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Entrevista

De mãos dadas com a modernidade
Um dos frutos da boa safra chilena, Sebastián Irarrázaval afirma a vigência do movimento moderno

POR VALENTINA N. FIGUEROLA


Acervo pessoal
Formado pela Pontificia Universidad Católica de Chile em 1991, Sebastián Irarrázaval tem os mesmos mestres que Mathias Klotz, Alejandro Aravena e Smilyan Radic, chilenos também de projeção internacional
Sebastián Irarrázaval nasceu em Santiago do Chile, em 1967. Em 1993, dois anos depois de ter se formado em arquitetura pela Pontificia Universidad Católica de Chile, fundava seu próprio escritório, que leva o seu nome. Hoje, Irarrázaval, assim como Mathias Klotz, Alejandro Aravena e Smiljan Radic, é um dos arquitetos chilenos de maior projeção internacional. Sua carreira está relacionada com as oportunidades que o desenvolvimento econômico do seu país trouxe a jovens profissionais de sua geração na década de 1990. Foi recentemente premiado pela 16a Bienal de Arquitetura do Chile com o projeto da casa Pedro Lira, publicada por AU (edição 172, Especial Jovens Arquitetos Latino-americanos, da qual é autor também da ilustração de capa), em que revela sua predileção pelas formas puras, pelas linhas retas, e pelas plantas abertas e fluidas, integradas com o entorno. Em uma de suas obras preferidas, La Reserva Casa (2005/2006), habitação pré-fabricada de baixo custo feita com concreto, madeira e chapas de aço, cria uma arquitetura que ele chama de "sintética", na qual "nada sobra, nada excede". Nessa construção, assim como na casa Ocho al Cubo (2004/2006, publicada em AU 163), os limites entre interior e exterior desaparecem em grandes painéis deslizantes de vidro. Outra obra conhecida de Irarrázaval é o Hotel Índigo, na Patagônia chilena (AU 159), onde, mais uma vez, combina chapas de aço e madeira para criar uma obra singular, onde o projeto gráfico foi trabalhado junto com o de arquitetura. Pela entrada leste, chega-se ao lobby do hotel, no primeiro pavimento, por uma suave rampa cercada por um painel de eucaliptos. Um capítulo à parte na obra do arquiteto chileno, aliás, é a circulação, explorada de maneira rica e, ao mesmo tempo, racional. Em entrevista à AU, feita por ocasião da presença do arquiteto em São Paulo para participar do Construtech, evento promovido pela PINI em outubro, Irarrázaval diz que esta foi uma das muitas lições que incorporou do modernismo. "O movimento moderno não está superado. Ainda é muito vigente", afirma o chileno. A seguir, trechos da conversa.

aU POR QUE DECIDIU ESTUDAR ARQUITETURA?
IRARRÁZAVAL
Não foi minha primeira opção. Estudei literatura por um ano, mas logo ingressei em arquitetura por achar que esta carreira me daria, futuramente, mais suporte para abordar distintas tarefas. A formação do arquiteto adestra o indivíduo para entender as totalidades e para dar soluções simples a problemas muito complexos, além de ensinar e organizar tarefas. O trabalho em equipe era algo que me motivava em relação ao estudo da arquitetura, o que é muito distinto do mundo literário.

aU VOCÊ PERTENCE A UMA GERAÇÃO DE ARQUITETOS COMO MATHIAS KLOTZ, ALEJANDRO ARAVENA E SMILJAN RADIC. O QUE MARCOU A GERAÇÃO DE ARQUITETOS NA QUAL ESTÁ INSERIDO? QUAIS FORAM SUAS INFLUÊNCIAS?
IRARRÁZAVAL
Todos somos alunos da Escuela de Arquitectura de La Universidad Católica, de forma que compartilhamos os mesmos mestres. Ingressamos numa época em que o Chile oferecia grandes oportunidades para os arquitetos. A economia crescia a 10% ao ano e o país despertava de um longo período de letargia, se abrindo para o mundo. Compartilhamos também de um contexto cultural que valoriza o trabalho duro e soluções que, mesmo inovadoras, se ajustam aos meios materiais, menosprezando o abastamento e a ostentação. Compartilhamos uma inclinação para uma arquitetura abstrata, porém com forte presença material. E, sobretudo, acreditamos na vigência do paradigma moderno.

aU O MOVIMENTO MODERNO É UMA CONDIÇÃO PERMANENTE? NÃO ESTARIA SUPERADO EM MUITOS SENTIDOS?
IRARRÁZAVAL
Não o considero superado, pelo contrário: acredito que está muito vigente. Muito além do sustento ideológico e da narrativa por trás da modernidade, existem princípios incorporados à arquitetura moderna que estão em pleno vigor, como a importância do sistema de circulação como estruturador da obra, a continuidade espacial, a equanimidade nas soluções, a noção de uma obra como totalidade, a linguagem abstrata e, sobretudo, o predomínio do universal sobre os sabores locais.

aU COMO AVALIA A ARQUITETURA MUNDIAL? O QUE PENSA DA "ARQUITETURA DO ESPETÁCULO"? É DE TODO RUIM?
IRARRÁZAVAL
Creio que existe uma tensão entre aqueles que seguem reformulando o paradigma moderno e aqueles que promulgam paradigmas formais assentados nas novas tecnologias digitais. Em ambas as trincheiras, existem arquitetos bons e ruins. O paradigma digital abriu novas estratégias de projeto que seguem sendo válidas e enriquecem o paradigma moderno. Existe uma interessante transposição entre tradição moderna e vanguarda digital. Da arquitetura moderna, me interesso por problemas anteriores a esta disputa de linguagens como, por exemplo, a questão da escala, os sistemas de circulação, a qualificação dos espaços, a inserção da sociabilidade no projeto e em como estabelecer filiações com o contexto. A respeito do espetáculo, acredito que deva haver uma distinção entre os arquitetos que instauram tendências e aqueles que as seguem. A propósito, valorizo os primeiros, como Peter Zumthor e Zaha Hadid, porque alcançaram uma obra que incorpora, de um lado, a permanência e, de outro, a mudança. São dois pólos que exemplificam esta tensão atual.

aU ACREDITA QUE COM A CRISE ECONÔMICA A ARQUITETURA, NO GERAL, TENDERÁ A SER MAIS SÓBRIA E MENOS ESPETACULAR?
IRARRÁZAVAL
Não acredito que a crise levará, necessariamente, a uma arquitetura mais sóbria. Oscar Niemeyer, a quem valorizo muito, tem uma obra que poderia ser chamada de espetacular mas que, no entanto, é feita com meios muito simples.

Imagens divulgação Sebastián Irarrázaval
A casa na Reserva (à esquerda) é sua obra de que mais gosta, por ser sintética. "Nada sobra, nada excede", diz. Ao centro, capa desenhada pelo arquiteto para a edição especial de AU (edição 172) sobre jovens latino-americanos; e, à direita, a escola de desenho da Universidade Católica, vencedora de recente concurso

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