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| Corte - Laboratórios e prédio central |
Valorizar e não isolar. Assim a equipe de arquitetura do novo Centro de Pesquisas da Petrobras, o Cenpes 2, no Rio de Janeiro, trabalhou com os espaços externos dos edifícios. Buscou-se uma arquitetura que respondesse ao clima, em que a paisagem natural convida o usuário a usufruir dos espaços abertos - com conforto, claro. O projeto de arquitetura é de Siegbert Zanettini, com coautoria de José Wagner Garcia.
Mas a prática não é tão simples quanto a teoria. Afinal, o edifício está situado em pleno Rio de Janeiro: o rigor do clima local pediu um trabalho de tratamento cuidadoso dos espaços abertos - e, ao mesmo tempo, trabalhou simultaneamente na concepção arquitetônica das edificações. O paisagismo de Benedito Abbud foi primordial. Definido ainda na fase do concurso, privilegia a restauração da Mata Atlântica e da restinga. Já os estudos de desempenho ambiental foram desenvolvidos pelo Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética (Labaut), da FAUUSP.
"O tratamento de sombreamento e ventilação dos espaços externos cria situações de conforto diante das condições ambientais difíceis de clima quente-úmido", diz Leonardo Monteiro, do Labaut. Para o arquiteto, as soluções foram alcançadas graças à interação entre as equipes de arquitetura, de paisagismo e de consultoria de conforto desde as etapas conceituais de projeto, possibilitando a necessária troca de informações ao longo de todo desenvolvimento projetual.
A equipe do Labaut construiu um banco de dados climático de 8.760 horas da região, que serviu para as simulações de temperatura, umidade, direção e velocidade do vento, radiação solar e precipitação do local. "Utilizou-se um índice de conforto baseado em modelo adaptativo, que considera a adaptação das pessoas ao clima local", explica Leonardo.
Para o cálculo em áreas externas, foram estudadas três tipologias de ambientes, levando em conta a maior permanência pelos usuários: a área central do Centro de Convenções, a área entre as alas de laboratórios e os terraços do prédio central.
A área central do Centro de Convenções faz parte do espaço de chegada e recepção do Cenpes 2. Com forma circular e 36 m de diâmetro, é circundada por salas de conferência. De acordo com os estudos do Labaut, o complexo fica exposto ao sol aproximadamente metade das horas do ano. A partir dessa informação, projetou-se o auditório principal, localizado no piso superior, de forma que criasse um espaço coberto e protegido do sol e das chuvas na parte central, destinada a uma lanchonete.
Quando a condição for de sombreamento, em aproximadamente 85% do tempo o usuário está em conforto térmico. Pela irradiância solar direta, o sombreamento formado pela projeção da cobertura protege parte da área central, na qual as velocidades do vento são maiores (entre 0,5 e 1,5 m/s) - e é onde os usuários podem se acomodar.
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| 1) centro de convenções 2) laboratórios 3) terraços - prédio central |
O segundo ambiente estudado, as áreas abertas entre os corredores dos laboratórios, têm orientação norte-sul. Foram projetadas para serem áreas de encontro e são delimitadas pelas circulações abertas de acesso às salas dos pesquisadores e aos laboratórios.
Pela necessidade de sombreamento, foi projetada uma fileira central de arvoretas ligeiramente deslocada para o norte, para que haja uma maior área de sombra no espaço central, que será efetivamente ocupado pelas pessoas. As espécies especificadas apresentam densa folhagem, visando a uma maior obstrução da incidência solar, mas com copas baixas. A escolha contribui para o conforto térmico: onde a velocidade do ar é mais alta, tem-se situação de conforto em 67,5% do tempo nos locais com radiação solar direta, porcentagem que aumenta para 98% quando se tem o sombreamento pelas árvores.
A proposta de árvores baixas é compatível com a necessidade de deixar a cobertura do edifício - e os painéis fotovoltáticos que serão instalados ali - expostos ao sol. "Árvores de maior porte não proporcionariam, ao longo do período desejado, a sombra necessária nos espaços abertos, causando ainda interferência no sistema coletor de energia solar", explica Leonardo.
O terceiro ambiente são os terraços do prédio central, semiabertos com vistas para a paisagem natural e para o próprio conjunto arquitetônico, com 245 m de comprimento e 13 m de largura cada e com pés-direitos que variam de 5,6 m a 4,6 m. As fachadas, perpendiculares aos laboratórios, são orientadas ou para o leste, com vista da Baía de Guanabara, ou para o oeste, com vista do continente.
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| Distribuição do vento no centro de convenções |
Foram simuladas para o local duas opções de cobertura: telha metálica sanduíche e tela metálica. A primeira proporciona maior tempo em conforto (77% do dia) quando comparada à tela metálica (64%). Mas quando se considera a solução com tela metálica acompanhada de estratégias de sombreamento paisagísticas a porcentagem fica próxima à da primeira solução (75%) - com a vantagem de que a telha sanduíche, ainda que apresente maior resistência térmica do que a tela metálica, irá absorver uma parte da energia solar e transmiti-la em parte para o interior. Por isso, foi a opção escolhida.
O Cenpes 2 tem área construída de mais de 124 mil m2, que comporta laboratórios, escritórios, um centro de realidade virtual (CRV), biblioteca, restaurante, orquidário, centro de convenções e edificações de apoio. Siegbert Zanettini e José Wagner Garcia venceram concurso realizado em 2004. As obras iniciaram em 2005 e a previsão é que em 2010 o prédio seja inaugurado.
FICHA TÉCNICA
PROJETO DE ARQUITETURA Siegbert Zanettini, José Wagner Garcia
PROJETO DE PAISAGISMO Benedito Abbud
ESTUDOS DE CONFORTO TÉRMICO Labaut/FAUUSP