Nas salas de banho criadas hoje, as peças sanitárias podem ser tão sofisticadas quanto jóias e gadgets eletrônicos. Como outros ambientes da casa, o banheiro reflete um estilo de vida, tornando-se um espaço onde ideais de beleza, saúde e satisfação pessoal se integram. Foi um salto e tanto se imaginarmos que há 60 anos o Brasil mal possuía saneamento básico e instalações hidráulicas eram consideradas luxo!
Com exceção da elite, que já possuía o seu quarto de banho completo, nos moldes europeus e americanos, as residências dos anos 40 tinham apenas um banheiro que atendia toda a família e, em geral, ficava em uma edícula atrás do imóvel. Havia poucos fabricantes de louças e metais e a maioria dos acabamentos e instalações sanitários eram importados da Inglaterra.
Com a melhoria da infra-estrutura e a disseminação dos hábitos de higiene, o banheiro entra na casa, mas ainda se situa no fundo, acoplado à cozinha para aproveitar a mesma coluna de água. No Brasil, começa a produção de porcelana vitrificada branca. Vasos e bidês tinham formas arredondadas e ficavam sobre piso, e os lavatórios retangulares apoiavam-se sobre colunas. "As peças nasciam da questão técnica", conta o designer Leonardo Maggiavacchi, diretor de design industrial do Istituto de Europeo Design. O sifão tinha de 12 a 18 litros e ficava exposto atrás da privada. "Tanto a válvula quanto as caixas de descargas eram usadas para despejar os dejetos. Os metais sanitários, em liga metálica, eram torneiras básicas, quando muito compostos por bica e dois volantes, lembrando o desenho de um simples registro.
Cresce a demanda
Os anos 50 são marcados pela inovação arquitetônica, quando se inicia a construção de Brasília, cuja demanda aquece o mercado sanitário. Nesse período, o banheiro se aproxima da área íntima, conquistando um novo degrau na hierarquia dos espaços. Os projetos ficam mais arrojados e são lançadas louças em cores fortes e chocantes, como roxo, azul-escuro, preto e vermelho, acabando com a ditadura do branco.
O sucesso da indústria sanitária e o preço acessível da produção democratizam o hábito da higiene e já se prega a privacidade do casal com o uso de lavatório duplo. Surgem os modelos de encaixe, para atender os armários sob medida, que saem de trás dos espelhos, deslocando-se para o vão ocupado pela coluna. Os metais apresentam desenho mais elaborado, com volantes mais robustos e vistosos, produzidos com novos acabamentos. As banheiras reinam absolutas.
Nos anos 60, as residências ainda contam com apenas um banheiro para toda a família, mas os apartamentos já apresentam mais uma instalação para uso da empregada. As pias ganham formas mais ovaladas, mas o design das peças não difere muito da década anterior. A influência do movimento hippie chega em algumas louças estampadas com motivos florais. Nas casas mais abastadas aparece o lavabo, próximo da sala de visitas. Aparelhos elétricos como o chuveiro invadem o ambiente que continua amplo. Em nome da praticidade, a banheira aos poucos sai de cena.
Nos anos 70 a indústria imobiliária lança a suíte do casal com o banheiro individualizado, nos moldes da hotelaria. Agora, os tons fortes estão nas superfícies, que se harmonizam com peças em cores discretas e pastéis, mas as louças em cores marcantes com coluna persistem e o desenho começa a se geometrizar. As bancadas ganham destaque, e aparecem as cubas de embutir e de encaixe. Alguns modelos de vaso com caixa acoplada ressurgem.
Em prol da funcionalidade
"Nas décadas de 60 e 70, boa parte do Brasil contava com esgoto ou fossa séptica, e a indústria começa a investir no desempenho das peças", lembra o engenheiro mecânico Marco Milleo, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Materiais e Equipamentos para Saneamento, Edificações, Energia e Irrigação (Asfamas). Além de funcionar adequadamente para atender a higiene, as peças deveriam ser estanques e duráveis.
As instalações hidráulicas de cobre e ferro começam a ser trocadas pelas de PVC, que, na época, ainda podiam romper devido ao golpe de aríete. Em 1973, é lançada a válvula com dispositivo de regulagem para controlar o tempo do fechamento, evitando o rompimento da tubulação.
O mecanismo de vedação interna, o famoso courinho, ainda dependia da força do usuário, comprometendo a vida útil do metal. A vedação externa era em gaxeta com amianto. Para melhorar desempenho e durabilidade dos metais, nos anos 80 a borrachinha foi colocada direto no pistão com parafuso e, nas linhas diferenciadas, a gaxeta é substituída por anéis. No final da década, em prol da durabilidade e economia, a borrachinha é aprimorada e, como opção, cria-se a pastilha cerâmica. Ambos os sistemas independem da força do usuário, trabalham em baixa pressão e apresentam vida útil de 500 mil ciclos.
Embaixo da pia, o espaço da coluna é preenchido de vez pelo armário, popularizando os modelos de lavatório de encaixe e de sobrepor. E as bacias com caixa acoplada aos poucos voltam para os banheiros, em nome da economia de água.
Transformação radical
"Na década de 90, o banheiro assume em definitivo sua vocação de espaço de culto ao bem-estar", enfatiza Milleo. Nos anos 90, a casa ganha outros ambientes, como home-theatre e home-office, e passa a contar com mais banheiros. O ambiente é promovido a sala de banho e torna-se mais pessoal - em muito casos, individual. Para atender o novo perfil de consumidor, que busca beleza, conforto e boa relação custo-benefício, a indústria segmenta suas linhas, dispondo em seu catálogo desde as mais sofisticadas às mais econômicas.
"Esse é o momento em que o design ganha importância, quando há preocupação com a ergonomia e com a integração na arquitetura", destaca Milleo. O ambiente torna-se monocromático e as formas mais limpas. O branco agora é sinônimo de saúde. O cromado é usado para dar sofisticação aos espaços, e o dourado aparece como detalhe. O segmento começa a se preocupar com a cadeia produtiva e com a opinião do consumidor, passando a dar aos acabamentos e peças sanitárias tratamento de elemento de decoração.
No final do século 20, foi também a vez da evolução dos mecanismos das torneiras. O design leva à busca da perfeição estética e alcança o controle de vazão. Com a moda da alavanca, a torneira agora fecha com ¼ ou meia-volta, permitindo o alinhamento dos volantes. Também são lançados novos reguladores de vazão, conhecidos como monocomandos, com um comando e uma bica.
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