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Crônicas Agudas


As histórias finlandesas de Sergio Teperman
Bad time stories/finlendas

Por Sergio Teperman Ilustração Alvar Aalto



Às vezes comentam que meus artigos são muito ácidos. Na verdade, tenho enorme dificuldade de identificar se um sabor é ácido, amargo, azedo ou coisa parecida. Talvez seja por isso que eu me alimente tão pouco - segundo um amigo, minha língua seria "daltônica". Mas uma coisa posso assegurar: para a editora meus artigos não são nada salgados.

Assim sendo, em face dos tempos ruins, decidi pegar leve e retomar uma distração de outras passagens por esta mesma AU e escrever um artigo que ficaria bem na antiga série Falta de Assunto em que contava casos de arquitetura ou de arquitetos, muito bons para ler antes de dormir. Desta vez, porém, os casos são focados unicamente no escritório de Alvar Aalto, o "lendário arquiteto finlandês", conforme a revista Veja em matéria sobre uma exposição de sua obra que montei em São Paulo.

Então aqui vão algumas lendas de Aalto, todas inteiramente verdadeiras (o que seria meio verdadeira?).

Desde a minha primeira bolsa de estudos em Firenze, já sonhava em ir para a Escandinávia. Assim, de cara, no primeiro verão, fui aos quatro países escandinavos, terminando na Finlândia. O complemento do sonho seria trabalhar com Alvar Aalto. Fui ao escritório, um lugar "turístico" de Helsinki: a fama de Aalto era comparável à de Pelé, e qualquer motorista de táxi sabia seu endereço. Fui atendido por um francês antipático (redundância), Jean Claude Cousin, posteriormente colaborador de L'Architecture D'Aujourd Hui. Mostrou-me o escritório e gentilmente me disse, "travailler ici? c'est impossible". Esta foi a senha para eu ir atrás de alguma coisa.

No ano seguinte fui trabalhar em Londres e no verão voltei a Helsinki. Conversei com um finlandês, chefe do escritório de Aalto e muito mais simpático que o funcionário francês (isso é fácil). Pediu para que eu voltasse no ano seguinte. Um ano mais tarde, com bolsa para vinhos, queijos e castelos (et d'autres choses) em Paris, voltei no verão para Helsinki, só que com uma bolsa de estudos da seção finlandesa da Unesco, por quatro meses. Uma merreca que não dava para sobreviver. Tinha que arrumar um emprego, o que seria facílimo, só que para mim tinha de ser no Alvar Aalto - "impossible" com dizia o encantador Cousin.

Depois de um mês tentando uma entrevista e visitando dezenas de escritórios de excelente arquitetura, apenas para olhar, sem pedir emprego (é programa em Helsinki esse tipo de visita), fui a uma conferência de Felix Candela, o grande arquiteto-engenheiro mexicano, no famoso auditório da faculdade de arquitetura de Helsinki (obra de Alvar Aalto, por sinal), e dirigi ao conferencista duas perguntas em espanhol. A seguir nos encontramos no café e Candela, surpreendido com alguém falando espanhol, me perguntou o que eu fazia na Finland (fim da terra). Expliquei-lhe que iria conseguir trabalhar com Alvar Aalto e Candela me disse: quer que eu o apresente? Chamou Alvar Aalto e no dia seguinte eu estava empregado.

Como todo iniciante, fui deixado numa masmorra só vendo os arquivos dos desenhos, de onde "trouxe" uma perspectiva à mão livre, feita a lápis pelo próprio Aalto para os dormitórios do MIT, onde ele ensinou, e que está reproduzida em todos os livros sobre seu trabalho. Ao lado da masmorra, dois teenagers estavam montando, já fazia dois anos, uma enorme maquete interna da Ópera de Essen, com todos os detalhes, em escala 1:50! Apesar da bolsa, Aalto fez questão de me pagar outra merreca, mas somando as duas já dava para tomar umas vodkas.

Dois meses depois, estava namorando uma linda e inteligente jovem que era a diretora da Unesco na Finlândia. A atitude não foi interesseira, mas consegui uma extensão da bolsa, um aumento de salário, e o resto é história - ou lenda.

Trinta anos depois jantei com Felix Candela, sua mulher e Jorge Glusberg em Buenos Aires e aproveitei para agradecer-lhe, com algum atraso, porque em Helsinki, logo após a conferência ele tomou o avião e não ficou sabendo da minha contratação. E é desse incrível período de vida que conto agora algumas lendas verdadeiras:

1) A desculpa tradicional do escritório de Aalto quando recebia pedidos de emprego (semanais durante o ano e diários no verão) era de que o currículo era muito interessante, mas não havia pranchetas vagas. Um casal de suíços voltou no dia seguinte com duas pranchetas zero quilômetro. Foram contratados.

2) Durante meses foi preparado no escritório o plano urbanístico de Helsinki. Certa tarde, na sala de recepções da prefeitura, foram expostos os painéis e uma enorme maquete do Centro da cidade. Estavam presentes o prefeito e o presidente da Finlândia, Urho Kekkonen, um prodígio de equilibrista político na guerra fria. Terminada a apresentação, fomos todos para o bar de um hotel tradicional, umas 40 pessoas, entre os quais todos os 25 arquitetos do escritório. A um dado momento, como numa largada de Fórmula 1, foi dada a ordem para começar a bebida, sem comida, e após três horas, foi dada a bandeira quadriculada. Fomos todos saindo e como estávamos no primeiro andar, Aalto e o presidente, com a senhora Aalto no meio foram descer as largas escadas. Aalto abaixou, o presidente equilibrista perdeu o equilíbrio e os dois ficaram estendidos para frente dos degraus, com Elissa Aalto segurando-os pelas pernas e todo mundo correndo para ajudar. Uma cena inesquecível.

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