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Edição 176 | Novembro/2008
Entrevista
Geometria redescoberta Para o engenheiro responsável por algumas das mais famosas obras da atualidade, a arquitetura vive um renascimento
Por Camila Viegas-Lee
"Muita arquitetura simplista já foi construída. Há espaço para outras coisas." Assim Cecil Balmond explica sua maneira de pensar novos projetos, como a ponte em Coimbra, Portugal, em que repensou as premissas de uma ponte: a idéia partiu de margens que não se encontravam. "As pessoas deveriam mover os eixos um pouco mais", diz
O visionário Cecil Balmond sempre abordou a engenharia de forma pouco ortodoxa. No início dos anos 80, começou a colaborar com uma série de renomados arquitetos para construir edifícios extraordinários como a Staatsgalerie Stuttgart (1984) com James Stirling; o Kunsthaal Rotterdam (1994) com Rem Koolhaas; e os pavilhões de exposição da Serpentine Gallery de Londres, que são erguidos todos os anos desde 2001 por arquitetos convidados, entre eles Toyo Ito, Daniel Libeskind e Álvaro Siza.
Hoje, o vice-presidente do conselho da Ove Arup and Partners Limited lidera a Unidade de Geometria Avançada que ele próprio fundou em 2000 para reunir pesquisadores, designers, arquitetos, cientistas e engenheiros.
Além dos edifícios, Balmond desenhou a estonteante escultura Marsyas, de Anish Kapoor, instalada na Tate Modern em Londres (2002), a controversa Casa da Música, com Rem Koolhaas, no Porto (2005), a surpreendente ponte Pedro e Inês, em Coimbra, Portugal (2006), e a instalação H_edge para o Artists Space em Nova York (2006).
Durante o café da manhã no hotel Kitano, onde sempre se hospeda quando vem a Nova York, Balmond se serviu com uma porção de ovos mexidos do bufê e pediu que o garçom trouxesse duas fatias de pão "bem torradas, como fazem os ingleses". Entre um gole e outro de café com leite e adoçante, o engenheiro falou sobre sua infância no Sri Lanka, sua passagem pela Nigéria, como se tornou um engenheiro-arquiteto-artista e sua exposição na Madlener House, em Chicago, apresentada pela Fundação Graham, que permanecerá aberta até o dia 14 de fevereiro.
aU A MANEIRA PELA QUAL VOCÊ VÊ A ENGENHARIA, A ARQUITETURA E AS ARTES É MUITO PARTICULAR. COMO FOI A SUA FORMAÇÃO COMO ENGENHEIRO E QUAIS SÃO AS RAÍZES DESSA ABORDAGEM? CECIL BALMOND Engenharia foi uma boa área de formação porque é rigorosa e você aprende o que fazer e como fazer as coisas. Em arquitetura, especialmente hoje com as novas formas e a tecnologia, se você não é bom corre o risco de fazer algo perigoso. Na minha unidade, eu pratico engenharia e arquitetura, mas chamo o resultado de geometria para aproximá-lo das ciências. Entretanto, a idéia é promover a ressurreição do ideal grego antigo - a geometria como invenção da forma. Números e proporções são belos e os edifícios resultantes desses números são bonitos também. A geometria foi a primeira inspiração para a arquitetura, os templos eram todos baseados em números e idéias. Não se tratava de matemática: a matemática é uma idéia moderna, mas de números simples, proporções, razões, etc. E isso é diferente de repetição. Você pode ter uma área em que a relação de suas medidas seja semelhante à relação de medidas de outra área menor. Simetria. Não é a simetria que nós conhecemos, mas a embutida. Harmonia, simetria, geometria, eurritmia - esta é uma palavra maravilhosa, a vida de uma forma. Quem visitar a minha exposição em Chicago vai ver que ela está dançando.
À esquerda, a ponte em Coimbra (2006) e, à direita, escultura Marsyas, de Anish Kapoor, instalada na Tate Modern em Londres (2002)
aU VOCÊ SE CONSIDERA MAIS ARQUITETO, ENGENHEIRO OU ARTISTA? BALMOND As pessoas dizem que sou arquiteto, mas não faço parte da arquitetura mainstream. Também não quero que o meu trabalho seja visto como um jogo. As pessoas já conhecem e entendem o cartesiano. Eu quero fugir da caixa. Meu objetivo é encontrar uma nova estética. E quando você vai atrás de uma nova forma, fica mais difícil. De vez em quando idéias interessantes surgem, como o espaço de fractais que vai estar representado na exposição com o H_edge em Chicago.
aU NO ANO PASSADO, O MUSEU DE ARTE MODERNA LOUISIANA, NA DINAMARCA, APRESENTOU UMA GRANDE EXPOSIÇÃO DE SEU TRABALHO. COMO SERÁ A EXPOSIÇÃO DA GRAHAM FOUNDATION EM CHICAGO? BALMOND Quando a Graham Foundation me convidou para montar uma exposição, eu pensei que seria num museu. Então eu vi a Casa Madlener e eu pensei "oh meu Deus! O que é que eu vou fazer numa casa?" Arquitetura é difícil de mostrar. O público não gosta de ver desenhos nas paredes. Na primeira exposição que montei em Harvard (quando foi professor convidado pela Harvard Graduate School of Architecture, em 2000), eu montei uma máquina que iluminava painéis coloridos nas paredes, com números, padrões, desenhos. Meus projetos eram coloridos, vermelho, amarelo, verde, roxo, azul. Ficou maravilhoso (risos). Você entrava na sala e ela parecia um espectro. Só quando você chegava perto conseguia reconhecer os desenhos com as linhas em branco. Eu acredito que a cor seja uma forte fonte de poder. Cor dá substância. Outra coisa que coloquei foram vídeos do meu escritório em que eu aparecia escrevendo, desenhando. Todo mundo queria uma cópia do vídeo porque tinha muita informação. Para a exposição da Graham, eu pensei em transformar o espaço na minha casa. Essa era a única coisa que eu podia imaginar. Eu não poderia colocar uma exposição convencional lá. Eles tinham uma exposição de arquitetura programada para o segundo andar e eu disse "não, vou tomar a casa toda". Quando você entra, já está na minha casa. Há obras de arte que eu poria em minha casa. Coloquei uma televisão onde eu teria uma televisão. Eu quero assistir a CNN e a TV está sintonizada na CNN. (Os organizadores) não gostam de algumas dessas coisas. Mas eu quero que seja a minha casa. Quero colocar minhas roupas lá. Quero até que a minha música esteja tocando. Quando você entrar na biblioteca, vai estar tocando as músicas de que eu gosto.
aU O QUE VOCÊ GOSTA DE OUVIR QUANDO TRABALHA? BALMOND Gosto dos brasileiros Baden Powell, do Milton Nascimento e da Baby Consuelo. Adoro violão clássico, como os espanhóis Fernando Sor e Francisco Tárrega. E muito jazz e música clássica. Bach. Eu também compus uma música para essa exposição e se chama Solid Void. Olha que coincidência: o nome original dessa exposição era House (Casa) e os estudantes (que estão ajudando na montagem) disseram que era um ótimo nome porque Chicago inventou a House Music. Então pensei "ótimo: um monte de jovens que não sabem nada sobre arquitetura vão visitar a casa". Então compus uma House Music, eletrônica, com meus dois filhos. Temos um estúdio pequeno em casa e compomos juntos. (Balmond tem três filhos, John Jehan, de 29 anos, Sarah, de 28, e James, de 25). (Os rapazes) trabalham com publicidade e mídia e fazem música paralelamente.
aU E SE O SEU DESEJO SE REALIZAR E O PÚBLICO NÃO ENTENDER NADA SOBRE ARQUITETURA? BALMOND Seria ótimo. Acho que se você vem para a minha exposição, ela deve te satisfazer. Não se trata de dizer como sou bom arquiteto mas basicamente eu quero que você se divirta. É um pouco diferente de outras exposições em que o artista quer mostrar ao público o quão importante ele é. Eu quero que as pessoas se divirtam e que esqueçam que a exposição é minha. Não me importo se eles não lembrarem do meu nome. Não importa. Quero que as pessoas fiquem curiosas, "o que é isso?", e talvez procurem o significado de fractais no computador. Isso é o que eu quero.
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