Muito já se escreveu sobre a diminuição do papel social da arquitetura. De proponentes de um futuro melhor e mais justo passamos, no curso de algumas décadas, a cínicos realizadores de espaços excludentes. A crescente abstração do discurso arquitetônico no primeiro mundo (ver os textos saídos recentemente da Universidade de Columbia, em Nova York, ou da AA - Architectural Association, em Londres) só aumenta a sensação de isolamento e elitismo do metier arquitetônico.
Um rápido olhar sobre as transformações na prática da arquitetura nas últimas três décadas nos revela mudanças intensas como a introdução do computador no final dos anos 80, que, no meu modo de ver, guarda muitas semelhanças com o imperativo atual da sustentabilidade. Assim como agora vários arquitetos reagem contra a "moda" verde, há vinte anos a chegada dos microcomputadores e do CAD suscitou o mesmo tipo de desconfiança. Junto com uma resistência legítima que denunciava a superficialidade dos primeiros experimentos digitais, acabamos por jogar fora várias possibilidades de aprimoramento do processo criativo que só agora estão se firmando, depois que absolutamente todo mundo se tornou necessariamente fluente em desenho auxiliado pelo computador (CAD).
De certa maneira vivemos um momento muito parecido em que são os alunos que demandam mais conhecimento sobre a construção sustentável, assim como a minha geração (formada em 1993) brigava para poder entregar seus trabalhos em CAD, e não unicamente desenhado a nanquim no vegetal. A resistência de grande parte dos arquitetos, embora acertada em relação à exploração superficial do conceito de "arquitetura verde" pelo marketing imobiliário, joga fora o bebê junto com a água do banho ao não perceber as infinitas possibilidades de recuperação do papel social e, em consequência, do prestígio da profissão que o imperativo da sustentabilidade nos apresenta.
Enquanto isso, a prática de projetar e construir edifícios vai sendo mordida aos poucos por projetistas de interiores, consultores do mercado imobiliário, especialistas em orçamento e project managers que, junto com os tradicionais incorporadores e construtores, vão fazendo do projeto arquitetônico um apêndice do processo. É como se o nosso campo do conhecimento estivesse sendo tomado por especialistas de todo tipo enquanto nós mesmos, os arquitetos, não conseguimos definir e muito menos comunicar para o público leigo o valor do nosso trabalho.
A propósito, qual é mesmo a nossa base do conhecimento? Em plena era da informação é triste perceber que tanto a prática quanto o ensino de arquitetura têm dificuldades em articular o conhecimento sobre o qual se assenta a disciplina.
Olhar para os anos 80 nos dá várias entradas para entender o momento atual em paralelo com o que acontecia há 30 anos. Naquele momento a crise do paradigma moderno na segunda metade do século passado tinha gerado diversas correntes em busca de uma nova articulação para o processo de projeto. No meio de tantos historicismos, estruturalismos e pós-modernismos em geral, percebe-se um aumento significativo da pesquisa em arquitetura.
Foi a época da formação dos primeiros programas de pós-graduação (MSc e PhD) em arquitetura na Europa e nos Estados Unidos, em que uma nova aliança se formava entre a arquitetura e as emergentes ciências da informação. O objetivo principal era tornar transparente a "caixa preta" da criatividade, o que, associado com o alvorecer da computação, deixou uma quantidade grande de pesquisa rigorosa e nos fez entender um pouco melhor o que realmente acontece quando projetamos.
Se os anos 80 mereceram o título de "década cor-de-rosa", dado pela crítica argentina Marina Weisman, não foi somente pelas cores dos edifícios de Michael Graves e Aldo Rossi, mas, principalmente, devido ao abandono de toda e qualquer ambição de se transformar a realidade por meio da arquitetura. Nossa disciplina passou por um período autorreferencial e centrípeto em que, junto com qualquer traço de utopia, foi descartada também a ideia de que o conhecimento sistematizado teria espaço no processo de criação. Se o objetivo principal da pesquisa sobre os métodos de projeto (design methods) era dissecar a maneira com que projetamos para que pudéssemos alcançar um ambiente construído de melhor qualidade, tal objetivo foi considerado irrelevante pela ideia de que a arquitetura deveria ser menos um artefato e mais um objeto cultural.
Como consequência dessa mudança de valores, a ligação entre projeto e estrutura do conhecimento foi questionada a ponto de torná-la absolutamente periférica, enquanto outras pontes foram feitas com disciplinas às vezes tão distantes da arquitetura quanto a crítica literária, por exemplo. É importante reconhecer que o abandono da sistematização como parte do processo de projeto (e sua substituição pela ênfase no discurso) ocorreu porque o modelo de "laboratório" dos anos 70 foi demasiadamente contrário à cultura do ateliê que configura o eixo central da nossa disciplina (seja no ensino ou na prática) há mais de dois séculos.
Este momento de convergência meio forçada entre a pesquisa e o projeto acabou por gerar vários problemas: 1) a ênfase na pesquisa estava menos interessada no ensino e na prática existentes e muito mais empenhada em reinventar toda a disciplina da arquitetura; 2) o fascínio inicial com o computador como gerador de forma criou uma cultura de autossuficiência na comunidade de pesquisa. Os programas e códigos começaram a ser desenvolvidos "for computation sake", e não para aprimorar a relação com projeto; 3) o esforço de pesquisa dos anos 70 gerou uma imagem de oposição à cultura do ateliê ao mesmo tempo em que o crescimento da pós-graduação se dava "pelas beiradas", ou seja, ligada a disciplinas afins como a sociologia, a psicologia, a filosofia e as engenharias, o que acabou por exacerbar as diferenças entre os professores doutores e aqueles com prática de escritório.
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Em resumo, em vez de abraçar o ethos do ateliê para transformá-lo ou aprimorá-lo por dentro, os pioneiros da pesquisa tentaram instaurar um ensino de regras lógicas e teorias normativas, com pouquíssimo espaço para a experimentação. Se existe uma lição a ser aprendida a partir dessa frustrada iniciativa é o fato de que o ateliê é e continuará sendo o cerne do ensino de arquitetura. Por isso, em vez de evitá-lo, como fizeram no passado, nós devemos abraçá-lo como componente fundamental da criatividade e da invenção na qual se baseia nossa profissão.
Não obstante, ignorar a importância da pesquisa na produção e sistematização do conhecimento significa abandonar uma parte grande de nossa responsabilidade pública para um ambiente construído melhor. No momento em que o planeta passa uma crise ambiental sem precedentes, parece óbvio que a sustentabilidade ambiental (que por sinal deve andar de mãos dadas com a sustentabilidade social) passa a ser uma prioridade inadiável.
Mais ainda que um imperativo, a necessidade de se construir melhor e com menos desperdício de matéria e energia se coloca como uma oportunidade ímpar para reorganizar nossa base do conhecimento e reconquistar nosso esgarçado papel social. Por mais que vários cursos sejam ministrados sobre o assunto nas escolas de arquitetura, defendo a ideia de que tal conhecimento não vai se impor na prática da arquitetura enquanto não for integrado ao ateliê.
Aqui na Universidade de Michigan essa integração faz parte de um esforço coordenado no sentido de começar a formar agora o profissional que precisaremos num futuro muito, muito próximo. Foi nesse sentido que em 2006 ofereci um ateliê de mestrado baseado na seguinte premissa: o que vai acontecer com a paisagem norte-americana na medida em que o aumento do preço do combustível passe a restringir o uso do automóvel?
Qualquer um que já se aventurou pela periferia das cidades norte-americanas sabe que a estrutura viária das highways dita o padrão de ocupação. Criadas ao longo dos anos 50 para facilitar o acesso motorizado do subúrbio para o centro das cidades - e também para forçadamente espalhar a infra-estrutura que assim resistiria melhor aos possíveis bombardeios soviéticos - as highways são hoje a espinha dorsal da economia urbana mesmo em cidades densas como Nova York e São Francisco.
O ateliê em questão buscava induzir os alunos a pensarem no impacto arquitetônico de um aumento significativo do preço da gasolina (naquela época beirando 2,50 dólares por galão). Como seriam os drive-through, os strip-malls e as lojas de conveniência num mundo onde a gasolina fosse cara como na Europa (por volta de 4,50 dólares/galão naquela época).
Para estruturar melhor seus projetos os alunos tinham de lidar com vários conceitos do mundo da pesquisa. Seguir as fontes dos relatórios, entender como dados iguais podem gerar interpretações diferentes, discutir como a metodologia da pesquisa influencia o resultado. O ateliê analisou ainda questões econômicas como o impacto do crédito fácil no orçamento familiar e o impacto do setor de transportes na economia e na emissão de carbono.
Cabe explicar que normalmente os ateliês de mestrado se baseiam em questões muito mais abstratas como estudos sobre a representação ou investigações espaciais em modelagem tridimensional. Números e tabelas são quase de domínio exclusivo dos urbanistas na pós-graduação nos Estados Unidos. Não por acaso, trazer tais dados para dentro do ateliê foi um desafio e tanto. Não acostumados com o funcionamento das ciências, os alunos de arquitetura tendem a confundir pesquisa com o simples ajuntamento de informações. O fato de que a pesquisa sempre busca padrões generalizáveis enquanto o projeto de arquitetura é quase sempre específico gera um conflito difícil de se resolver. Mas o atrito entre a pesquisa e o projeto pode também gerar frutos. Quando os alunos entendem que o conhecimento pode (e deve) ser cumulativo e que não precisamos reinventar a roda com cada projeto, se livram da ansiedade de serem geniais a cada traço e a criatividade é canalizada para a busca de soluções.
Em resumo, ao trazer os conceitos de pesquisa para dentro do ateliê buscamos preparar melhor os futuros arquitetos para um mundo em transformação. Enquanto escrevo essas linhas os mercados financeiros operam de forma caótica, uma chuva de granizo sem precedentes danifica 20 mil automóveis na minha Belo Horizonte e aqui nos Estados Unidos a gasolina já custa mais do que nossa previsão "pessimista" de dois anos atrás.
Por acreditar que a arquitetura pode ter uma contribuição significativa para um mundo mais justo e mais saudável defendo que temos uma janela de oportunidade única. A urgência das crises ambiental e social está trazendo os holofotes para a nossa disciplina. Negar o imperativo da sustentabilidade como moda ou dizer que toda boa arquitetura já é sustentável não basta, assim como não basta marcar itens numa lista e dizer que esse edifício é "certificadamente" verde.
A chance que se coloca diante de nós é a de reestruturar a nossa base do conhecimento e nossos valores, infiltrando tais questões urgentes dentro dos ateliês de forma a podermos articular com clareza qual cidade e qual arquitetura queremos para os próximos 50 ou 100 anos.
Este texto é baseado na comunicação Lab-coats back in studio. Can sustainability bring design and research back together? apresentada na conferência 50 Years On, resetting the agenda for architectural education, promovida pela Universidade de Oxford, Reino Unido, em julho de 2008.
BIBLIOGRAFIA
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Ilustração: aquarela do autor retrata a palestra de Peter Cook em Oxford
Fernando Luiz Lara é professor da Universidade do Michigan, Estados Unidos e autor de The rise of popular modernist architecture in Brazil, Gainesville: University of Florida Press
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