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Interseção


Para entender o desconstrutivismo
Estruturalismo, pós-estruturalismo e arquitetura

Por Sílvio Colin





Casa em Connecticut. Robert Venturi, 1970, imagem VSBA

De uma maneira ampla, podemos falar de estruturalismo toda vez que um objeto de conhecimento é encarado como uma estrutura. Essa prática foi saudada como um passo adiante da visão mecanicista do mundo, segundo a qual esse objeto era encarado como uma máquina. Consideramos que foi a partir do século 17, com Descartes, Galileu e depois com Newton que o modelo da máquina se tornou o orientador do pensamento científico. Na física newtoniana, o universo era considerado uma grande máquina, e os astros, suas peças. Na física atômica, o átomo seria a microrrepresentação do universo, uma minúscula máquina. Na medicina e na biologia, o corpo humano e os outros organismos também seriam máquinas, os órgãos, suas peças. No âmbito da arquitetura, mais recentemente, lembremos da "máquina de morar" de Le Corbusier. O modelo da máquina foi o principal orientador do pensamento moderno, e podemos dizer que a ele devemos muito do que se conseguiu em termos de conhecimento científico. Apesar disso, esse modelo tem suas limitações, e essas apareceram com muita clareza já no século 19.

Desconstrução do plano horizontal
As limitações começam pela determinação de que para o estudo eficiente dos corpos materiais deve o estudioso ater-se às suas propriedades mensuráveis: dimensões, quantidades e movimento. Obviamente que muitas coisas não se explicavam segundo a visão mecanicista. Todas as vezes que se lidava com objetos de conhecimento mais difíceis de mensurar, como nas ciências sociais, psicologia etc. as limitações se tornavam claras e insuperáveis.

A visão estruturalista começa com a constatação de que o todo é mais do que a soma de suas partes. Dito em outros termos, um conjunto individualizado, seja um grupo social, a mente humana, a língua falada etc. é uma estrutura com características próprias e que em muito excede as de suas partes consideradas em particular ou mesmo em conjunto. A diferença entre a visão estruturalista e a visão mecanicista é a ênfase colocada nos elementos estruturantes, e não nas partes componentes. Para entender bem a posição dos estruturalistas, falemos de um argumento clássico: uma melodia. Esta é composta de notas musicais, mas o estudo isolado dessas notas, por mais acurado que seja, não esclarece nada sobre a melodia. É o estudo do conjunto e de seus elementos estruturantes, das sequências, das ênfases, das posições relativas das notas entre si, que vão permitir o entendimento dessa melodia.

Sede da Corporação Nunotani, Tóquio, 1990-2, Peter Eisenman
Para o estruturalista, o seu objeto de estudo é visto como um sistema em transformação. Daí surgem as leis básicas do método estrutural. Em primeiro lugar, a definitiva conceituação de sua totalidade: quais são os elementos constituintes que, apesar de suas diferenças, pertencem a essa totalidade. Em seguida, quais são as leis que regem as suas transformações dentro desse sistema e, por fim, quais são os critérios de autorregulamentação, isto é, quais são as possibilidades de variação e transformação admitidas dentro do sistema.

Existem estruturas em todos os campos do conhecimento: na matemática, na física, na biologia, na psicologia, na linguística, na antropologia. Muitas das obras marcantes do conhecimento ocidental atual podem ser ditas estruturalistas, como a obra de Karl Marx e a psicologia da Gestalt.

Desconstrução do ponto de vista

Estruturalismo
De uma maneira mais restrita, porém, quando falamos de estruturalismo nos referimos à vertente dominante do pensamento acadêmico francês, sobretudo nos anos de 1960 e 1970, que têm como nomes mais importantes Claude Lévi-Strauss, Louis Althusser, Michel Foucault, Roland Barthes e Jacques Lacan. O ponto de partida do que poderemos chamar, mais do que um método, uma corrente filosófica, que viria a substituir nos meios acadêmicos a hegemonia do existencialismo de Jean Paul Sartre, é a obra de Ferdinand de Saussure.

Diferentemente de seus pares, o linguista suíço encarava a língua como uma estrutura de signos - especificamente signos linguísticos - mas que fariam parte de uma estrutura maior, do conjunto de signos que participam da vida social, nomeado por ele de semiologia, cujo estudo delegou a seus sucessores, concentrando-se apenas na língua, sobretudo a língua falada. Sem ter jamais escrito um livro, tarefa que coube a seus discípulos, Saussure elaborou conceitos de enorme relevância para as novas gerações de linguistas, inclusive utilizados em outras áreas do conhecimento, como veremos adiante.

Contraste entre a Basílica do Santo Espírito. Florença, 1434-82, Filippo Bruneleschi; e o Denver Art Museum. Colorado, 2006. Daniel Libeskind
Contraste entre a Basílica do Santo Espírito. Florença, 1434-82, Filippo Bruneleschi; e o Denver Art Museum. Colorado, 2006. Daniel Libeskind

Entre esses conceitos está a fundamentação do signo em duas faces: significante e significado. O significante é a parte material do signo - no caso da língua falada, o som da palavra -, e o significado é a ideia transmitida. Outra divisão importante é aquela entre língua e fala (langue e parole), sendo a língua um produto cultural, que não pode ser alterado por ações individuais. A fala é um produto individual, expressão de pensamento único, porém submetido às leis que regem a língua.

Sistema cartesiano de eixos ortogonais
Outras peças importantes na obra original de Saussure, fundamentais para o desenvolvimento da semiologia, são suas diferenciações entre sistema e sintagma e entre denotação e conotação. O sistema é uma relação de campos associativos que se unem por semelhança ou contiguidade. São os termos da linguagem, as peças do vestuário, as diferentes formas de telhados ou colunas. O sintagma é a justaposição de termos em uma unidade de significação - uma sentença literária, uma vestimenta completa, uma ordem arquitetônica, por exemplo. Denotação é o significado primeiro de uma manifestação, o mais objetivo, o mais manifesto; conotação é um significado segundo, latente, dessa mesma manifestação. Uma simples sentença como "a porta está aberta", que tem apenas uma denotação, pode servir, dependendo de quem fala, o porteiro ou a dona da casa, ou do contexto, a uma infinidade de conotações.

Se podemos dizer que Marx e Freud construíram as obras que mais influenciaram o pensamento do século 20, e que Lacan fez a releitura estruturalista de Freud, coube a Louis Althusser a contraparte estruturalista de Marx. Mestre de grandes estruturalistas e pós-estruturalistas, como Foucault e Derrida, Althusser aplicou a Marx o método de "leitura atenta" que seria o princípio ativo da "desconstrução" utilizada por Derrida, enfatizando alguns aspectos não explícitos, porém latentes na obra de Marx, e definindo a sociedade como uma estrutura relacional de política econômica, prática ideológica e prática político-legal.

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