O concreto pré-fabricado desempenhou um importante papel na reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial. A rapidez de montagem e a redução da dependência da mão-de-obra nos canteiros fizeram com que a tecnologia fosse extensamente aplicada, sobretudo para reverter o déficit habitacional pelo qual passava o continente. De lá para cá, o concreto evoluiu, assumindo um papel vital no desenvolvimento da arquitetura contemporânea. Hoje, é possível construir arranha-céus com mais de 40 andares, feitos integralmente com sistemas estruturais de concreto pré-moldado.
Antes da Segunda Guerra Mundial, a utilização de elementos pré-fabricados de concreto na construção civil era inexpressiva e tinha caráter experimental. No livro Arquitetura, industrialização e desenvolvimento, da editora Perspectiva, o arquiteto e professor de história da arquitetura da FAUUSP, Paulo Bruna, cita o Cassino de Biarritz, executado em 1891 pela Ed. Coignet de Paris, como sendo possivelmente a primeira obra a incorporar elementos estruturais pré-fabricados de concreto, mais especificamente, vigas pré-fabricadas de concreto armado.
Entre 1926 e 1928, o arquiteto alemão Walter Gropius incorporou os conceitos de racionalização e padronização dos componentes de concreto para construir as 316 moradias do conjunto habitacional Torten, em Dessau, na Alemanha. O projeto, que tinha como objetivo diminuir o valor da habitação, ficaria para a história por ser um dos pioneiros na utilização de conceitos inovadores como a standardização da moradia e sistematização do canteiro de obras.
Foi no período pós-guerra, no entanto, com a escassez de mão-de-obra qualificada nos países europeus, que o desenvolvimento de técnicas industriais de construção ganhou força, e os sistemas construtivos pré-fabricados de concreto encontraram terreno fértil para propagação. "A formação de mão-de-obra especializada foi considerada uma alternativa impraticável seja pelos motivos de tempo e custos necessários, seja porque se verificou que, nos setores industriais mais avançados tecnologicamente, a mão-de-obra qualificada estava em vias de extinção", explica Paulo Bruna. A solução, segundo o arquiteto, foi deslocar para a indústria o maior número possível de operações do canteiro de obras.
No Brasil, o arquiteto carioca João Filgueiras Lima, o Lelé, foi um dos precursores na utilização do concreto pré-moldado na arquitetura. Construído em 1962, os apartamentos para os Professores da Universidade de Brasília (UnB), com sistema construtivo baseado em lajes, vigas e painéis pré-moldados de concreto, se tornou referência tecnológica para construções futuras. Posteriormente, Lelé acabaria por preferir componentes pré-fabricados de argamassa armada, sistema construtivo mais leve que o do concreto.
Na década de 1970, o concreto se tornou mais resistente. Surgiram no mercado o concreto reforçado com fibras e os concretos de alta resistência, que permitiram a produção de painéis pré-fabricados resistentes e mais esbeltos. Hoje, a tecnologia evoluiu mais ainda e, na Europa, arranha-céus são inteiramente construídos com sistemas pré-fabricados de concreto.
Produzidos industrialmente, com formas metálicas e concreto auto-adensável de 90 MPa, pilares, vigas e painéis têm sido usados para construir torres residenciais e comerciais de até 40 andares, como o The Strijkijzer, em Haia, na Holanda. A Bélgica é outro país onde o sistema também é bastante difundido.
No Brasil, a baixa mecanização do canteiro de obra é um dos empecilhos para a aplicação de tecnologias como esta. O engenheiro Marcelo de Araújo Ferreira, professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) explica que, no Brasil, estruturas integralmente pré-fabricadas de concreto são normalmente empregadas em edifícios de 12 andares. Edifícios maiores, feitos com sistemas construtivos pré-fabricados de concreto, têm estrutura híbrida, ou seja, combinam sistemas moldados in loco com pré-moldados. Lajes alveolares e vigas protendidas são associadas a pilares moldados no local, compondo uma estrutura aporticada. "Acima disso, a montagem dos pórticos pré-moldados se torna um processo menos racional devido ao custo adicional da ligação pilar-pilar e à dificuldade de montagem de pilares de maiores comprimentos", explica Ferreira.
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Linha do tempo - pré-fabricados de concreto |
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1962 Apartamentos para professores da Universidade de Brasília, Colina, Brasília-DF, João Filgueiras Lima Idealizados pelo arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, o conjunto de quatro prédios de apartamentos para professores da UnB foi um dos trabalhos pioneiros no Brasil no que se refere à utilização dos sistemas construtivos pré-fabricados de concreto. As circulações verticais dos edifícios, executadas com concreto moldado in loco, suportam as estruturas pré-moldadas, formadas por vigas de seção U protendidas. Os pisos dos apartamentos são lajes nervuradas protendidas e as fachadas são vedadas por painéis pré-moldados de concreto. |
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1974 Edifícios da Camargo Corrêa, Brasília-DF, João Filgueiras Lima Placas pré-moldadas tubadas foram empregadas no fechamento das empenas dos dois edifícios idênticos projetados por Lelé para a Camargo Corrêa. Lajes pré-moldadas tubadas se apóiam em caixões pré-moldados nas fachadas e pórticos centrais, moldados in loco. Os caixões pré-moldados possuem rasgos para a fixação dos perfis de borracha de vedação das janelas. As estruturas dos terraços, circulações verticais e subsolos foram moldadas no local.
1981/83 Moradias de Rokko I, em Kobe, Japão, Tadao Ando Ao especificar elementos modulares e pré-fabricados na criação de Rokko I, o arquiteto japonês Tadao Ando conseguiu reduzir os custos do conjunto habitacional de volumetria escalonada implantado sobre uma montanha com declividade de 60 graus junto à baía de Kobe. A estrutura em grelha (5,7 m x 4,8 m x 2,4 m) abriga módulos regulares sobrepostos uns aos outros de forma a criar, com recuos, terraços e vazios onde acontece a circulação do edifício.
1987/1990 Stadio San Nicola, em Bari, Itália, Renzo Piano Projetado por Renzo Piano, o Stadio San Nicola é um exemplo de estrutura segmentada, em que cada parte trabalha independentemente das demais, adquirindo comportamento de uma lâmina em balanço. A forma elíptica, composta pela sucessão de 360 longarinas pré-fabricadas de concreto, divide-se em 26 "pétalas" estruturais que configuram as arquibancadas. Os interstícios que se abrem entre os segmentos da platéia conferem leveza visual ao conjunto e marcam claramente as rotas de acesso e saída do estádio.
1996 Estação de Trens de Alta Velocidade de Lyon-Satolas, França, Santiago Calatrava Adjacente à pista do aeroporto de Lyon, a estação de trem concebida por Santiago Calatrava, conhecida como "o pássaro", possui estrutura mista (aço e concreto) e híbrida (concreto moldado in loco e pré-fabricado). Na cobertura da plataforma foram empregados elementos de concreto pré-fabricado branco. Já as colunas foram moldadas no local.
2007 The Strijkijzer, em Haia, Holanda, AAArchitecten Projetada pelo escritório holandês AAArchitecten, o Het Strijkijzer é uma torre residencial de 42 andares cuja estrutura foi construída com sistemas pré-fabricados de concreto. O contraventamento é feito por painéis estruturais pré-moldados, que, em conjunto com as colunas de concreto da fachada, conferem estabilidade ao edifício. As paredes pré-fabricadas e os elementos estruturais da fachada são intertravados. A transferência de forças verticais é direta e acontece de painel para painel pré-fabricado por meio da junta de compressão com argamassa. Os painéis dispõem de cantoneiras metálicas no topo (na parte interna) para apoio da laje. | |