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Exercício Profissional


Como sobreviver às crises
Por Vinicius Abbate


O momento de crise global tem feito com que arquitetos repensem a maneira de administrar seus escritórios e suas carreiras. Entre as soluções para a crise apontadas por profissionais da arquitetura estão as de garantir a qualidade técnica dos projetos em andamento, melhorar o atendimento aos clientes, criar soluções alternativas de custos para novos projetos e investir em qualificação profissional.

Reforçar as características
Para Alberto Botti, do escritório Botti Rubin Arquitetos, deve-se agir de acordo com o segmento de trabalho. Segundo ele, em momentos de crise, os escritórios devem reforçar características próprias, de modo que se mantenham a confiabilidade entre os clientes e a qualidade técnica dos projetos. O investimento na imagem do escritório, com propagandas em mídias conhecidas pelo público, também é recomendável. Gilberto Belleza, do escritório Belleza & Batalha Arquitetos, diz que as melhores soluções não surgem em momentos de crise, mas como consequência do empenho da empresa. "As soluções vêm com o trabalho, são produto da criatividade e da busca por alternativas de custo."

Para estabelecer uma relação de confiança com o cliente, os escritórios devem apostar no atendimento: ouvir o que o cliente tem a dizer e investir para o melhor atendimento é sempre uma boa estratégia.

A tradição do escritório, diz Botti, também favorece nesses momentos. "O cliente quer ter certeza do que vai acontecer no futuro. Isso nos ajuda, já que nosso escritório tem boa retaguarda no setor."

Para garantir a demanda, o coordenador de projetos do escritório Bernardes Jacobsen, Nuno Costa Nunes, afirma que é importante estar atento para ampliar as oportunidades aos clientes. "É fundamental. Mas perder o foco pode ser um grande risco. Os objetivos e as áreas de atuação devem ser bem definidos como macroestratégia de atuação e posicionamento de mercado. A energia deve estar concentrada."

Sem ilusões
Colocar o pé no chão é um bom primeiro passo para passar bem pela crise - o que inclui organizar e pensar melhor a estrutura da empresa. O arquiteto Dante Della Manna lembra que não existe apenas uma regra para todos. "Mas épocas de crise são propícias para catarses, quem as faz supera as dificuldades antes dos outros", afirma. Ronaldo Rezende, presidente da AsBEA, diz que o momento aponta para a reorganização dos orçamentos, com menores margens de lucro para os empresários. "A retomada de investimentos em projetos arquitetônicos deve acontecer de forma lenta, no decorrer do ano."

Equipes terceirizadas
Para evitar grandes mudanças na equipe, uma opção é trabalhar com pessoal terceirizado. Foi essa a solução encontrada pelo escritório Bernardes Jacobsen. Nuno explica que 30% dos projetos desenvolvidos pela empresa são feitos por equipes satélites, ativadas em razão da demanda. "Se tivermos uma diminuição de projetos, reduzimos a contratação dessas equipes e concentramos o trabalho com as equipes internas." Manter uma estrutura enxuta, aliás, parece ser a melhor alternativa para vários momentos. De acordo com Belleza, os escritórios de arquitetura vivem frequentemente momentos de ampliação e redução de pessoal. Reavaliar o desempenho do escritório e da equipe pode melhorar o processo de gestão da empresa e aumentar a produtividade. "A melhor solução no momento é tentar se manter com uma estrutura mínima que possa existir nas crises", diz Belleza. Aqui entra a importância de uma boa seleção de funcionários e de investimento em treinamento: contar com profissionais multitarefas e uma equipe produtiva é essencial.

Remuneração dos funcionários
Uma alternativa para manter um número fixo de funcionários e não ficar à mercê das instabilidades do mercado é rever o modelo de remuneração. O escritório Bernardes Jacobsen, por exemplo, prevê pagamento de até 30% do salário dos arquitetos em razão do bom desempenho do escritório. "Por isso, em momentos de crise, podemos diminuir o custo da produção significativamente", diz Nuno. "É bom para todos: o profissional mantém seu emprego e nós mantemos nossos talentos."

Mudanças estruturais
A estrutura da empresa pode e deve mudar, de olho sempre no aumento de produtividade. Della Manna diz que o momento de crise o fez racionalizar as funções do escritório, pensando em um período de médio prazo. "Hoje o mesmo coordenador de um projeto acompanha o gerenciamento e execução de obra", exemplifica. As mudanças ocorreram também no departamento comercial. "Iniciamos um processo de captação e prospecção de outros tipos de projetos na área comercial. Aproveitamos a oportunidade para realizar um desejo antigo de implantar um novo processo de produção, com profissionais voltados a novos desafios. O resultado tem sido muito promissor e a produtividade, bem maior."

Avaliação do mercado
Há quem aposte na ousadia empresarial, mesmo em um contexto de incertezas. Mas profissionais como Henrique Cambiaghi, do escritório Cambiaghi Arquitetura, aconselham que, antes de qualquer mudança de rumo, seja feita uma melhor avaliação de mercado para verificar se não se trata apenas de uma retração temporária. Além disso, de acordo com o arquiteto, é preciso calcular se o escritório tem condições de atuar alternativamente em outros segmentos, antes de partir para a prospecção de novas áreas. "Aproveite para fazer uma reavaliação geral do desempenho do escritório e da equipe. Devem-se reavaliar os processos de gestão da empresa e aproveitar para buscar um aumento de produtividade", aconselha Cambiaghi.Para Rezende, da AsBEA, alguns arquitetos tentam encontrar necessidades não atendidas pelo mercado. "Todos estão à procura de uma solução. Mas não há fórmula, as questões sobre a crise são particulares de empresa para empresa." Rezende diz que a AsBEA pretende pôr em prática um projeto de internacionalização, como forma de alcançar mercados no exterior, ainda que, segundo ele, as condições no Brasil estejam boas para investimentos.

Qualificação profissional
Momentos de incerteza podem ser uma ótima oportunidade para investir em qualificação: há, teoricamente, mais tempo disponível e o escritório ganha em diferenciação. "Continuamos a investir em treinamento, agora com todos os funcionários sendo preparados para trabalhar em novos softwares de gerenciamento e levantamento de custos", conta Della Manna. "O objetivo é concentrar informação mais confiável, ganhando agilidade e qualidade", conclui. Há, ainda, treinamento em softwares ligados à concepção projetual, como os de projetos 3D.

Mas isso não significa se matricular em todos os cursos disponíveis. Foco é essencial, e é preciso seguir um planejamento - de acordo, é claro, com os objetivos do profissional e do escritório. "Cursos de mestrado e doutorado, por exemplo, são indicados aos profissionais que desejam continuar ou assumir uma carreira universitária", diz Cambiaghi. E complementa: "Já os cursos profissionalizantes ou de especialização são ligados à área de atuação do profissional".

Fugir de cursos ligados diretamente à arquitetura também pode ser uma boa alternativa, desde que possam ser utilizados no dia a dia da profissão, caso de alguns cursos na área de administração de empresas. "Os arquitetos em geral não têm formação para administrar escritórios", argumenta Cambiaghi.

Para sobreviver à crise

  • Mantenha a confiabilidade entre os clientes
  • Garanta qualidade técnica dos projetos
  • Crie soluções alternativas de custo para projetos
  • Invista em treinamentos e qualificação profissional, com cursos ligados à área de atuação profissional
  • Invista em aprimoramento de softwares projetuais, de gerenciamento e de custos
  • Aposte em profissionais multitarefas
  • Treine a equipe para evitar perda de produtividade
  • Desenvolva a produtividade e a empregabilidade no escritório
  • Invista em aparições em mídias conhecidas do público


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