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Crônicas Agudas


O espetáculo da arquitetura
A arquitetura do espetáculo

Por Sergio Teperman Ilustração Osvaldo Pavanelli



O termo "arquitetura do espetáculo" tem sido utilizado sempre de forma pejorativa pela turma do "quanto pior melhor", com justificativas que, longe de serem convincentes, só lembram manifestos de centro acadêmico. A palavra "academia", por questões universitárias e corporativas, já afasta do ensino um sem número de profissionais que projetam no dia a dia, mas que são quase discriminados no meio acadêmico. Coisas de país rico como o nosso, que pode se dar ao luxo de dispensar a capacidade e experiência desses arquitetos. A academia e os movimentos (im)populares decidiram que boa arquitetura é urbanizar favelas e construir escolas baratas.

Como já cansei de expor o papel de desenvolvimento social e econômico que a boa arquitetura e principalmente o urbanismo desempenham em uma sociedade, vamos tentar por uma vez o lado cultural e de uma palavra frequentemente mal utilizada: cidadania. Para começar: independentemente de sua parte monótona e da excelente arquitetura individualista de Brasília, que outro país no mundo possui uma experiência urbanística integral nos tempos modernos e com uma expressão plástica e simbólica que não foi jamais contestada? Ou alguém teria coragem de rotular nossa capital como detentora de uma arquitetura do espetáculo? Se há algum defeito em Brasília, é ser uma monótona cidade de funcionários públicos com a maior renda per capita do país (pagos por você, cara-pálida) e de políticos brasileiros corruptos (pleonasmo) pagos por empreiteiras ou, em última análise, outra vez por você.

Não consola saber que ao longo dos séculos e antes do surgimento das grandes fortunas individuais e corporativas, todo o brilhante urbanismo (ao lado de terríveis underdog slums, para usar um termo da hora) e os palácios e catedrais eram também pagos com o suor da população, que criava a riqueza de poucos que construíam esses palácios ou castelos e fortalezas, esplêndidas obras de engenharia militar para defender ricos e (acidentalmente) pobres.

E a ninguém ocorria dizer naquela época que estavam fazendo arquitetura do espetáculo e que o povão vivia mesmo em cortiços. Realmente viviam, mas tinham surpreendentes e belíssimas cidades ou aldeias onde se faziam praças, escadarias, jardins, fontes e monumentos arquitetônicos e artísticos que eram o orgulho de toda a população, que deles usufruía livremente.

Mesmo os palácios e parques feitos exclusivamente para a nobreza nos séculos anteriores, se tornaram, há mais de cem anos, de propriedade e uso de toda a população das cidades, que aí encontra os seus principais pontos de lazer e cultura e, em especial, suas referências históricas. Versalhes é o maior exemplo, mesmo que os turistas reclamem que já não se fazem brioches como antigamente.

Há exemplos infinitos de construções inacreditáveis, tão inacreditáveis quanto a tese deste artigo. Por exemplo, quando um simples e democrático líder, como um faraó do Egito, resolvia fazer um quartinho para dormir (eternamente) e um depósito para guardar as suas coisinhas antes que um fanático da Al-Quaeda da época atacasse, poderia ele imaginar que os construtores iriam dar uma caixinha para o PT (Partido do Tirano) e conseguir um adicional de contrato (um costume daquela época) e com isso criar monumentos um pouco maiores do que o quartinho, com estranhas formas que assombram o mundo até hoje, e que I.M. PEI tentou repetir no lugar mais prestigioso da Paris moderna? O próprio PEI foi criticado por fazer a arquitetura do espetáculo e não respeitar a tradição dos antiquíssimos monumentos como a Torre Eiffel e o Centro Pompidou?

Da mesma forma, quem poderia supor que da briga entre um bispo e uma latifundiária resultaria um incêndio em uma igreja do povoado, e a nova se tornaria uma das mais emocionantes provas do engenho e da criatividade humana, a Catedral de Chartres? E a alegria do povo, vivendo em pobres casinhas, ao ver depois de mais de cem anos a inauguração da sua - porque todos a percebiam assim - maravilhosa catedral?

Pode parecer curioso que mais um exemplo seja na França, país onde teoricamente sempre houve revoltas sociais e as pseudolideranças e consciências sociais do mundo. Mas um dos traços mais marcantes da Paris de hoje, les grands boulevards (Italiens, Capucines, etc.) foram riscados por Haussmann, o grande urbanista de Paris, sobre bairros populares de ruas estreitas, segundo alguns historiadores para tornar mais fácil a repressão aos movimentos populares. Agora foram mais práticos, trocaram os paralelepípedos por asfalto e os estudantes, os intelectuais e outros desocupados ainda enchem o saco, mas sem projéteis.

Nos dias de hoje, ninguém se lembra mais disso, os franceses continuam pensando com o coração e votando com o bolso, e os grands boulevards espelham a sua beleza e facilitam o trânsito da cidade. Visionário Haussmann. Em um ataque de saudosismo poderíamos dizer que já não se faz mais cidades como antigamente, ainda que as cidades ainda sejam o maior exemplo da inventividade humana, se levadas em conta a sua complecidade e o infinito conjunto de trocas econômicas, sociais, mentais, científicas, tecnológicas, emocionais e tantas outras que os contatos de grupos menores ou maiores de pessoas proporcionam.

Naturalmente ainda são realizadas grandes operações urbanísticas que em certos casos alteram fortemente o funcionamento e, quando bem-sucedidas, a imagem de uma cidade. Como exemplo eu citaria as cidades subterrâneas no Canadá (uma resposta aos invernos dos infernos), e a artéria subterrânea de Boston, que transformou uma autoestrada elevada que cortava o centro da cidade em um enorme parque, valorizando todos os edifícios em volta e enterrando todo o tipo de trânsito - menos o aéreo, apesar da sugestão dos consultores lusitanos. Em clima menos frio, cito o aterro do Flamengo, no Rio, e a sempre lembrada Barcelona da olimpíada, casos em que os trabalhos só complementaram cidades que já eram maravilhosas.

Mas por inúmeras condições, não se consegue mais construir cidades pela beleza, como nos séculos passados, porque urbanismo em sociedades industriais e democráticas é dificílimo fazer. Embora o sentimento de realização ao executar um trabalho desse seja enorme, a crítica também o é. É a arquitetura do espetáculo, é claro, que carrega a marca de seus criadores, dos empreendedores públicos ou privados e de seus arquitetos e engenheiros construtores.

Há ainda muito da criatividade humana e de seu empenho em construir coisas belas, ainda que pontuais, e que digam "me ne frego" ao entorno. Mas os cidadãos as amam, delas se orgulham como se orgulhavam em séculos passados de suas catedrais.

Hoje os altos edifícios, os museus e teatros, as arenas multiespetáculos, as grandes pontes que realmente constituem a arquitetura do espetáculo merecem todos os nossos elogios por alterarem a imagem das cidades, lembrando que a beleza urbana faz parte do trabalho dos arquitetos, muito além de seus problemas funcionais e das questões sociais da população, que embora dramáticas e de solução indispensável para sociedades mais justas, estão fora do controle dos arquitetos, que só podem, como profissionais, atender ao que lhes demandam. Como cidadãos é outra coisa, mas como profissionais, nas questões sociais, nossa atuação é limitada. Podemos então ser modestos, não pretendemos sozinhos mudar o mundo, mas podemos e muito alterar a imagem dos locais em que vivemos. E esquecer o maldito qualificativo da "arquitetura do espetáculo", que na verdade é mesmo o espetáculo da arquitetura, que encanta e mesmo dentro das enormes dificuldades da vida nas metrópoles, torna orgulhosos os seus cidadãos da mesma forma que em séculos anteriores as catedrais maravilhavam os habitantes das aldeias.

Em meio ao que é chamado de arquitetura do espetáculo há muitos exemplos de boa arquitetura. Apenas para marcar diferentes épocas, lembramos do Guggenheim de Nova York, do Centro Pompidou, do HSBC de Pequim e do Lloyd's de Londres (os dois parecem catedrais de estrutura bastante sólida e economia em balanço), do Ninho de Pássaro (bastante firme), do Guggenheim de Bilbao e da Ópera de Sydney, estes últimos que colocaram uma cidade e um continente no mapa. Não é pouca coisa.

P.S. Deus, que segundo os parabrisas é fiel (se for homem, duvido), que perdoe os que perdem enormes oportunidades de trazerem beleza às cidades ao construírem os "neoclássicos", os também enormes shopping centers quando descambam para arquitetura remendada e despersonalizada, e as também mais enormes igrejas evangélicas, globais, mundiais e outras.



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