Uma técnica para manter os veios naturais da madeira garante às peças do designer Artur Moreira as divertidas curvas que apresenta - e sem recortes. O desenho é resultado de um trabalho de aquecimento e umedecimento da madeira, adquirida em casas antigas nos Estados Unidos, país onde Artur vive há dez anos. "A técnica é parecida com a da construção de barcos: primeiro aqueço e vou 'trazendo' a madeira, que é muito dura e não tem tanta flexibilidade; já aquecida, apresenta um aspecto emborrachado e, quando molhada, volta à dureza inicial. Depois de um ou dois dias, a madeira pega curvatura e é aquecida novamente", explica Moreira.
Para a confecção de uma peça como a Rupture, espécie de torre partida ao meio, o processo leva em média 25 dias, que não podem ser consecutivos. Para terminar o primeiro exemplar, porém, Moreira levou quatro meses.
A idéia da torre partida surgiu em um momento de falta de novas idéias. "Não havia inspiração, eu já tinha explorado várias formas. Um dia acordei preocupado com isso e comecei a desenhar em um caderno. Fiz um traço para um lado, para outro, olhei para a mesa de casa, que tinha um copo com uma tulipa. E se eu partisse a mesa? E se colocasse algumas gavetas?", narra.
Após conceber seu objeto, Moreira foi em busca do melhor material - a madeira com veios aparentes para destacar as gavetas. A zebrawood foi a escolhida por suas fortes linhas em marrom e amarelo que contrastam com a estrutura de cerejeira. "Quando as pessoas vêem, não se dão conta de que são gavetas, principalmente as de cima, que são menores", comenta. As gavetas, aliás, foram um dos desafios do projeto. "Não sabia se haveria espaço suficiente para abri-las e fechá-las, e qual o limite desses mecanismos."
O formato foi então determinado pela proporção entre a largura e o comprimento da peça (70 cm e 1,42 m, respectivamente). Embora tenha alguns detalhes, como os estudos feitos para o encaixe correto das gavetas, optou-se por não fazer protótipos: a Rupture foi direto do papel para a execução.
Com a estrutura do móvel pronta, Moreira dispôs os veios da madeira de forma a produzir o efeito torto - uma das partes mais delicadas do trabalho. "A combinação dos veios não podia ficar competitiva nem desigual. Quando pronta, dá a impressão de que toda a peça está torta; muitos acham que é uma árvore inteira", diz. O acabamento final é em laca natural, transparente, para não tirar o charme dos veios.
E para "não perder a graça", o designer adotou o tamanho da sua primeira Rupture como padrão. Nessa peça não há ponto de equilíbrio, fundamental em outras de suas obras, como a Spine - uma "torre entortada", com 2,6 m de altura e 91 cm de largura, e que funciona como rack para 45 garrafas de vinho.
Para que a Spine se equilibrasse, foram amarradas quatro cordas entre o topo do objeto e os quatro cantos do teto. A idéia é brincar, colocando números variados de garrafas no rack, até que ele encontre um ponto fixo.
Moreira levou seis meses para confeccionar a primeira Spine, muito influenciada pelas idéias do surrealista Salvador Dalí. "Interesso-me também pela técnica de Oscar Niemeyer, que dá curvas ao concreto, produzindo funcionalidade", comenta.
A funcionalidade, aliás, é uma preocupação que marca a obra de Moreira. "Minha idéia é que as pessoas tenham uma coisa artística, escultural e funcional. Eu procuro sempre desenvolver arte com uma segunda utilidade; tento encontrar isso de alguma maneira", declara.
O designer também credita a materialização de suas idéias à conversa que tem com a madeira. "Com a técnica disponível, a madeira só chega até certo ponto, então, digo: 'não vá me decepcionar!', e ela me atende."
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