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Cenário



Fernando Alcolea
Imagem atual da antiga rodoviária e o quarteirão em que será implantado o Teatro da Dança
POLÊMICA NA CONTRATAÇÃO DE HERZOG & DE MEURON
ABRE ESPAÇO PARA QUESTIONAMENTOS SOBRE A PROFISSÃO NO BRASIL

Vizinha à cracolândia, em frente à Estação Júlio Prestes, onde está a Sala São Paulo e a Secretaria Estadual da Cultura, a antiga rodoviária de São Paulo - motivo de orgulho para os paulistanos quando foi inaugurada, em 1962 - hoje é um shopping de roupas de baixo custo. Mas até meados de 2009, o edifício e todo seu quarteirão virão abaixo para se transformar em um canteiro de obras de onde deve sair o primeiro projeto dos suíços Herzog & de Meuron na América Latina: o Teatro de Dança de São Paulo.

A idéia da construção do teatro ganhou corpo em 2007, quando se anunciou  a desapropriação das lojas e das edificações vizinhas. O novo edifício   deve ocupar 15 mil m², com cerca de  30 mil m² construídos.   

A contratação do escritório suíço não passou em branco, nem sem certa polêmica entre os arquitetos brasileiros: por que não houve um concurso e por que não contratar um brasileiro foram as duas questões mais discutidas - a favor ou contra - com a notícia da contratação, divulgada dia 4 de novembro. O IAB já se reuniu com João Sayad, secretário estadual da cultura, pedindo esclarecimentos sobre o processo de contratação, enquanto o Sinaenco (Sindicato da Arquitetura e da Engenharia) soltou uma nota para a imprensa dizendo que a decisão de Serra é uma "xenofobia às avessas e ilegalidade".

"A reação dos arquitetos é esperada e a Secretaria da Cultura não se sente incomodada. Faz parte da nossa atividade criar alguns escândalos", conta João Sayad. "Tenho a impressão de que encontraria a mesma reação em outras profissões. O frisson e o burburinho, além de serem esperados, são bem-vindos. Vamos ouvir as críticas dos arquitetos nacionais. Essa é a atividade mais importante da política nacional, é expor uns aos outros", conclui.

Mais do que a discussão sobre concursos ou bairrismos, o fato podia nos levar a outros questionamentos, dessa vez, sobre a nossa cidade: afinal, o que um edifício com a assinatura de Herzog & de Meuron pode fazer com o Centro de São Paulo, principalmente em uma zona ainda tão degradada, apesar dos investimentos em pontos culturais como o Museu da Língua Portuguesa, a Pinacoteca (ambos de Paulo Mendes da Rocha) e a Sala São Paulo (de Nelson Dupré)?

Entre os objetivos da Secretaria da Cultura ao contratar a dupla suíça não figurava a requalificação da zona, tampouco o acréscimo do turismo tentando-se um efeito Bilbao. "Eu como secretário da cultura nunca faria um teatro para atrair turismo, mas sim para ter um bom teatro. E senti do Serra que ele nunca apoiaria, assim como eu também não, um projeto do tipo do do Frank Gehry em Bilbao, espetacular. É uma obra para o público  de dança e não para o arquiteto", argumenta.

No entanto, a possibilidade de isso acontecer não é pequena. Assim como o Guggenheim de Frank Gehry mexeu com uma Bilbao quase falida, o Teatro da Dança de Herzog & de Meuron tem potencial para renovar a região da cracolândia, guardadas as devidas proporções. E há quem aposte, até, em renovação da arquitetura brasileira. "Se queremos estar inseridos numa dinâmica cultural, econômica e social mais ampla do que os limites geográficos do nosso município, devemos nos dispor realmente a isso. Olhando de dentro, vejo a arquitetura brasileira muito viciada em seus próprios cânones - há tempos que não vemos nada de muito diferente do que já está previsto", defende o arquiteto Lourenço Gimenes, do escritório FGMF.

Outro questionamento que pode render bons frutos é sobre o valor dos honorários: Herzog & de Meuron devem receber de 6,5% a 8,5% do valor total do projeto, estimado em 300 milhões de reais. Aqui, não se discute o merecimento maior ou menor por parte dos estrangeiros.

Mas a necessidade de uma maior valorização no Brasil ao trabalho do arquiteto. "O mesmo governo tem como prática pagar aos brasileiros uma ínfima parte do que será pago aos suíços. Isso sim precisa ser discutido para resgatar a profissão no Brasil, que não consegue sequer cobrar o piso da tabela do IAB. Sejam bem-vindos os suíços",
argumenta Gimenes.

divulgação Theatre Projects Consultants

A contratação de Herzog & de Meuron
Antes de pensar no projeto de arquitetura, o governo do Estado contratou a Theatre Projects Consultants para elaborar um estudo sobre como deverá ser projetado  o edifício e as características técnicas das salas. "A empresa de consultoria de teatro  é composta por designers, ex-iluminadores, ex-diretores de palco, gente que trabalhou com teatro. Não tem nenhum arquiteto. Juntamos essa empresa com representantes da Secretaria, com representantes das bailarinas da Companhia e o Pedro Pederneiras, diretor de palco do corpo,  e durante três meses fizemos o  programa", explica Sayad.

Foi já com o programa em mãos que se buscou o arquiteto. Antes de chegar ao nome de Herzog & de Meuron, a equipe passou por outras opções, entre as quais,  a de um projeto assinado por jovens arquitetos brasileiros. "Fizemos uma grande pesquisa, muitos escritórios foram mencionados por professores da FAUUSP, do Mackenzie. Mas não posso contratar um arquiteto nacional jovem, que não tenha notoriedade, sem um concurso", explica.

A idéia do concurso - seja nacional ou internacional -, defendida arduamente por muitos profissionais desde que a contratação dos suíços foi divulgada, estava fora dos planos do governo. De acordo a consultoria, a escolha do arquiteto deveria levar em conta sua capacidade de adaptação às exigências do programa para o teatro.

"Porque um teatro é uma obra significativa e na maioria dos exemplos que a gente conhece o arquiteto acaba comprometendo essas características", diz Sayad. Questionado se o vencedor do concurso não poderia seguir os pré-requisitos propostos, Sayad defende dizendo que se excluiu a idéia do concurso porque o vencedor passa a ser o dono da obra. "A negociação do projeto vencedor seria muito difícil, justamente porque ele ganhou. Mesmo que seja possível, o vencedor tem uma força muito ativa que podia fazer com que o teatro perdesse   em favor do arquiteto."

Sem concurso, restava apenas uma opção: um notável, fosse ele brasileiro ou estrangeiro, já que é a única maneira de contratação sem concurso prevista pela lei, mais especificamente a 8666/93, de licitação pública. "Não foi uma escolha feita sem critério, a lei de licitação pública permite contratar um profissional notável", explica, adicionando que entre os notáveis brasileiros estaria Paulo Mendes da Rocha e Niemeyer, os dois Pritzker. "E eles já fizeram muito por aqui.

Então, partimos para o estrangeiro, onde existem notáveis que não conhecíamos. É uma tarefa da Secretaria da Cultura trazer solistas estrangeiros, artistas estrangeiros. Por que não um arquiteto estrangeiro?", questiona. O governo do Estado convidou quatro escritórios: Pelli Clarke Pelli, Norman Foster, OMA (Rem Koolhaas) e Herzog & de Meuron, que fizeram estudos e apresentaram suas propostas, o portfólio e como eles estariam dispostos a trabalhar.

Houve quatro análises principais: o tipo de projeto de cada um, a notoriedade, a disponibilidade de trabalhar em São Paulo e a capacidade de negociar. Venceu Herzog & de Meuron, com a promessa de que deslocariam 20 profissionais à capital paulista. "A capacidade de negociar nos pareceu a mais elevada entre os arquitetos", diz Sayad.

Herzog & de Meuron não quiseram dar entrevistas nessa fase do projeto, mas disseram que estão "felizes de terem sido selecionados para o novo complexo cultural em São Paulo". Segundo a dupla, "será um desafio excitante desenvolver um projeto para esse local específico".

O projeto de arquitetura deve ser finalizado em março de 2009 com a conclusão da obra prevista para 2010.

Resta, agora, esperar pelos primeiros desenhos dos suíços, esperar que a construção não se transforme em CPI, como a Cidade da Música no Rio de Janeiro, de Christian de Portzamparc e que o intercâmbio de arquitetos acrescente positivamente as discussões da profissão em solo brasileiro.

Os números do Teatro de Dança

Áreas públicas (cafeterias, restaurantes, bilheterias, lojas, recepção etc.): 6.219 m²
Auditório principal (dança e ópera): 1.750 lugares
Teatro de dança experimental: 400 lugares
Sala de recitais: 600 lugares
Escola de música: 4.303 m²
Escola de dança: 1.744 m²
Investimento: 300 milhões de reais
Conclusão: 2010

POR BIANCA ANTUNES

* Leia na seção Fato & Opinião polêmica sobre a contratação por notório saber, e dê sua opinião em www.revistaau.com.br/forum

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