Quando cursava o terceiro ano da FAU, decidi que queria viajar com uma bolsa de estudos, a única saída que encontrei para fazê-lo. Valia qualquer uma. Até para Asunción ou Cochabamba servia. Tive até um contrato para Havana (é isso mesmo, Cuba), mas felizmente a bolsa para a Itália chegou antes. Descobri que o melhor caminho era uma bolsa para o curso de desenho industrial da Faculdade de Arquitetura de Firenze, muito embora design não fosse de maneira nenhuma meu maior campo de interesse.
Quando me formei, ganhei a bolsa, junto com o Eduardo Almeida, para o curso que o João Carlos Cauduro já tinha seguido no ano anterior. Havia uns 15 alunos, entre os quais Paolo Deganello, que se tornaria un pezzo grosso, e os professores, Spadolini (não é um tipo de pasta) e Klaus König (não é da SS), gente muito fina. No ano seguinte, com outra bolsa, fui trabalhar no Departamento de Novas Cidades da Prefeitura de Londres, projetando um bairro inteiro em Andover (que loucos!), cidade a uns 200 km da capital. De Firenze para Londres, e do design para o urbanismo, uma leve mudança de escala.
Para minha surpresa, resolvi continuar a estudar design e me inscrevi em dois cursos noturnos na Central School of Arts and Crafts e, por engano, na St. Martins School of Art. Após algumas aulas entendi o engano: na St. Martins havia só mais um homem na classe e umas 40 mulheres, e o curso era focado no design de moda.
O engano foi sair do curso: da St. Martins, além das charmosas coleguinhas, saíram os (as) grandes estilistas ingleses (era o ano de Mary Quant e sua genial invenção, usada por todas as mocinhas na classe). Mas aí notei pela primeira vez que moda pretendia ser design, como se intitulam os desenhistas da São Paulo Fashion Week.
Repentinamente, me dei conta de que a palavra "design" passou a ser usada para centenas de atividades que não são design, mas, sim, desenhos, e se fossem usar a palavra em inglês seria drawings e os "designers" seriam... draftsmen.
Seriam necessários conhecimentos mais aprofundados de gestalt, semiótica, metalinguagem, antropomorfia, philosophia e da Maria Antonia para definir essas diferenças, mas usando apenas a prática, que tal fazer como os americanos, que simplesmente separam o que é design do que é apenas "styling"? O exemplo típico são os carros americanos, que mudam na aparência, sem mudar na essência.
Recordo-me quando não tínhamos importação e a cada ano a Volkswagen lançava o Fusca anunciado com 1.280 modificações, só perceptíveis com avançados microscópios eletrônicos. Isso sem absolutamente desmerecer o styling americano, que é trabalho para gente de muito talento.
A diferença estaria em dois pontos: no design, há uma interação total entre forma e função, porém fugindo da rígida definição arquitetônica segundo a qual "form follows function". No styling, trata-se de renovar formas, mantendo a função e, além disso, mudando de tempos em tempos a aparência externa do produto. Em resumo, moda.
O contrário seriam os carros projetados antigamente pela Citroën, os famosos da Segunda Guerra e, a seguir, a 2 CV e a DS (deesse, deusa em francês), cujo design durava 20 anos e se tornava eterno. Como produto, uma maravilha. Como marketing de vendas, uma tragédia. É o caso também da eterna máquina fotográfica alemã Leica enfrentando as câmeras japonesas, que se aperfeiçoavam a cada meia hora, tornando-se cada vez menores, cada vez mais leves, cada vez mais baratas, cada vez mais avançadas e cada vez mais vendidas.
Existe a moda de usar a palavra design para tudo o que está na moda - por exemplo, a própria moda - e há um claro status para a palavra designer. Identifico quatro tipos de atividade em alguma medida frívolas, mas que atingiram um status exagerado e desproporcional na vida de hoje: moda, beleza, decoração e gastronomia. Claro que são atividades agradáveis para quem faz e para quem as consome, mas definitivamente não são design na real acepção do termo. Além disso, nas sociedades afluentes ou emergentes há um claro motivo para essa valorização.
Essas ativifutilidades envolvem cifras cada vez mais elevadas e definitivamente ajudam a desenvolver a economia de um país. Uma refeição badalada e uma garrafa de vinho atingem valores inconcebíveis. Os cremes e produtos de beleza só vendem se tiverem preços exagerados em relação ao custo de produção e se intitulam "body design". É quase como a cirurgia plástica: já que não dá para mudar o design do cérebro das dondocas, você faz um styling no bumbum.
Mas voltando a Bauhaus, que inventou a moda (outra vez a palavra maldita) do multi ou pluri design, certamente os alemães teriam uma inveja incrível dos nossos maiores produtos de design, todos tipicamente brasileiros, e que desfilam o design da moda pelo mundo: Giselle Bündchen, Rachel Zimmermann, Shirley Mallmann, Anna Claudia Michels, Letícia Birkheuer, Mariana Weickert, Ana Hickmann.
A atitude comercial de projetar de maneira consciente e integrada todos os elementos e objetos que compõem a vida de todos os dias só pode ser elogiada e incentivada. E não é novidade: há décadas os países escandinavos conceituam, projetam e desenham tudo que é produzido - por incrível que pareça - até artesanalmente, como os doces de confeitaria.
A insossa comida finlandesa é maravilhosamente enfeitada e composta no prato. De todos os países escandinavos, que são mestres em design (ou em styling), os finlandeses são os mais destacados, porque reconheceram no design um meio extraordinário de transformá-lo no maior produto de exportação do país.
Um exemplo típico são os vestidos Marimekko, lindos, leves, soltos e coloridos, tão leves que só podem ser usados na gélida Helsinki ao meio-dia em dia de solstício de verão, mas que são exportados para todo o mundo como "moda finlandesa". Em uma atitude de marketing, os escandinavos promovem o seu design para todos os produtos, mas têm consciência de que uma parte é design e a outra é styling.
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