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Crônicas Agudas


Os elegantes brancos
The day after

Por Sergio Teperman

Osvaldo Pavanelli

É dia do seu aniversário e um amigo inspirado envia a você um presente original. Dentro de um lindo pacote, embrulhado com celofane e uma fita vermelha, você recebe um comportado dinossauro, velhinho em folha.

Você põe o bichinho no quintal e meia hora depois o carinha já destruiu a cozinha, as patinhas afundaram o chão do quarteirão, o rabinho acabou com a edícula e dois prédios de apartamentos, e para resolver a questão do almoço, ele devorou todo o parque municipal. Você delicadamente amarra uma cordinha no bicho e vai puxando a gracinha até levá-lo de volta ao amigo remetente. Que sorte que dinossauros se movem!

Imagine agora que a sua cidade receba um monte de edifícios, em geral brancos, nos lugares mais diversos e destinados a um evento específico que dura no máximo uns três meses. Quando tudo acaba, a cidade não sabe o que fazer com os elegantes prédios, amarra uma cordinha nos pilares e tenta arrastá-los, mas eles não se movem. Que azar, eles são imóveis!

Isso se for uma exposição ou uma olimpíada.  Se for uma copa do mundo, os dinossauros se espalham por todo o País, ou até por dois países.

Muito embora os assuntos da moda - sustentabilidade e reciclagem - estejam longe de ser a questão principal de um projeto de urbanização, não deixa de ser um contra-senso construírem edifícios visando a um evento e depois tentar inventar finalidades para a sua utilização futura quando ou não existe necessidade daquele tipo de edificação, ou a sua adaptação e adequação a outra atividade é muito difícil ou muito cara.

Ou ainda quando se confunde o possível valor histórico de um edifício com valor arquitetônico e, em lugar de demolir, chamam arquitetos famosos para transformá-los em mais um museu ou centro cultural, cheio de áreas e funcionários ociosos.

Será que não é possível adaptar antigas estruturas para novas finalidades que não sejam somente centros culturais? Há tantas outras funções necessárias ao dia a dia, como hospitais, bordéis, escolas, cassinos... Ainda assim, mesmo que conjuntos mais antigos só possam abrigar uma finalidade, como estádios de futebol, é possível transformá-los em atrações que cubram o seu custo de manutenção. É certo que para atingir o nível do nosso futebol, os europeus ainda vão ter de se subdesenvolver muito, mas em matéria de utilização de instalações esportivas, estamos na pré-história.

Em viagem recente à Espanha, vi a máquina de fazer dinheiro com turismo que é o estádio do Barcelona, Visca Barça! E vai ser demolido para um novo projeto de Norman Foster. Fui ainda convidado para jantar em um dos luxuosos três restaurantes com vista para o campo do Real Madrid. Um espetáculo!

Barcelona é o exemplo supremo de que uma mentalidade arejada e um bom grupo de planejadores são capazes de organizar um grande evento como uma olimpíada e, ao mesmo tempo, integrar as suas obras de maneira tão precisa que parecem sempre ter estado lá, por séculos.

Dei-me ao máximo do luxo de gastar tempo precioso estendido na praia em um local onde antes estavam os armazéns do porto e a linha do trem, que foi enterrada por quilômetros e quilômetros, criando uma frente de mar. E pude assistir a um concerto no Palau St. Jordi, o ginásio de esportes projetado e integrado por Arata Isozaki no parque de Montjuich, com uma qualidade acústica equivalente aos antigos teatros de ópera. Tudo isso permite uma multiatividade das instalações, que não são mais ginásios ou estádios, mas arenas. Na mesma época, a equipe de Rafael Nadal,"o touro de Mallorca", jogou a Taça Davis em Madrid contra os Estados Unidos em uma... plaza de toros!!!

Enfim, com inteligência é possível fazer inúmeros usos de edifícios inicialmente destinados às olimpíadas. Agora, com a idéia restrita a fazer dólares, o que se consegue como resultado são eventos medíocres como os de Los Angeles e Atlanta - essa, a olimpíada da Coca (Cola, bem entendido). E se o caso é somente mostrar imagem política, os edifícios servem para o dia da inauguração e basta.

Tornam-se Cavalos de Tróia dentro das cidades, verdadeiros e inúteis sorvedouros de dinheiro. Presentes de grego, que é onde as olimpíadas começaram.

Londres, que já possui dois estádios para cem mil pessoas novinhos em folha (Wembley e Emirates/Arsenal), além de vários outros (Tottenham, Fulham, Chelsea, etc.) vai construir um superestádio para as olimpíadas de 2012. E das 20 instalações que serão construídas para os jogos, 16 serão posteriormente demolidas!

Isso sim que é sustentabilidade: o terreno é tão caro que é melhor demolir após o uso. Não sei o que farão com o material...

Em Teheran há dois estádios, um para 100 mil homens e outro para 40 mil mulheres. Felipão, Luxa, Muricy, taí uma ótima tática: lança a bola para um atacante no outro estádio e torce para o sinal ficar vermelho e a defesa não conseguir atravessar a rua e voltar! É inacreditável que a religião, responsável por milhares de obras maravilhosas de arquitetura, condene um povo que já foi dos mais brilhantes do mundo a uma ignorância total nos dias de hoje.

É muito mais difícil transformar copas do mundo em reurbanizações, porque envolvem várias cidades e poucas instalações por cidade, mas ainda assim é possível e um bom pretexto para se renovarem estradas, aeroporcos, telecomunicações e, no caso do Brasil, ainda que existam poucos hooligans ou barrabrabas, temos problemas de segurança de sobra a serem enfrentados.

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