica de Equipamentos Comunitários (Faec), em Salvador, vive a utopia de resolver todas as carências urbanas, da infra-estrutura de saneamento ambiental ao transporte e à educação, com a "fábrica de cidades", conforme a concepção de Roberto Pinho e Mário Kertész, respectivamente secretário e prefeito à época. Mais uma vez, o tempo lhe era colocado como recurso crítico. Conta Lelé que Eliana Kertész, secretária de Educação, chamava-o e dizia, "daqui a 60 dias temos de ter aqui uma escola para duas mil pessoas". E após 60 dias lá estava a escola, onde antes não havia nada. Nesse período, também trabalha com as diversas encomendas governamentais para edifícios de uso institucional do governo do Estado, dentre os quais se destaca o complexo do Centro Administrativo da Bahia - CAB.
Finalmente, a partir de 1991, a concepção e a construção da impressionante série de hospitais para tratamento do aparelho locomotor, os vários Tribunais de Contas da União e outros edifícios produzidos pelo Centro de Tecnologia da Rede Sarah (CTRS), são distribuídos por todo o País.
Nos hospitais da Rede Sarah, a ousadia construtiva de Lelé vai ao extremo. Além dos edifícios, concebe e produz também o mobiliário e os diversos equipamentos, como elevadores, teleféricos, ventiladores, luminárias, e as famosas camas-macas que permitem o deslocamento do paciente ortopédico, em geral submetido a longos períodos de imobilidade, por todo o hospital e até fora dele, nesse caso usando um veículo também por ele projetado.
Não é exagero dizer que Lelé talvez seja um dos raros exemplos mundiais de profissional que mantém viva a tradição do arquiteto como aquele que resolve efetiva e integralmente a construção. Vendo-se responsável, como projetista e construtor, por obras de grande porte e complexidade, e com cronograma restrito, elabora uma arquitetura que tem por necessidade ser comunicável e compreensível aos seus auxiliares e aos futuros usuários, com um grau de universalidade que talvez só a arte seja capaz de atingir (voltamos ao ponto inicial deste artigo...).
Nessa perspectiva, os componentes construtivos pré-fabricados concebidos por Lelé assemelham-se às notas e acidentes de clave das escalas melódicas, com as quais se podem elaborar infinitas composições, cada qual com sua identidade, concretizando a célebre frase de Goethe: "Arquitetura é música petrificada".
Tornam-se assim executáveis por qualquer pessoa, em qualquer lugar, que queira fazer uso de seus sistemas construtivos para resolver as necessidades arquitetônicas específicas da obra em questão. É como diz a jornalista Cynara Menezes, a quem Lelé prestou extenso e sensível depoimento, registrado na publicação O que é ser arquiteto, em 2004:
"(...) estruturas que sempre me fascinaram pelo inusitado de serem como um Lego gigante, peças que se encaixavam, que podiam ser montadas e desmontadas. Em qualquer lugar, se poderiam fazer escolas, postos de saúde, parques, equipamentos comunitários (...)".
Igualmente, ao enfrentar o desafio da produção industrial de edifícios e, portanto, no contexto de uma economia de escala, Lelé leva ao limite a precisão quanto ao dimensionamento das seções resistentes e à organização dos elementos e componentes construtivos, recuperando com maestria e excepcional destreza os preceitos da coordenação modular extensivamente apregoados por Teodoro Rosso em décadas passadas, quando a discussão sobre a industrialização da construção perpassava os programas habitacionais como alternativa.
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