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Tecnologia & Materiais


NBR 9050/2004, a divisora das águas
Em debate organizado na redação da revista AU, arquitetos, engenheiros, consultores e fornecedores concordam que as normas foram a alavanca para a acessibilidade. Mas o mercado ainda se prende apenas ao seu cumprimento, e não às necessidades reais dos indivíduos


FÁTIMA BARNABÉ Em nosso showroom, trabalhamos tanto com profissionais formados quanto em formação, focados em design de interiores exatamente para eles aprenderem a projetar um ambiente de banheiro. E uma das coisas que enfatizo bastante nessa proposta é acessibilidade.

PAULO EDUARDO FONSECA DE CAMPOS Na lei, o que existe hoje é um instrumento compulsório para, de alguma forma, obrigar as cidades e os administradores públicos a adequarem as cidades - e os profissionais a adequarem seus projetos - à questão da acessibilidade. As normas não são instrumentos que devem ficar engessados, elas devem estar em constante revisão, espelhar o estado da arte em relação ao tema.

PERITO Na Europa e nos Estados Unidos, as normas são baseadas em teste de desempenho e não em precisão, como aqui.

CAMBIAGHI O problema é que aqui só se descobre se o desempenho atende ou não muito depois de muita coisa implantada. De 1994 a 2004, por exemplo, as rampas ficaram com a inclinação de 12,50% com um degrauzinho de 1,50 cm na ponta. Levou anos para que a norma alterasse e fosse verificada para descobrir que ela não cumpria em desempenho. Apesar de termos lei, elas ainda não são boas. As nossas leis ainda não são punitivas.

PERITO As leis são boas, sim. As pessoas é que têm que tomar cuidado para não fazer interpretações erradas. Têm coisas erradas, têm coisas que podiam ser melhoradas? Tem.

CAMBIAGHI Mas não são punitivas!

PERITO A questão é que não há fiscalização. Não tem nada a ver com lei.

SERGIO YAMAWAKI A norma é fundamental, porque é o primeiro passo a partir de algum produto. Se não tiver norma não tem padrão. Ninguém sabe o que é melhor, o que é pior. Pode ser melhorada, mas não se pode aceitar instalar produtos fora de norma, que é o mínimo aceitável. A norma de plataforma, por exemplo, acabou de sair, a NBR 15655. É fundamental porque nesse momento no Brasil a maioria das empresas está totalmente fora de norma. Estão colocando em risco as pessoas. Então tem que ter uma norma.

aU COMO É A FORMAÇÃO DO PROFISSIONAL? ELE ESTÁ PREPARADO PARA ATENDER OS REQUISITOS DE ACESSIBILIDADE?
CAMPOS
A formação é transversal. Na parte de mobiliário urbano, por exemplo, é inevitável não falar da NBR 9050, e então exigir dos alunos que a respeitem ao projetarem, por exemplo, um banco que tem que contemplar as pessoas com mobilidade reduzida, uma mulher grávida, um ancião... Acho que basta realmente o profissional se colocar no lugar e, acima da consciência, tem que ter informação. E passar a contemplar com seriedade esse tema na formação dos arquitetos e designers.

FURTADO Os arquitetos formados agora em São Paulo mudaram um pouco, têm mais consciência que há dez anos. Em São Paulo, no Rio, em Curitiba há muita pressão - da prefeitura e da sociedade - para acessibilidade.

YAMAWAKI A inclusão e o desenho universal entraram agora dentro da faculdade. Mas muitos ainda o veem como uma matéria isolada. Todas as matérias devem tratar a questão da acessibilidade e da inclusão e não só na arquitetura, mas na sociedade como um todo.

CAMBIAGHI O problema é que nossos professores não aprenderam a acessibilidade na faculdade. É difícil para um docente, que não teve o assunto em sua grade curricular por anos a fio, ter que exigir dos alunos de uma hora para outra. Muitas vezes os alunos, por serem jovens, ficam à frente do professor.

YAMAWAKI O que não pode é deixar de lado a questão profissional. Quem assina o projeto é um arquiteto ou um engenheiro. Ele tem a corresponsabilidade técnica da solução, sendo que ele não conhece aquilo. E se ele não conhece, tem que chamar um especialista.

aU A QUESTÃO FINANCEIRA INTERFERE MUITO NAS DECISÕES?
PERITO
É um ponto superimportante. Tem a pressão da incorporadora que em cima do barato vale qualquer coisa. Tem a pressão de quem está colocando o dinheiro. Na própria casa, não pode pensar na adaptação, na adaptabilidade como um gasto, mas como um investimento. Um lugar que todo mundo pode usar, e que se está melhorando a qualidade do espaço, da sociedade.

THIAGO RIBEIRO Muitas vezes um arquiteto ou engenheiro me telefona dizendo "estou com o projeto aqui, veja como posso resolver a 9050 da melhor maneira comercial. Qual é o preço mais barato?". A questão acaba se tornando cultural. Jamais desrespeitando a classe, mas, como será que os engenheiros e arquitetos veem a questão da acessibilidade quando estão projetando, a pessoa com mobilidade reduzida, a pessoa com deficiência visual, auditiva... e assim por diante?

CAMBIAGHI Visitei um apartamento de cobertura com quatro dormitórios e até piscina. Mas não consegui usar um banheiro, porque todas as portas ainda tinham 60 cm. Foi mais barato? Não, porque ele gastou mais na alvenaria, e o custo de uma porta de 60 cm ou de 70 cm é o mesmo!

FRANCHI Tem que mostrar as vantagens, como consumidor, de se investir em obra acessível. Mostrar que vale a pena. No País, a idade média é muito mais alta que há um tempo. Esse é um dos motivos de a Europa valorizar a acessibilidade. Culturalmente também devemos valorizar a acessibilidade, valorizar o empreendimento e mostrar que compensa instalar um elevador, uma plataforma, ter um banheiro especializado, um piso mais caro, com essa preocupação. O arquiteto que se forma hoje talvez não se preocupe. Mas a partir do momento que isso virar uma grife, um selo, ele vai valorizar.

THALES CAVALCANTI Só precisa tomar cuidado porque muita empresa entra por puro marketing. Temos casos e mais casos, na automação, por exemplo, que havia vários anúncios de prédio com automação e quando você ia ver, não tinha nada.

EDMUR CANIATO ARANTES A norma tem que ser genérica, que force a adaptabilidade para todos com custo mais baixo, em um edifício público etc. Mas em uma residência, para quem pode pagar, não que a norma não se aplique, mas ela é flexível.

YAMAWAKI Podemos aprimorar as normas, mas não colocar a questão financeira em detrimento do resto. Na hora da venda e da compra, o mínimo que tem que atender é à norma. Não tem que ter má-fé. Tem que ter um bom conhecimento. A falta de conhecimento impera, mas muitas vezes é a malandragem. Isso não pode ser aceitável.

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