Já não são raros casos de jovens arquitetos que iniciam os chamados cursos stricto sensu (mestrados e doutorados) pouco depois de concluírem a graduação. Será esse o caminho mais adequado para impulsionar a carreira, enriquecer o currículo e manter a atualização profissional? Como opções alternativas, os cursos lato sensu (especializações em nível de pós-graduação) oferecem a vantagem de serem mais curtos e de utilidade pragmática no mercado. Acompanhe outras características das duas modalidades e saiba em que perfis de arquitetos os cursos melhor se encaixam.
Unanimidade
À parte do debate sobre o direcionamento a ser tomado após a graduação, um aspecto primordial que não deixa margem para questionamentos é a necessidade de dar prosseguimento à formação. "O arquiteto é um estudioso por excelência. Todos os grandes profissionais, inclusive os que influenciaram a arquitetura moderna e contemporânea, tiveram uma formação continuada", ressalta o professor Valter Caldana, coordenador do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Para ilustrar a relevância da educação constante, Caldana menciona a difusão da estrutura metálica nos edifícios atuais, contra o prevalecimento quase absoluto das estruturas de concreto armado, no passado. "São diferenças que podem até parecer simples, mas exigem uma série de novos aprendizados e atualizações."
O professor salienta ainda que o grau de sofisticação do arquiteto está cada vez maior e mais além do conhecimento tradicional de edificações. "A importância da profissão tem crescido em vários setores, como desenvolvimento urbano, administração pública, ensino e expressão." Dessa forma, arremata: "Quem acaba a graduação e fecha o livro está com os dias contados - seja nas capitais, seja no interior".
Há ainda outro benefício da continuidade dos estudos, tão importante quanto a própria absorção de conteúdos por meio dos livros e das aulas: a convivência com os demais alunos, potenciais parceiros em trabalhos futuros e fontes interessantes para intercâmbio de experiências e informações. É um aspecto que, se bem explorado, tem muito a contribuir para a carreira do indivíduo.
Mestrado
Não existe segredo quanto à inclinação do mestrado à carreira acadêmica, seja enfocada em pesquisa ou em docência. Tanto que em uma das principais escolas do País, a FAUUSP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), candidatos com iniciação científica no currículo têm preferência no processo seletivo.
"Mas de maneira geral, os mestrados também têm ligação com o mercado", contrapõe o professor Eduardo Nobre, membro da comissão de pós-graduação da FAUUSP. "As aplicações mais práticas podem aparecer na formulação de planos, projetos e programas orientadores para os espaços urbanos que envolvem paradigmas socioeconômicos", justifica.
Valter Caldana, do Mackenzie, reitera a pertinência do mestrado para quem deseja seguir carreira acadêmica, mas alerta: "O que não pode acontecer é alguém deixar de fazê-lo por achar que é exclusivo daqueles que querem dar aulas. Não é verdade; também pode ser aproveitado para o trabalho". Segundo o professor, a opção pelo mestrado depende da vocação e do interesse no teor de aprofundamento que caracteriza o curso.
Sistemática acadêmica
Foi interessada nesse aprofundamento que Maria Cecília Barbieri Gorski, sócia-diretora do escritório Barbieri & Gorski, recentemente retomou - e terminou - o mestrado interrompido no começo da década de 1980, pouco depois de sua graduação. "Não era o momento certo na minha carreira (para realizar o mestrado)", sintetiza. "Algumas respostas só vêm com a maturidade profissional. Acho que o mestrado acabou concluído na medida, já que realizei no momento em que achei necessário."
Nesse meio período entre a suspensão e a retomada do mestrado, Maria Cecília fez um curso de capacitação em paisagismo e entretenimento. "É uma área que demanda especificidade muito grande, faltam pessoas com esse perfil profissional." Apesar do foco concentrado do curso, alguns trabalhos exigiram que fosse além, buscando, por exemplo, estudos de casos dentro e fora do Brasil. Em momentos dessa natureza emerge o valor dos estímulos metodológicos da academia.
"Por mais que o escritório traga novos conhecimentos, você não se debruça de uma maneira sistemática. É necessário se atualizar de um modo mais organizado, com aprendizado de várias disciplinas diferentes, interligando o conhecimento", argumenta a arquiteta. Foi exatamente o que ela buscou com o mestrado, finalizado posteriormente.
Stricto sensu para trabalho
Outro caso que reforça a contribuição do curso stricto sensu à rotina profissional é o do arquiteto Paulo Olivato. Em 2002, logo depois de ter se matriculado no mestrado, ingressou na empresa em que trabalha hoje, a Diagonal Urbana, cujo foco (planejamento urbano e gestão social) estava justamente relacionado ao assunto da sua dissertação, intitulada Intervenções nas Favelas: Solução ou Impasse? O caso de São Paulo na década de 1990. "Foi muito bom porque ainda pude remanejar e focar mais o tema da minha pesquisa em função da nova realidade do trabalho", lembra.
Olivato destaca ainda que o mestrado lhe conferiu maior segurança para refletir sobre a realidade da arquitetura segundo um ponto de vista mais amplo, crítico e integrado - não só aspectos urbanísticos, em se tratando da sua especialidade, mas também a face social, econômica e político-fundiária que a envolve. "A especialização é bem mais direcionada, oferece instrumentos para uma ação profissional especializada, mas não proporciona a mesma segurança do mestrado", avalia, com a experiência de quem se dedica, atualmente, a um curso de MBA lato sensu.
Os benefícios do mestrado se espalharam de outras maneiras pela vida profissional de Olivato. Ele chegou a receber uma oferta para trabalhar no Nordeste, em uma vaga também relacionada a temas sociais. "Faltam bons conhecedores nessa área", afirma.
Especializações
Para quem busca aperfeiçoar a qualificação em um segmento específico da arquitetura, os cursos de pós-graduação podem se revelar mais atrativos que os stricto sensu. "A especialização é um curso mais pragmático, ligado ao dia-a-dia profissional", diz Caldana, do Mackenzie. "O tempo demandado também é menor, embora o custo nem sempre seja mais barato que um mestrado."
A acentuada centralidade temática do lato sensu produz um risco que merece ser analisado com cuidado: o da escolha equivocada da especialidade. Se, por exemplo, um curso de marketing em arquitetura faz todo o sentido em uma conjuntura imediata, em poucos anos, numa simples troca de emprego, pode perder completamente a utilidade prática.
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