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Brasil

Interface de luz
Edifício abriga lojas de materiais de acabamento e mobilíario requintados e imprime nova linguagem a setor industrial de Brasília

Por Maurício Horta Fotos Joana França, Tao Arquitetura e Telmo Ximenes




Um grupo de lojistas de móveis e materiais de acabamento encomendou a Paulo Henrique Paranhos algo que acreditavam faltar em Brasília: um espaço que além de servir para a comercialização de seus produtos lhes agregasse valor pela apresentação e prestação de serviços requintados. Com a proposta veio, no entanto, um desafio. O Mercado Design não seria construído no Plano Piloto da capital, mas no árido Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), dominado por megalojas de construção, concessionárias de automóveis e hipermercados, em frente a uma larga avenida de três faixas em cada sentido e canteiro central.

Mesmo quando planejadas, cidades são organismos vivos em constante mutação. Em 1960, Brasília tinha 140 mil dos 500 mil habitantes para os quais foi projetada. Hoje, o IBGE estima em 2,5 milhões seus moradores, embora apenas 300 mil morem no Plano Piloto. Com isso, estabelecimentos que poderiam ser instalados nas Asas começam a migrar para outras áreas, entre elas o SIA, que vê mudarem seus usos. Com o Mercado Design, o arquiteto criou uma das primeiras instalações comerciais na região a focar-se no atendimento e não nos grandes estoques.

Para resolver os problemas de relação com o arredio entorno e de escala numa vastidão plana e aberta por onde usuários se locomovem de carro, Paranhos criou para o Mercado Design um volume monolítico, branco e monumental de 2.600 m2, fechado, que não se permite anular pelo gigantismo e insipidez dos prédios à sua volta, tampouco pelo estacionamento de duas fileiras que se fez necessário em frente à construção. "Fizemos uma proposta que considera o contexto urbano", diz Paranhos. O arquiteto observa que os demais prédios não trabalham de forma deliberada com o entorno, mas, para ele e sua equipe, enfatizar a relação do edifício com a cidade é primordial.

Ao mesmo tempo, esse bloco estabelece uma relação ambígua de porosidade seletiva entre o interior que abriga e o exterior de certa forma hostil. Como a prioridade na proposta dos lojistas do Mercado Design não era vender produtos materializados mas, sim, um conceito que agregasse valor, o projeto descartou a vitrine e vedou a fachada acima do térreo, este, sim, transparente. A ampla empena cega impõe expressão arquitetônica e não mercadorias. Conforme o arquiteto, "quando as pessoas passam pelo prédio, a percepção mais acentuada não são objetos expostos, mas sim a plástica da construção".

Ao se aproximar do prédio, porém, o visitante estabelece com ele outra relação. Esse painel salpicado por aberturas torna-se uma provocante interface entre interior e exterior, cuja função é instigar a curiosidade do passante.

Embora tenha uma clara unidade arquitetônica, o prédio respeita a coerência interna de cada loja. O acesso não é feito por uma entrada em comum: cada loja na quota da rua possui a sua própria, devidamente sombreada transversalmente por toda a fachada por um abrigo sob o painel.

No interior das lojas, o painel da fachada assume uma nova dimensão. O generoso recuo do primeiro pavimento livre cria para o hall de entrada de cada estabelecimento um mezanino de pé-direito triplo. Nele, o painel é exposto como uma cortina de luzes. "Se não houvesse o painel, os ocupantes, que não querem perder nenhum metro quadrado, não respeitariam essa espacialidade vertical", diz Paranhos.

Aos fachos de luz direta projetados através dos nichos cravados nessa superfície, soma-se a luz indireta projetada sobre ela pela grande abertura oblíqua na parte superior da fachada, criando matizes sensuais que qualificam a volumetria do interior. Se a paisagem árida de fora é barrada, o forte sol do Centro-Oeste brasileiro encontra vazão para ser moldado poeticamente. À noite, isso é invertido como num negativo fotográfico, e a fachada perde sua materialidade branca para transformar-se em volumes e pontos de luz emanados do interior do prédio.

A base quadrada do monobloco é dividida em cinco módulos transversais de mesma largura, cada um com circulação vertical independente, fortalecendo a coesão interna apresentada logo nas entradas individuais. Foram criados como uma folha em branco - mas um branco cheio de matizes definidos pelo painel. "Todas as lojas desenvolveram uma leitura própria", diz Paranhos.

Tal como as aberturas na fachada revelam-se surpresas no interior, os fundos das lojas se integram num hall comum em que foi instalado um pequeno bistrô. Assim é resolvida a coesão do projeto, que visava não a oferecer espaços de comparação e competição como um shopping center, mas a propiciar a convivência entre lojas que, por venderem mercadorias diferentes (iluminação, móveis, pedras) complementam-se. 

Replicando a linguagem vertical do hall de entrada, o bistrô tem pé-direito altíssimo. Paranhos havia projetado para esse hall também um painel semelhante ao da fachada, que não foi executado.

Esse espaço articula não apenas as lojas do térreo como também permite a circulação vertical até a cobertura, inicialmente projetada para abrigar funções de apoio como um auditório e uma brinquedoteca.

Com isso, o prédio poderia abrigar eventos e festas relacionados ao setor de revestimentos e mobiliário. No entanto, o espaço foi cedido para mais lojas.

O Mercado Design começa como voz solitária num entorno pouco acolhedor, mas serve de exemplo arquitetônico na requalificação de áreas que, como o SIA, passam por mudanças. Revela o arquiteto: "Pensamos num Setor de Indústrias que está por vir, um bairro renovado que deve acompanhar a evolução da cidade e oferecer uma arquitetura melhor. (...) É preciso ter coragem de começar a contar uma nova história para aquele lugar e não ter receio de implantar um prédio com características diferentes das dos demais".

INTERFACE OF LIGHT
A group of furniture and finishing materials storeowners requested Paulo Henrique Paranhos to design something they believed lacking in Brasília: a space which besides marketing their products would add value with luxurious appearance and services. With the proposal came a challenge, because Mercado Design wouldn't be built at the capital's Plano Piloto, but at the Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) (Manufacturing and Supplies Sector), dominated by mega-construction stores, automobile dealers and supermarkets, alongside a large six-lane avenue centrally divided by a gardened sidewalk.

Paranhos's response was to create a white and monumental monolithic, 2.600 m2,  closed volume, which doesn't bow to be annulled by the gigantism and insipidity of the buildings surrounding it, or by the two-lane mandatory parking space in front of the store. "We made a proposal which takes the urban context into account", says Paranhos.

Even though it has a clear architectural unity, the building respects each store's internal coherence. Access is not through a common entrance: each ground floor store has its own.

The single block's base is divided into five equally wide transversal modules, each having its own, independent, vertical circulation. The backs of the stores are integrated as a common hall in which a small bistro was installed. This space articulates not only the ground floor stores, but also allows vertical circulation up to the penthouse, where there are further stores.



 
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