Os assuntos desta (5ª) coluna vareiam muito. Às vezes um tema me vem à cabeça, às vezes discuto com a editora, e em casos raros o big boss determina...
Como parece ser possível que talvez eventualmente haja a possibilidade improvável de uma crise no Brasil, ao contrário do que afirma o dileto presidente, porque no país do PT não existe crise, a direção da revista sugere que eu escreva sobre o assunto, embora para efeitos externos e principal e infelizmente internos eu não entenda nada de administração e muito menos de economia.
De capitalismo, sei que nossa capital não é Buenos Aires e, de comunismo, a única coisa que já vi foram alguns escritos de Lennin e MarxCartney.
Mas arquitetos, assim como publicitários e jornalistas, enfrentam toda hora assuntos de que jamais tiveram conhecimento, da mesma forma que as editoras (esmagadora maioria feminina) de revistas de arquitetura, engenharia e decoração escrevem e editam assuntos que nunca estudaram, às vezes com um senso agudo de observação e crítica.
E levando em conta que dois dos nossos melhores e mais conhecidos jornalistas de economia são sociólogos, que nosso melhor ministro da fazenda foi sociólogo (e presidente), e que nosso presidente é torneiro mecânico (e Corintiano), tudo é possível.
Se um sujeito que nasceu no Quênia, é casado com um indonésio, a avó divorciou da filha no Havaí e o ex-marido muçulmano, sei lá o que mais nessa confusão, e se chama algo como Irak Hussein Osama vira presidente do mais poderoso e quebrado país do mundo, tudo é possível.
Enfim, agora que o homem está na Black House substituindo o filho do Bush (e de outras coisas), após um brilhante outro presidente cujo único defeito era gostar de charutos, o que será que vai acontecer? Quanto ao Bush do matinho, não sei o que foi lá fazer com o Dick do Cheney, mas boa coisa sei que não foi. Enfim, se ferraram e o país e o mundo.
Quem diria que o mundo caiu porque umas velhinhas americanas compraram umas casinhas e não pagaram? Seria muito fácil escrever este artigo: bastaria reproduzir o primeiro que escrevi para AU há algumas semanas e que tinha por título Os três porquinhos, atualmente adaptado para Os três elefantinhos ou Os três burrinhos, os símbolos dos partidos americanos, muito embora o último seja mais adaptado aos políticos nacionais.
O artigo se referia ao "conto do BNH", que traduzido para o americano seria Freddy Mae and Fanny Mac ou Mac Mae and Funny Freddy e vamos parar por aqui senão dá besteira.
Evidentemente que o problema não está só nas hipotecas e o que se revelou foi um formidável e fatal descalabro do sistema financeiro internacional. Aí pronto: a construção pára. Será que é possível algum inocente acreditar que só por causa de uns motoristas de táxi e de uns vendedores de hot-dog terem comprado uns apartamentos, refinanciado, tri-financiado e repassado a terceiros, que os revenderam a bancos, que os passaram a financeiras, que os hipotecaram para companhias de seguros, o mundo tenha caído? O nome dessa história em americano é perfeito: mortgage. Se fosse uma coisa honesta se chamaria livegage. E, como sempre, o problema se origina nos arquitetos, que fizeram o crime de projetar essas casas.
Parecemos os judeus, "o povo eleito". Será que não dá para Deus eleger outra profissão? Quando me formei, éramos poucos arquitetos. Minha classe na FAU tinha 40 alunos e o Mackenzie, 60 por sala. Em São Paulo, isso era tudo. Tínhamos trabalho em dose razoável, porque era a época de Brasília e as pessoas começavam a compreender que projetos de arquitetura e urbanismo deveriam ser feitos por arquitetos e não por engenheiros.
Passei seis anos fora e quando voltei, uns dois anos após aquela gloriosa e democrática revolução que Stanislaw Ponte Preta adequadamente chamava de "A redentora", tudo tinha mudado e havia uma tremenda crise. Era uma fase difícil para recomeçar a carreira, virei jornalista. O surpreendente é que, tendo passado tantos anos e perdido os contatos pessoais e profissionais, estava na mesma situação de quem tinha ficado aqui. Todos passaram anos sem trabalho.
Veio a era Delfim Neto e uma situação econômica mundial parecida com essa que o governo do PT desperdiçou. O dinheiro internacional estava barato e, em vez de empregar e aumentar o salário dos companheiros (e a porcentagem de finanças do partido), o Brasil resolveu fazer obras, obras demais, que endividaram o País. Mesmo assim, um gasto infinitamente melhor do que o feito pelo governo atual. Foi a chamada época do Brasil grande - e põe grande nisso.
Metrôs do Rio e São Paulo, ponte Rio-Niterói, usinas nucleares, Itaipu, Tucuruí, aeroportos, Transamazônica, a loucura da rodovia perimetral Norte (uma utopia negociata patriótico-militar) e prédios de apartamentos aos montes. Lembra alguma outra época?
Afirmo que era possível entrar em uma construtora para se apresentar e sair de lá com dois, três projetos de tipos diferentes, fora os trabalhos em todos os outros setores. Além disso, como eram contratações honestas, os projetos do governo eram dados para os amigos, sim, mas os contratantes eram suficientemente inteligentes para contratarem os amigos competentes, que não lhes trouxessem problemas técnicos depois. Não havia a pseudomoralidade das licitações técnicas e por preço, em que a decisão é baseada, simplesmente, no preço.
Excetuado o período negro do arrastagatu Medici, as coisas durante a ditadura brasileira eram menos terríveis do que fizeram os colegas milicos do cone sul - crises políticas e econômicas detonaram o Chile e, principalmente, a Argentina e o Uruguai.
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