As curvas dos sheds na cobertura, tão típicas da arquitetura de Lelé, parecem pairar nesse conjunto como a dizer: é aqui que tudo começa. Amarram, assim, início e fim, em um movimento criativo que nunca se esquece da tecnologia, dos avanços, das mudanças - e da melhor maneira de oferecer conforto ao ser humano por meio da arquitetura. O próprio edifício do CTRS (Centro de Tecnologia Sarah Kubitschek) foi pensado a partir de futuras mudanças já em 1992, quando Lelé desenhou a fábrica e escolheu a melhor implantação para ela nos 80 mil m² do terreno (800 m de comprimento por cerca de 100 m de largura) ao longo da encosta da colina onde está situado o hospital Sarah Salvador. Na época, sua construção custou o equivalente a 17 milhões de reais - hoje o investimento na construção, instalações e nos equipamentos do Centro seria o equivalente a cerca de 50 milhões de reais. E havia planos de expansão.
Hoje, o CTRS ainda ocupa os mesmos 20 mil m² de área construída: não por falta de espaço ou de sonhos, mas por uma dessas decisões sem sentido, que fazem com que investimentos em boa arquitetura sejam barrados. "O Tribunal de Contas diz que fazemos competição com a iniciativa privada e nos proibiram de produzir qualquer coisa para fora, temos de trabalhar exclusivamente para a rede Sarah. Prevíamos uma ampliação para essa fábrica, mas parou porque para fazer só os hospitais da rede Sarah não tem necessidade de aumentar", explica Lelé.
A procura pelo serviço do CTRS, no entanto, nunca parou. Já saíram daqui oito prédios para o próprio Tribunal de Contas, e pequenas prefeituras por meio de convênios, em cidades da região Norte, tudo antes da proibição. "Nós fazemos as obras muito mais rapidamente e com custo baixo. E nosso tipo de construção é de qualidade", conta. Nem é preciso falar. O próprio edifício é um exemplo do que se faz aqui - função que o eleva a ser muito mais do que uma fábrica: é um grande centro de produção e desenvolvimento de tecnologia. Lelé sabe que o mundo está em constante mudança e que sua arquitetura, para ser eficiente, tem de estar apta a crescer a qualquer momento.
É da fábrica, dirigida pelo próprio arquiteto, que saem todas as peças e equipamentos para construção e manutenção dos dez hospitais da rede Sarah Kubitschek, de peças estruturais a equipamentos do dia-a-dia, como as camas-maca que também levam o desenho de Lelé. A fábrica é dividida pelos núcleos de produção: metalurgia pesada, metalurgia leve, argamassa armada, marcenaria e plásticos. Todos distribuídos em prédios térreos e interligados, com pé-direito de 6 m.
Mezaninos ocupam parte da projeção do pavimento e são destinados aos setores técnicos, administrativos e vestiários. É em um desses mezaninos que fica a sala de Lelé, sempre em contato com o que se faz lá embaixo: o vidro que separa o mezanino da produção faz com que todos os funcionários se vejam, se comuniquem, estejam constantemente ligados. É, na prática, a instauração do discurso de Lelé: integrar sempre. "Vivemos em um mundo em que a palavra-chave é integrar. A arquitetura tem de integrar vários saberes, e fragmentada do jeito que está é um caos", lamenta. No CTRS, espaço construído, equipamentos e usuários estão integrados. "É preciso que as equipes estejam muito azeitadas, trabalhando juntas, discutindo juntas a cada momento."
Dois corredores de 5 m de largura, em níveis sobrepostos, são responsáveis por interligar as oficinas. O do térreo tem como função o abastecimento e a intercomunicação dos setores. O corredor do piso superior serve aos escritórios e aos vestiários, ao longo do qual também se podem ver os trabalhos sendo executados nas oficinas.
O potencial médio de produção do CTRS equivale à execução anual de um hospital de 200 leitos equipado, no valor de 60 milhões de reais. Mas seu potencial máximo pode atingir o dobro: 120 milhões de reais, sem perda de qualidade e de custos de produção. A produção mínima para manter o centro economicamente viável não pode ser inferior a 20 milhões por ano.
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