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Edição 182 | Maio/2009
Documentos
Vida e obra de Flavio Ferreira, por Roberto Segre Flavio Ferreira teve um desenvolvimento profissional, teórico e acadêmico, que o levou da estrita disciplina modernista à liberdade expressiva do pós-moderno. A sua obra percorre o difícil trajeto de quase meio século da arquitetura carioca
O sucesso do seu trabalho acadêmico em Harvard facilitou o convite, em 1982, para participar da equipe de projeto de uma nova cidade na Venezuela, a Ciudad Guasare, situada em uma área carbonífera perto da fronteira com a Colômbia. Trabalhou com Kevin Lynch, Christopher Alexander, Marcial Echenique e Cyrene Barreto-Morse em uma proposta que queria evitar a segregação social das cidades projetadas como Ciudad Guayana e Brasília, que mantinham uma divisão territorial entre os grupos sociais. Com lotes de grande tamanho, ocupados por moradores de diferentes capacidades econômicas, se estabeleceria uma homogeneidade de ocupação, onde os serviços públicos, como as escolas, constituiriam os elos de articulação. Desafortunadamente o projeto não foi executado.
Um compromisso cultural e administrativo
A assimilação dos conceitos elaborados por Kevin Lynch sobre a boa forma urbana e por Christopher Alexander na sua teoria do Design by patterns, permitiu a Flavio agir no planejamento da cidade do Rio de Janeiro com propostas originais tanto como diretor técnico do Iplan-Rio (Instituto da Prefeitura do Rio de Janeiro, hoje Instituto Pereira Passos), quanto como secretário municipal de desenvolvimento urbano, entre os anos de 1983 e 1988, tarefas administrativas que persistiram até 1993, como secretário de planejamento de Uberaba, MG, cidade para a qual definiu a criação de um ícone arquitetônico que identificasse o valor simbólico do Centro, com uma fina torre de 30 andares (um apart-hotel) sobre um embasamento composto por um centro comercial.
Em paralelo ao trabalho em urbanismo, Flavio Ferreira prosseguiu dedicando-se aos projetos arquitetônicos. Em 1987 é premiado pelo IAB pelo projeto de Expansão da Sede Administrativa da Confab em Alphaville, Barueri, SP. Ao edifício existente foi adicionado um bloco quadrado com um pátio interno, inter-relacionados por uma leve ponte metálica, gerador de uma expansão maior definida por um sistema de volumes quadrados de baixa altura e alta densidade.
Uma das premissas essenciais que manteve na sua gestão administrativa no Rio foi assumir o valor cultural da cidade tradicional com as identidades significativas para a comunidade dos espaços urbanos, desde o universo das favelas, que começaram a ser assumidas como assentamentos estáveis no governo de Leonel Brizzola, o abandonado sistema suburbano e a qualificada área central. Nessa perspectiva, a cidade se configuraria por iniciativas fragmentárias, contidas no programa de microzoneamento do município e nos projetos de estruturação urbana dos diferentes bairros. E foram detalhadas propostas concretas para a requalificação da Cidade Nova, a Esplanada de Santo Antônio e as circunvizinhanças da Praça 15. Na Cidade Nova, valorizada como um novo centro administrativo da cidade, tentou-se resgatar a malha urbana tradicional que uma solução "modernista" propunha apagar, e organizar o espaço do conjunto de prédios presidido pela sede da prefeitura, relacionado com as estações do metrô, estabelecendo a independência do sistema viário da circulação dos pedestres.
A significação popular do espaço público
Superada a década "perdida" dos anos 80 com as sucessivas crises políticas e econômicas, os anos 90 abriram uma significativa renovação da cidade do Rio de Janeiro, baseada nos originais programas elaborados pela prefeitura sob César Maia, Luiz Paulo Conde e o secretário de urbanismo Sérgio Magalhães. Flavio teve uma ativa participação nos Programas Favela-Bairro e Rio-Cidade. No primeiro, desenvolveu os projetos das favelas Morro da Cruz, Buraco Quente e França Junior, sendo a mais original a proposta no concurso para a intervenção na favela de Dona Marta, em Botafogo (2000), que obteve o segundo prêmio de um concurso de âmbito nacional, baseada em um plano inclinado que contém circulações e infraestruturas e constitui o eixo principal das atividades dos moradores da favela.
Em 1994 Flavio desenvolveu o projeto do centro do bairro de Taquara, o Projeto Rio Cidade Taquara, em um subúrbio com uma descontrolada ocupação do solo, construções ilegais, ruas de tráfego intenso e calçadas ocupadas por carros e camelôs. Flavio conseguiu valorizar a praça que constituiu o núcleo central do bairro e as principais ruas de acesso, com o controle da circulação e do mobiliário urbano. No Centro da cidade, elaborou o projeto de requalificação da rua Larga (2006), totalmente submetida e abandonada, e paralela à privilegiada avenida Vargas. No programa Novas Alternativas, restaurou um cortiço tombado transformando os precários quartos em pequenos apartamentos.
No mercado Ver-o-Peso de Belém do Pará (1999) (
AU 121, abr/2004), que obteve o primeiro prêmio em um concurso nacional, a estrutura leve que delimita o espaço do mercado popular suporta um módulo quadrado cupular, de lona translúcida, que se desenvolve ao longo do rio Guamá e na frente do mercado tradicional de ferro do século 19, cujo restauro foi parte do projeto. Assim, foi valorizado com uma imagem contemporânea um dos ambientes mais importantes do Centro da cidade de Belém, renovando a antiga configuração deteriorada e decadente que identificava a presença dos camelôs ali alojados.
Mudanças presentes no prédio de apartamentos de baixa renda na rua Santana, no Rio (2002), que tem uma clara conexão contextualista com as ruas do bairro popular: o bloco horizontal estabelece a continuidade da tradicional rua, e o volume vermelho alto da esquina define a escala de transição com a monumental avenida Vargas.
Inserido no ensino universitário desde 1990, na FAU-UFRJ e no Prourb da UFRJ, Flavio lecionou aos jovens que se transformaram nos arquitetos da vanguarda da nova geração. Alguns deles como Pedro Rivera, Washington Fajardo, Rodrigo Azevedo, Célio Diniz, Kadu Spencer, Glauco Lobato e Felippe Calçado trabalharam no seu escritório junto com sua equipe permanente, constituída por Cristina Gouveia, Luiz Carlos Boeckel e Carolina Ferreira.
A introversão intimista da moradia
Se a imagem tradicional do arquiteto se identifica com o projetista de grandes edifícios, o profissional contemporâneo abrange um leque mais aberto e diversificado de encargos, onde se perdem as fronteiras entre arquitetura, cenografia, cinema, desenho industrial, música, escultura. E a clara identificação da obra no contexto urbano é substituída pela intervenção "ambiental" na cidade. Flavio optou por esse caminho, privilegiando a obtenção da "boa forma" urbana, sobre a boa forma arquitetônica. Mas isso não significa abandonar o velho ofício do arquiteto. Ele desenvolveu diversos projetos de moradias e conjuntos habitacionais, onde se mantém a continuidade da herança vernácula carioca, tanto nos projetos de conjuntos de casas e hotéis em Angra e Ilhéus, quanto na sua primeira moradia em Angra dos Reis, que tem evoluindo no tempo como um work in process.
O diálogo com o espaço urbano está presente no Conjunto Habitacional do Inocoop (Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais) em Andaraí (1976), cujos blocos se articulam livremente no redor de uma ampla área verde e estão vinculados a uma praça "italiana" que concentra as funções públicas. E no prédio de apartamentos do Jardim Botânico, se alterna o uso da madeira e o tijolo com as dilatadas fachadas de vidro que permitem a percepção da paisagem.
Finalmente, três residências aplicam com clareza os princípios de Lynch e Alexander, relacionados com a importância do sítio, como um dos elementos básicos que definem o caráter formal e espacial da solução arquitetônica. Na casa Vidigal, na Barra da Tijuca, e na casa do arquiteto, no Cosme Velho, a disposição irregular dos volumes é determinada pelo declive do terreno e suas diferentes funções, como são distribuídas nos diferentes platôs, relacionam-se por escadas internas e externas. A liberdade gerada pela localização geográfica é acompanhada pelo uso de diferentes materiais, o uso constante de brise-soleil, assim como a integração entre a estrutura de concreto armado e do aço. Na casa Lemann (Prêmio IAB-RJ, em 1998), na estreita rua Leblon, uma rua de vila, no Rio, o pequeno terreno de 12 m por 12 m foi aproveitado com uma solução vertical de vários andares, integrando-se à tipologia dominante das casas vizinhas. Essa capacidade de adaptação e compreensão da complexa realidade atual para chegar à solução do problema - social, funcional, arquitetônico ou urbano -, sem preconceitos formais ou estéticos, é um dos valores que caracteriza o nosso mundo do século 21.
Imagens Todas imagens são cortesia do arquiteto.
Bibliografia
CZAJKOWSKI, Jorge (Curad.), Guia da arquitetura moderna no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2000. FIGUEROLA, Valentina, "Linguagem única. Flávio Ferreira", AU - Arquitetura & Urbanismo, no 174, Ano 23. São Paulo, p.p. 30-35. L' architecture d'aujourd'hui no 359, BRÉSIL, Paris, julho-agosto, 2005. "Immeuble résidentiel Santana, Rio de Janeiro (RJ)", pp. 58-59. PINHEIRO, Claudia, IAB Rio de Janeiro. 80 anos. Rio de Janeiro: IAB/RJ, 2001. SEGRE, Roberto, Arquitetura brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Viana & Mosley Editora, 2004. SOTER, Ana (Coord.), Rio Cidade. O urbanismo de volta às ruas. Rio de Janeiro: Mauad, IPLANRIO, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1996.
Roberto Segre
é professor do Prourb da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em planejamento regional e urbano do IPPUR da UFRJ. É autor de diversos livros, entre esses, Arquitetura brasileira contemporânea, Brasil: jovens arquitetos e Casas brasileiras (Viana & Mosley Editora).PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2
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