SOCORRAM-ME SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS (ler de trás para diante). Às vezes temos a tarefa agradável de comentar um projeto ou a obra de um arquiteto, coisa que a crítica chama de crítica, e que muitas vezes os arquitetos entendem como uma crítica ao seu trabalho. Em outras palavras, a palavra crítica tem um caminho crítico de muitas interpretações também críticas. Prefiro então usar a palavra "comentário", que é menos pretensiosa, menos crítica (!), e permite encarar o artigo de uma maneira um pouco mais leve, talvez mais digerível à leitura, porque arquitetura, além de muito mais cara para quem faz, é como sexo: divertidíssimo de fazer e muito chato de falar.
Além disso, essa forma de comentar é também mais distante de alguns textos que se assemelham mais a um memorial descritivo. Não é fácil, mas é mais divertido fazê-lo. Infelizmente, essa parte light do meu trabalho em AU é a menor, porque a toda hora surgem problemas da profissão que são muito mais importantes porque, se não forem enfrentados, não haverá nem arquitetura para fazer, quanto mais para comentar ou, para ser fino, criticar.
UMA BREVE HISTÓRIA DA ELABORAÇÃO DOS PROJETOS DE ARQUITETURA DESDE A DÉCADA DE 60
Capítulo 1: O big bang
Quando comecei a carreira, entregávamos algumas folhas de desenho com um mínimo de detalhes e chamávamos isso de "projeto de arquitetura" , tchau e benção e os brilhantes engenheiros das construtoras interpretavam aqueles desenhos da forma que podiam e faziam a obra.
Capítulo 2: A surpresa
Os contratantes sabiam que, independentemente do esquematismo do projeto arquitetônico (que eles consideravam normal), precisavam contratar os projetos de estrutura e fundações e de instalações hidráulicas e elétricas, simples projetos prediais muitas vezes feitos por desenhistas, em especial no caso da hidráulica porque, devido a um fenômeno chamado gravidade, a água do telhado e os esgotos sempre descem até o chão, não importa como o projeto previsse a trajetória dos tubos, que não tinha nada a ver com o projeto de arquitetura. Não era trabalho de engenharia, era de desenhistas. Essa forma de encarar o projeto gerou baixíssimos honorários para os projetistas de instalações, fato de que se ressentem até hoje e que afeta sensivelmente o detalhamento.
Pelo menos nas áreas internas, pilares e vigas da estrutura apareciam por todo lado, com cantos fora das paredes, espessamento de trechos de paredes entre outros problemas. E os brilhantes engenheiros de obra davam um jeito de disfarçar ou de esconder as interferências.
Capitulo 3: Eureka!
Então foi descoberta a compatibilização de projetos! Muito embora cada projetista continuasse a fazer o seu trabalho independentemente dos outros, na hora de entregar o projeto a pilha de desenhos ia para o escritório do arquiteto que aí descobria que o pilar estava dentro da bacia sanitária, que o forro abaixo da viga resultava em dois metros de pé direito e etc. Cheguei a receber na época um projeto de ar-condicionado cujos dutos passavam dentro do poço dos elevadores!
Mas a complexidade começava a aumentar. Surgia o Brasil grande, e com ele as grandes empresas de consultoria para projetos de rodovias, hidrelétricas e complexos industriais. Essas empresas resolviam o problema da compatibilização de forma prática: projetavam a estrutura e a fundação para começar a obra e depois a "vestiam" com desenhos (e não projetos) de arquitetura, complementada com as instalações.
O mesmo processo servia para galpões industriais ou prédios administrativos, que tinham todos a mesma cara. Essa prática deu origem a uma enorme distorção presente até hoje: firmas inicialmente dedicadas a projetos de instalações ou estrutura que elaboram projetos de arquitetura sem conhecimento nem cultura da arquitetônica, resultando em obras padronizadas e inexpressivas.
Capitulo 4: Eureka!: A coordenação de projetos
Essa forma de trabalhar tornou-se a norma quase correta de se começar a encarar um projeto integrado de arquitetura. Quase porque os "coordenados" passaram a entender os "coordenadores" não como técnicos e profissionais, mas como babás que têm de estar todo dia cobrando serviços não-entregues, compatibilizações não-respeitadas etc., distorcendo a imagem da coordenação que é, na verdade, a integração técnica dos projetos. O resultado dessa situação foi que, embora não reconhecido pelos clientes, os arquitetos responsáveis (existem) passaram a executar o gerenciamento dos trabalhos, que inclui não só a coordenação/compatibilização técnica, mas todo o controle de prazos, documentos, liberação de fases e pagamentos, enfim uma infinidade de tarefas que chamou a atenção de empresas que passaram a se intitular gerenciadoras.
A questão fundamental é que o profissional com formação e visão geral do projeto para executar essa tarefa é o arquiteto, desde que seja competente, experiente e, acima de tudo, ponderado e despido da imagem de estrela autosuficiente que muitos profissionais incorporam, especialmente os menos competentes ou os mais vaidosos. Quando essa tarefa passa para gerenciadoras, o espírito do projeto se perde e não há coordenação técnica.
Hoje, com os sistemas de controle em programas de computador, o assunto se agrava enormemente. Agora todos jogam seus desenhos em uma caixa eletrônica, fazendo modificações às vezes diárias, impossíveis de acompanhar e que geram, por incrível que pareça, projetos sem coordenação. De novo. A imagem do arquiteto ditador passou a ser substituída pela do computador democrático. É difícil dizer qual é a pior.
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