A revista Mad publicou uma vez uma charge sobre uma rua de pizzarias em New York, cada uma com seu anúncio na fachada: "Gino's a melhor pizza de NY". "Mario's a melhor pizza da Itália". "Nello's a melhor pizza do mundo". E assim por diante até o fim da rua, onde um pequeno cartaz dizia "Irving's (típico nome irlandês), a melhor pizza nesta rua"...
Uma comparação cabe com alguns títulos atuais: arquiteto A, o melhor do mundo, arquiteta B, a mais criativa, arquiteto C, o mais sustentável, arquiteto D, o mais consciente, arquiteto E, o mais profissional, arquiteto F, prêmio Pritzker, etc. Pegando carona na sacada da Mad, eu diria "Renzo Piano, o melhor arquiteto desta lista"...
É evidente que se trata de uma escolha subjetiva, pessoal. Não é como Pelé, unanimemente considerado o melhor jogador de todos os tempos, exceto na Argentina onde eles têm o melhor jogador da segunda divisão, o Maradroga. É como ser campeão da segunda divisão.
Vivo, não vejo nenhum arquiteto moderno como Renzo Piano. Morto, só Saarinen, pelas mesmas razões que admiro no genovês. Para ambos, a famosa frase de Mies Van Der Rohe ("Eu não quero desenhar um edifício novo toda segunda-feira de manhã") não tem efeito. Mies tinha um processo e um refinamento construtivo que acabavam resultando sempre em um edifício igual aos anteriores. Diga-se de passagem, muitos arquitetos famosos, inclusive brasileiros, projetam conscientemente da mesma forma, e com resultados até brilhantes, mas com um jeito, como dizem os americanos, de "déjà vu". E com isso eliminam o mais interessante da arquitetura, o que os técnicos de futebol, mesmo que não sejam lusitanos, dizem: "o Ronaldo vai ser o nosso elemento surpresa". É como tantas premiações do Pritzker: a surpresa é dar o prêmio para uma arquitetura sem surpresa.
A monumental diferença é que Renzo Piano surpreende sempre, seja por uma solução "chamativa", seja por uma solução absolutamente modesta, contextual. Exatamente como Saarinen. Acredito que Jean Nouvel tenha as mesmas características - pode entrar no time reserva.
Os projetos desses três escritórios (digo escritórios e não arquitetos, porque esse endeusamento pessoal é uma lenda, ninguém faz nenhum projeto de porte sem contar com uma equipe organizada, eficiente e criativa), têm a qualidade, para mim indispensável, de não identificarem um traço, um estilo, uma griffe de soluções similares ou até quase repetitivas.
Todos conhecem o projeto que lançou Renzo Piano no starsystem da arquitetura, o famoso Beaubourg, o Centre Pompidou. Acredito, no entanto que esse projeto não teria saído da mesma forma se Piano não estivesse associado a Richard Rodgers (não o dos musicais da Broadway, o da arquitetura, um mecano-tecnicista excelente). E os dois, certamente, antes de projetarem o Pompidou viram o edifício da Faculdade de Medicina da Universidade de Aachen, na fronteira Deutschland-Nederland, onde os tubos da raffinerie du petrôle, que é como os franceses, sempre conservadores, chamam o Pompidou, já existiam em tiras listradas como serpentes corais, envolvendo o prédio.
O Centre Pompidou chocou os franceses além de sua solução de fachadas e infra-estrutura (as plantas são convencionais), porém é o "monumento" mais visitado de Paris, suplantando a Tour Eiffel, que na sua época chocou ainda mais os franceses conservadores mais conservados. E o Pompidou é intensamente utilizado pelos parisienses. Mas ainda que fosse só uma atração turística, já seria formidável que um homem apagado como Pompidou (e sem amantes) tivesse o nome mais conhecido que De Gaulle, outro CDF.
Poucos arquitetos conseguem criar um edifício-símbolo moderno que se equipare a alguns monumentos antigos. Quem é capaz de reproduzir a extraordinária sensação ao entrar em uma catedral gótica, mesmo sendo como eu, um ateu, graças a Deus.
Lembrando alguns, o número um, a Ópera de Sydney, o símbolo de um continente; os museus Guggenheim de New York e de Bilbao; o edifício da antiga TWA no aeroporto JFK, também em New York; a Casa da Finlândia, em Helsinki, no inverno (que ninguém conhece porque ninguém é louco de ir até lá no inverno), o edifício Chrysler, o Empire State, o WTC, as Torres Petronas, a Catedral de Brasília, a Ponte de Millau, a Catedral da Sagrada Família, e alguns outros edifícios que além de arquitetonicamente portentosos se tornaram simbólicos, ou melhor, tornaram-se símbolos exatamente por serem arquitetonicamente portentosos.
Evidentemente que não é necessário inovar por inovar ou inventar por inventar. O que me parece fundamental é que haja uma intenção criativa, uma ideia básica para um projeto e não uma simples repetição de fórmula. Essa ideia pode ser, inclusive, contextualizar e inserir um novo conjunto em uma paisagem construída, dissimulando-o, mas é indispensável chegar a isso como conclusão e não como solução pronta ou, pior, obrigatória pelos execráveis planos municipais ou "patrimoniais".
Roberto Claudio Aflalo dizia que procurava sempre dar uma colaboração à cidade, ainda que às vezes pudesse errar. Renzo Piano tem de enfrentar em seu país um problema que os arquitetos do resto do mundo não conhecem: é praticamente impossível projetar qualquer coisa nova na Itália. O país inteiro, claro que construído e reconstruído ao longo dos séculos, possui uma beleza e uma unidade urbanística e, principalmente, arquitetônica que impede que se construa no tecido urbano algo de efetivamente novo. As normas urbanísticas italianas nem precisariam limitar essa possibilidade porque já nas faculdades italianas de arquitetura o conceito de preservação e restauro é o mais reforçado. Lembro dos trabalhos de meus amigos da Facultà di Archittetura della Università Degli Studi di Firenze (que nome longo) na cadeira de "rilievo" (que naturalmente existe em poucos lugares do mundo). Sem computador nem máquinas fotográficas digitais, eles tinham de levantar minuciosamente, em desenho e em maquete, um monumento histórico com todos os seus elementos decorativos, ou uma quadra com o conjunto de todas as edificações, isso durante meses, e aí sim, projetar algum edifício no local!
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