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Casa

Razão, sensibilidade e maestria
Lelé usa a pré-fabricação com originalidade e estratégia na criação de casa no distrito federal

Por Valentina N. Figuerola Fotos Leonardo Finotti

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Um dos grandes nomes da arquitetura brasileira, João Filgueiras Lima, o Lelé, é conhecido pelo desvelo técnico e artístico com que cria suas obras. Uma delas - recentemente projetada e construída para um amigo - é uma casa cuja forma resulta da intenção de privilegiar ao máximo a paisagem natural do local, situado a 40 km do centro de Brasília. A fachada curva envidraçada revela o horizonte vasto de colinas e vales em sua plenitude. E, assim como a vista, a construção é surpreendente e expressiva. Lelé emprega componentes pré-fabricados metálicos na configuração de elementos curvos, como a cobertura em balanço que protege a residência da insolação excessiva.

Implantada num patamar inferior do lote, a casa propriamente dita tem planta baixa em coroa circular parcial que oferece uma visão panorâmica de um local "tão belo", nas palavras do arquiteto, que não poderia ser desmerecido por uma planta retilínea que dirigisse a vista do observador. "Aquela forma é lógica. Quando você chega naquele local, não sabe dizer o que é mais bonito ali, de forma que a casa foi inspirada na idéia de explorar o máximo possível dessa vista", explica Lelé.

Composta por telhas de alumínio pré-pintado, a cobertura curva é sustentada por treliças metálicas que convergem para um único ponto. Para o arquiteto, foi um desafio construir uma casa com sistemas industrializados num local afastado de Brasília, apesar de já ter vivenciado isso algumas vezes em sua longa trajetória profissional. Mas, nesse caso, havia o risco de não encontrar uma indústria que produzisse as telhas e a estrutura metálica especialmente desenhadas para a obra, de pequena escala. "Felizmente, uma indústria antiga de Brasília, a Irmãos Gravia, se prontificou a fazer os componentes primários", diz.

A residência ocupa um terreno bastante inclinado (com declividade superior a 30%), e foi construída em dois níveis configurados por muros de arrimo de pedra que também atuam como fundação. Mais estreita, a parte superior do lote foi reservada para o acesso de veículos em um percurso que termina numa marquise circular metálica, apoiada em um único pilar central. A entrada dos pedestres, a partir daí, é assinalada por outra marquise, de estrutura metálica amarela, vedada com vidro em ambos os lados.

A casa dispõe de sistemas simples de iluminação e ventilação naturais que são recorrentes na obra de Lelé. O isolamento térmico da cobertura, por exemplo, é garantido por um colchão de ar ventilado entre o forro e as telhas e pelas camadas de Bidim - um geotêxtil não-tecido de poliéster - aplicadas na superfície interna de ambos. "O material também atua no tratamento acústico da residência, absorvendo os ruídos da chuva", acrescenta o autor do projeto que, além disso, pensou num jardim d'água para amenizar os efeitos do clima seco da região. Integrado à área de convivência que transpassa a casa, embeleza e cria um microclima agradável.

Para Lelé, a etapa mais preocupante de um projeto de arquitetura é a implantação do edifício. "Principalmente em um terreno tão peculiar e acidentado quanto o dessa casa", acrescenta o arquiteto, cujo trabalho se iniciou com o desenvolvimento de uma maquete rigorosamente detalhada do lote. Neste momento da entrevista, Lelé fala sobre a admiração que tem por Oscar Niemeyer. "Nunca vi o Oscar cometer nenhum deslize ao implantar um edifício no terreno e posso dizer que aprendi muito com ele sobre isso", completa. Nascido em 1932, Lelé graduou-se em arquitetura pela Faculdade de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1955. Recém-formado, foi a Brasília trabalhar com Oscar Niemeyer na construção da nova capital. Dessa convivência, Lelé parece ter desenvolvido uma arquitetura de formas desinibidas, muitas vezes curvilíneas, mas que é única e original quando incorpora, com maestria, os componentes pré-fabricados em série.

SENSE, SENSIBILITY AND MASTERY
João Filgueiras Lima, aka Lelé, is known by his technical and artistic zeal in creating his works. The residence, recently designed for a friend, shows in its shape the intention to maximally emphasize the natural landscape near Brasília. The curved glass facade reveals the vast horizon of hills and valleys. Built in a lower plane of the lot, the house has a partial circular crown plan offering a panoramic view of such a beautiful environment, in the architect's words, that it could not be disregarded by a straight plan which would guide  the observers' views. "That shape is logical. When you reach that place, you can't decide what is more beautiful", explains Lelé. The house is provided with simple lighting and natural ventilation systems which are recurrent in Lelé's works. The thermal insulation of the cover, for instance, is guaranteed by a ventilated air cushion between the ceiling and the tiles and by layers of a non-fabric polyester geo-textile, applied in the internal surface of both. The material also helps in the acoustic treatment of the residence, while the water garden softens the effects of the region's dry climate: integrated to the social area, it beautifies and creates a pleasant micro-climate.



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