Longe de serem uma repetição monótona de unidades-tipo, as obras de Lelé caracterizam-se por uma variedade surpreendente de soluções arquitetônicas adequadas a cada contexto e programa, e sempre com grande enraizamento cultural ao coletivo que atende. Vê-se, assim, que o conhecimento profundo sobre as características dos materiais é uma meta em sua trajetória, consagrada na progressiva evolução da linguagem construtiva de suas obras.
Da madeira, alternativa primeira para resolver em regime de urgência os alojamentos para milhares de operários na construção de Brasília e, posteriormente, escolas transitórias, ao concreto armado e protendido, predominante nas obras das décadas de 60 e 70, Lelé percorre um caminho de descobertas tecnológicas que desemboca no rico universo atual das esbeltas estruturas mistas de aço e argamassa armada, a respeito das quais a melhor descrição talvez seja "leveza plena" de linguagem arquitetônica e estrutural, e de resolução econômica, haja vista o controle absoluto de consumo dos insumos e do desempenho energético, quer seja na produção e na montagem em canteiro, quer seja na vida útil do edifício.
Merece destaque a adoção da argamassa armada como material de base para suas obras a partir de meados dos anos 80. Seu conhecimento a respeito tem origem no estímulo de Lina Bo Bardi ao estudo da obra Pier Luigi Nervi, que o leva a somar a questão da pré-fabricação à necessidade de leveza, descobrindo a possibilidade de um novo material até então não explorado no Brasil. Um material dócil, resistente pela forma, próprio para o exercício da arte na engenharia de estruturas.
O que Lelé observa e apreende da obra de Nervi não é simplesmente o processo de executar argamassa armada, mas de criar, a partir desse processo, possibilidades inovadoras. O renomado engenheiro italiano usava o material não apenas para executar esbeltas peças estruturais em lâminas e barras - ia mais além. Nervi visualizou a possibilidade de utilizar o material também como fôrma de concreto armado em substituição à madeira e, mais ainda, incorporá-la ao concreto e obter acabamentos primorosos, inclusive em formas arquitetônicas orgânicas e requintadas, similares às mais elaboradas formas da natureza. Exemplo disso é a sofisticada estrutura de cobertura em grelha da Gatti, indústria de processamento de algodão executada por Nervi em Roma, em 1951.
Estudiosos e investigativos, Lina e Lelé valem-se do mesmo expediente para executar as lajes de piso que substituíram os assoalhos de madeira deteriorados na recuperação do Centro Histórico de Salvador, em 1988, optando, no caso, por uma distribuição ortogonal das nervuras da grelha, visto que seus apoios ocorrem na periferia da edificação.
Lelé, já profundo conhecedor do comportamento das estruturas, percebe que a argamassa armada é tipicamente um material para peças laminares devido às características de sua composição ou traço. Além da ausência do agregado graúdo (brita) e de uma maior dosagem de cimento em comparação ao concreto armado, a argamassa armada funciona com a armadura difusa (telas) e grande taxa de armação (acima de 200 kg/m3), apresentando, assim, bastante ductibilidade com menor possibilidade de fissuração.
Como as espessuras ideais de trabalho da argamassa armada são muito reduzidas (no máximo 40 mm), a opção para enrijecer as lâminas é conferir-lhes dobras e curvaturas, o que resulta em formas estruturais de grande riqueza plástica caso se queira explorar a natureza resistente do material.
É aqui que reside a consistência da produção de Lelé nas últimas duas décadas: como uma quintessência de sua concepção arquitetônica, ele assume a questão do aumento de inércia da seção pelas dobraduras em um exercício fantástico do que o memorável engenheiro de estruturas Joaquim Cardozo denominava de "simbiose entre estática e estética".
Um simples modelo feito com uma folha de papel pode comprovar como as dobraduras da seção podem amplificar enormemente sua resistência sem aumento de material e do peso próprio. Fisicamente, o que se promove é o deslocamento de material para longe do centro de gravidade, ou centro de giro, da seção. Quanto mais afastada a massa estiver do centro de giro, mais difícil é girá-la ou deslocá-la de sua posição original. Como a rigidez de uma seção é dada por sua maior ou menor facilidade de giro (o que se denomina inércia da seção), quanto mais afastado estiver o material do centro de gravidade, mais difícil se tornará girá-lo e, portanto, mais rígida será a seção.
Idéia simples no conceito, porém exigente na concepção e execução, pois requer investimento criativo para se atingir o desempenho resistente desejado, com economia de produção.
Assim, Lelé escapa da mesmice das formas ortogonais e massivas que normalmente vemos nos sistemas pré-fabricados e nos surpreende continuamente com volumetrias variadas e seções elegantes a serviço do diálogo do edifício com ambiente, criando espaços por onde, na mais perfeita tradução do poema Fábula de um arquiteto, de João Cabral de Melo Neto, caminham "por onde, livres: ar luz razão certa".
Fazendo, sem dúvida, uma arquitetura clara, nítida, inteligível, sensível, de "construir o aberto" e não de "fechar secretos", conforme diria o poeta, Lelé realiza a tese defendida pelo professor Henry Petroski em sua obra To engineer is human, qual seja, a idéia de que a engenharia de estruturas está mais próxima da arte do que da ciência, pois esta última tem como seu objeto o "mundo dado", enquanto as duas primeiras lidam com o "mundo criado".
Vale a pena recuperar o lembrete do engenheiro e filósofo Mílton Vargas sobre a sutil ligação entre tecnologia e a poesia, já que as duas trazem em si o caráter revelador de trazer à luz da realidade algo que estava anteriormente escondido. Poiésis em grego quer dizer criação, e a função de criar é desvelar algo que estava escondido.
Lelé, em vários de seus depoimentos, se diz frustrado pelas diversas obras ou iniciativas não realizadas ou interrompidas, quer seja pela alternância política nos governos contratantes, quer seja por restrições da burocracia, ou outros motivos. Insatisfação própria das mentes iluminadas, inquietas.
Mas o arquiteto-construtor, o engenheiro-artista, o mestre pleno do canteiro de produção pode se orgulhar de contar hoje com um legado de conhecimento que ultrapassa as edificações realizadas e se manifesta da mais tradicional forma como os arquitetos, imemorialmente, sempre foram educados e formados: na relação mestre-aprendiz. A obra de Lelé é hoje exemplo vivo usado como objeto de estudo nas escolas de arquitetura e urbanismo do Brasil e também no exterior, servindo como objeto raro de investigação sobre a atuação do arquiteto no campo da produção industrial da construção na atualidade, aos moldes do que o foram Nervi e os grandes mestres da Bauhaus.
Entretanto, se lhe dissermos dessa sua autoridade e maestria, certamente ele nos dirá, humildemente, no seu tom manso e gentil: "Que nada, gente, sou apenas um aprendiz há mais tempo".
BIBLIOGRAFIA
Latorraca, Giancarlo (organizador). João Filgueiras Lima. São Paulo: Lisboa: Editorial Blau, s/d.
Leite, Maria Amélia D. F. D'Azevedo. A Aprendizagem Tecnológica do Arquiteto. Tese de Doutorado. FAUUSP, São Paulo, 2005.
Rebello, Yopanan C. P. A Concepção Estrutural e a Arquitetura. São Paulo: Ed. Zigurate, 2000.
Pier Luigi Nervi. Process Architecture no 23, 1981.
Yopanan C. P. Rebello é engenheiro civil, doutor pela FAUUSP e professor nos cursos de graduação e pós-graduação em arquitetura e urbanismo da Universidade São Judas Tadeu. É diretor pedagógico da Ycon Formação Continuada. (yopa@ycon.com.br)
Maria Amélia D. F. D'Azevedo Leite é arquiteta e urbanista, doutora pela FAUUSP, pesquisadora e professora nos cursos de graduação em arquitetura e urbanismo e engenharia ambiental da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Especialista em Controle do Ambiente e formação em Educação Internacional. (melarquitetura@hiway.com.br)
PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2