Costumo imaginar a tristeza de Michael Jackson, que chora toda vez que vai depositar seus cheques de milhões de dólares no banco, por ser considerado um artista comercial. Muito embora as importâncias sejam um pouco menores, imagino que a mesma coisa deve acontecer com os escritórios de arquitetura que projetam de forma sistemática prédios de apartamentos.
Os arquitetos do "establishment", as exposições e todas as publicações olham de nariz empinado para esses escritórios, mas até há algumas décadas, boa parte dos prédios de apartamentos era projetada por construtoras, com pouca ou nenhuma participação de escritórios de arquitetura.
Isso mudou radicalmente. De um lado, por uma questão de marketing, por perceberem que os projetos de arquitetos são melhores (ou seja, vendem melhor). Do outro, porque os escritórios de arquitetura bem organizados têm condições de apresentar uma coordenação de projeto e assistência à obra muito mais eficaz.
Até do ponto de vista "nouveau riche" do apelo de venda de grifes, os escritórios mais conhecidos serviram ao propósito do mercado, sendo surpreendente a atitude dos corretores contra a veiculação dos autores no material publicitário, quando esses nomes só valorizam o produto para a venda. O absurdo dessa situação é que os decoradores e arquitetos que projetam os halls de entrada e o "espaço gourmet" desses edifícios têm seus nomes estampados em grandes caracteres nos anúncios de venda.
Em vez de reclamarmos, deveríamos aprender as técnicas de marketing desses colegas, a maior parte dos quais ótimos profissionais que, de forma inteligente, encontraram um meio novo e muito lucrativo de trabalho. Por que não?
Já tinha desistido de chamar a atenção para esse fato quando, em janeiro de 1995, resolvi escrever um artigo para AU: I soliti ignoti, ou os eternos desconhecidos, uma famosa comédia do neorrealismo italiano dos anos 50.
O tsunami que atingiu o mercado imobiliário norte-americano e que, apesar de nosso presidente ter dito que é apenas uma pequena marola (uma maresinha), também golpeou violentamente nosso boom-boom imobiliário, chamou naturalmente a atenção de AU e a ideia foi ver que diferença há na arquitetura de prédios de apartamentos feitos em 1995 e agora. Devo agradecer à revista: este mês ganhei o meu dinheirinho no mole, porque pouquíssima coisa mudou e estou praticamente copiando o artigo anterior.
Evidentemente que há arquitetura de qualidade tanto do ponto de vista funcional e construtivo quanto do formal sendo produzida ao lado de coisas terríveis. Por exemplo, há profissionais de menor qualidade que se limitam a entregar alguns desenhos e não um projeto, o que não os impede, pela cegueira das construtoras para os custos (são agregados à venda), de possuir milhões de metros quadrados construídos - mas não efetivamente projetados.
Aqui alguma coisa mudou: o desaparecimento da inflação maluca obrigou os empreendedores e construtoras a estudarem as obras, os processos de construção, o detalhamento, a padronização, as quantidades e, eureka!, o projeto.
Mas atenção: a mudança de visão dos empreendedores não visou a uma arquitetura que a comunidade dos arquitetos considera minimamente boa. Visou a projetos que, do ponto de vista da racionalização da construção, da apresentação para venda e que do gosto mediano da parcela da população que pode comprar um superapartamento ou apartamentos menores (não populares, isso, definitivamente, não interessa), tenham uma planta razoável e uma fachada que venda.
Convenhamos que mesmo não sendo o que as revistas com justiça consideram "boa arquitetura", não é pouca coisa face aos obstáculos que os projetistas enfrentam. É natural que haja uma reação dos "kulturniks" contra os famosos neoclássicos. A minha é diferente: já que o mercado deseja prédios neoclássicos, e que é impossível enfrentar a maré, que pelo menos aprendam a fazer prédios de fato neoclássicos e não os neonada vistos em São Paulo.
Como aprender, entretanto, se a "modernidade" das escolas de arquitetura no Brasil, além de ensinar poucas outras coisas, sequer toca no ensino de história da arquitetura? Na Europa, alguém aprendeu e é um bom exemplo: Ricardo Bofill construiu incríveis e enormes edifícios neoclássicos na França utilizando elementos pré-fabricados.
Os franceses, com toda a sua empáfia e cultura, adoram viver em edifícios que parecem palácios, com apartamentos de áreas mínimas (HLM) e com prédios de nomes paulistas. Mas seus arquitetos estudaram nas écoles des beaux-arts e, muito embora não saibam detalhar (são os bureaux d'études de engenheiros que coordenam e detalham os projetos), sabem projetar neoclássicos. Mas nenhum atingiu a qualidade construtiva de Bofill.
E convenhamos que em uma cidade horrível como São Paulo, com milhares de favelas, uma enorme falta de saneamento básico, uma desordem arquitetônica e urbanística, será que o grande problema são mesmo os pseudoneoclássicos? Ou o trânsito?
Alguém já pensou que mesmo a qualidade arquitetônica da maior parte dos edifícios "modernos" também é questionável? E aí, embora haja falha dos arquitetos pela necessidade de projetar muitas coisas rapidamente - ou mesmo por menor talento -, os arquitetos são os menores culpados por esse estado de coisas. E a maior parte de nós, dentro das restrições que encontra, procura, ao menos, desenvolver projetos que sejam corretos funcional, técnica e construtivamente.
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