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Tecnologia & Materiais


NBR 9050/2004, a divisora das águas
Em debate organizado na redação da revista AU, arquitetos, engenheiros, consultores e fornecedores concordam que as normas foram a alavanca para a acessibilidade. Mas o mercado ainda se prende apenas ao seu cumprimento, e não às necessidades reais dos indivíduos


fotos Marcelo Scandaroli

1 Silvana Cambiaghi, arquiteta e mestre em desenho universal, membro fundadora da CPA - Comissão Permanente de Acessibilidade-SP. Membro da revisão da NBR 9050 da ABNT sobre Acessibilidade
2 Sandra Perito, arquiteta e doutora, diretora presidente do Instituto Brasil Acessível
3 Vladimir Franchi, coordenador de vendas novas da Thyssen Krupp Elevadores
4 Thales Cavalcanti, engenheiro de telecomunicações, diretor da Tech Domus e da Associação Brasileira de Automação Residencial (Aureside)
5 Edmur Caniato Arantes, arquiteto e consultor técnico comercial da Geberit no Brasil/Risors Impex
6 Fátima Barnabé, arquiteta e coordenadora de eventos do showroom   da Deca
7 Tiago Ribeiro, representante comercial da Divisão de Acessibilidade da ThyssenKrupp Elevadores
8 Caio Bolzani, engenheiro elétrico e mestre em Sistemas Eletrônicos
9 Thobias Furtado, engenheiro civil e mestre em sustentabilidade, vice-presidente de acessibilidade da Montele
10 Lucio Staut, diretor de vendas da Tecnogran
11 Paulo Eduardo Fonseca Campo, arquiteto da PreCast e professor de projetos da FAUUSP
12 Sérgio Yamawaki, engenheiro mecânico e gerente de acessibilidade da Daiken

aU EM QUE PATAMAR DE ACESSIBILIDADE ENCONTRA-SE HOJE O BRASIL? PODEMOS DIZER QUE É UM PAÍS ACESSÍVEL?
SILVANA CAMBIAGHI
Estamos em um momento de transição. Há muitos anos, existe o interesse na mudança. As empresas já veem a acessibilidade como um nicho de mercado. Só que as soluções são muito pontuais porque estamos em um processo de aprendizagem. Em São Paulo, que é um grande centro, há algumas iniciativas, mas é uma solução aqui, outra solução ali. Quando falamos de espaço integrado, falamos na circulação integrada, no espaço que a pessoa consegue circular, sair de casa, pegar um ônibus e voltar para casa, como acontece em outros países... Isso, por hora, ainda não temos, e ainda não estamos preparados para ter. O projeto ainda se preocupa com o detalhe, e a fluidez do ambiente e da cidade fica um pouco esquecida.

Por exemplo, às vezes você tem uma rampa, mas não tem uma continuidade com o ambiente. É necessário olhar de uma maneira mais holística para o problema, conhecer as atividades que uma pessoa com dificuldade de locomoção, de visão, de audição faz em qualquer ambiente, e pensar em um espaço no qual ela não necessite de outra pessoa para fazer alguma coisa.

SANDRA PERITO Há dez anos havia algumas leis, mas, na verdade, não havia muita exigência. Há cinco anos é que começamos ter mais atitude. Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, é preciso uma transformação muito grande. Não é da noite para o dia que realmente a cidade vai estar condicionada. Estamos começando a fazer alguma coisa em prol da acessibilidade. Ainda tem muito a ser feito. É um campo enorme, que já gera milhões de produtos e idéias inovadores...

Um problema que vejo é que as soluções ainda são muito voltadas para o acesso. As outras interferências que um espaço pode criar para qualquer pessoa com qualquer tipo de dificuldade ainda não são consideradas. Uma criança, por exemplo, usando o espaço, ou uma pessoa de idade usando o espaço, uma pessoa com pouca visão... ainda há a preocupação com a rampa, com o banheiro, com a vaga...

Há alguma coisa na questão de táteis, até por conta da legislação, mas é só. Na residência, hoje é mais fácil encontrar um elevador, porque o preço é mais acessível. Mas às vezes gastamos mais na obra para colocar o elevador do que com o próprio elevador, por quê? Porque não se pensou que naquela casa poderia morar um velhinho que iria precisar de elevador, uma pessoa com uma deficiência física ou com uma perna quebrada.

THOBIAS FURTADO Se a gente olha o Brasil como um todo, eu vejo de cinco anos para cá um salto. Em Belo Horizonte, em Porto Alegre, há muitas obras focadas na acessibilidade. No centro-oeste, no nordeste, ainda não chegou essa preocupação. Existem organizações não-governamentais e forças que se dizem olhando para a questão. Mas procurar soluções para a arquitetura acessível, gastando pouco, como vi em uma apostila do SriLanka, isso ainda não tem. E podemos começar nas obras feitas daqui pra frente. Para trás é uma questão de adaptar, de buscar bons produtos, boa linhas. Os arquitetos estão correndo atrás do prejuízo.

aU O SEGMENTO DA CONSTRUÇÃO ADEQUOU-SE ÀS NORMAS DE ACESSIBILIDADE OU JÁ HAVIA ALGUM MOVIMENTO EM PROL DA INCLUSÃO?
PERITO
Está tudo ainda muito focado na lei. É preciso começar a mudar um pouco a cidade e tentar criar um espaço que atenda a todos o melhor possível. Isso, sim, eu acho que é o grande campo, um grande mercado que está passando despercebido. Se você considerar uma série de necessidades que não estão sendo atendidas e que ninguém está fazendo nada vai perceber que muitas pessoas desconhecem o potencial da acessibilidade...

LUCIO STAUT No Brasil, existe uma maquiagem, porque tem que atender uma lei, mas não existe preocupação realmente com o deficiente. O que existe, sim, é a preocupação de estar dentro da lei.

VLADIMIR FRANCHI Devemos avaliar dois aspectos: o que temos hoje, e o que teremos daqui para frente. Ainda são poucos os profissionais arquitetos e engenheiros que realmente têm preocupação com a acessibilidade. O que prevalece ainda é preocupação com a norma - isso quando há o conhecimento. Muitas vezes temos que chamar a atenção para a acessibilidade, e em muitos casos acabamos pegando o problema no final do projeto. A formação de profissionais com essa conscientização ainda não é muito farta. Nós temos muitos erros, sim. Mas temos que pensar que daqui para frente não vamos repetir os mesmos erros.

CAMBIAGHI É até uma questão de consciência. Se na hora que vou fazer um projeto está imbuída na minha profissão de arquiteta ter consciência de iluminação e ventilação, por que não ter também a consciência da acessibilidade? Mas as normas mudam.... e a falta de conversa é um problema. Nós, profissionais, devemos saber das mudanças.

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