O condomínio residencial Piano Forte transformou o destino do município de Wettingen, na Suíça. O que antes era uma região predominantemente industrial, tornou-se cenário da proliferação de habitações plurifamiliares. Tudo após a construção do condomínio. Projetado pelo RD2B, estúdio de arquitetura com escritório em Zurique e em São Paulo, o conjunto é formado por três edifícios baixos dispostos ao redor de um parque. Para os autores da obra, o suíço Patrick Huppi e suas sócias, as brasileiras Bethliss Vallini e Thais Canton Dick, um dos desafios do projeto foi convencer o governo do país a aceitar a empreitada.
Segundo os arquitetos, o ponto de partida foi desenvolver um conceito forte e interessante de projeto porque, a princípio, ninguém estava disposto a construir residências naquela área. O nome Piano Forte, uma alusão direta ao instrumento musical, reflete a ideia com base na qual o projeto foi desenvolvido. "Queríamos criar um reduto de paz no meio daquela área industrial barulhenta. E partimos da música para criar o projeto", explica Thais. O piano, então, serviu como fonte de inspiração para o desenvolvimento da linguagem arquitetônica da obra.
As fachadas principais dos edifícios são compostas por painéis de vidro e de madeira dispostos em diferentes planos, criando superfícies compassadas que transmitem ritmo e movimento. Huppi explica que a disposição dos prédios em "U", voltados para um parque central, teve como intuito minimizar o barulho das indústrias. As unidades residenciais podem ser acessadas pelo parque ou pelo estacionamento subterrâneo implantado sob ele, cuja planta se estende às circulações verticais de cada edificação.
Posicionadas na porção central dos edifícios, as circulações verticais, executadas com concreto moldado in loco, atuam como núcleos rígidos que conferem estabilidade horizontal aos edifícios. Os demais elementos estruturais - lajes, vigas e pilares (estes sempre periféricos) - são de concreto pré-fabricado. Além de contribuir para a rapidez da construção (o condomínio residencial foi finalizado em apenas nove meses), o partido estrutural garantiu a configuração de plantas livres.
Um dos destaques do projeto são os painéis pré-fabricados de madeira, do tipo sanduíche, especialmente produzidos para vedar as fachadas. Com 3 m de altura e 9 m de comprimento, os painéis vieram da indústria já com os caixilhos instalados. São compostos por duas camadas de cedro, internamente preenchidas com um isolante térmico, e painéis de gesso para o acabamento interno. "Os painéis foram instalados nas fachadas em dois meses", afirma Huppi, que criou as peças em parceria com o fabricante.
Além da velocidade de montagem, outros requisitos foram atendidos pelos painéis. Um deles foi o bom isolamento térmico, necessário numa região que, no inverno, fica exposta a uma temperatura de -10°C. Flexibilidade e facilidade de manutenção também foram contempladas pelos elementos, que abrigam as instalações elétricas no vão formado entre o gesso e a madeira. Huppi explica que o cedro, muito comum nas construções canadenses - e que se torna acinzentado com o tempo - dispensa tratamento químico por ser naturalmente durável, resistente às intempéries e ao ataque de organismos xilófagos.
Por serem autoportantes, os painéis não sobrecarregaram a estrutura pré-moldada de concreto que, dessa forma, pôde ficar mais esbelta. No último pavimento, onde a ação da chuva é mais intensa, a madeira foi revestida com chapas metálicas anticorrosivas, feitas com uma liga de titânio-zinco. O arquiteto suíço conta que a lei de zoneamento da região onde o Piano Forte está inserido permitia que a construção tivesse um pavimento a mais. "Mas optamos por um pavimento a menos de forma a privilegiar uma planta maior, para a cobertura e para os demais apartamentos, que puderam desfrutar de uma área maior para o living", justifica.
Um dos aspectos bem resolvidos do projeto é o estacionamento do condomínio que, apesar de ser subterrâneo, desfruta de luz e ventilação naturais. Para que isso fosse possível, o projeto optou por erguer as lajes térreas para que caixilhos lineares iluminassem o espaço e ainda permitissem a passagem de ar. Sobre a laje da garagem foi implantado o parque, com jardim idealizado pelo paisagista brasileiro Gilberto Elkis.
Apesar de localizado em uma região industrial, o terreno fica em uma área privilegiada de Wettingen, próximo a um rio e a equipamentos públicos como uma grande piscina e áreas esportivas. Esse aspecto, segundo os arquitetos, favoreceu a consolidação e o êxito do projeto. "Percebemos que aquele era um bom lugar para viver e acabamos servindo de exemplo para os outros", diz Huppi. Uma aposta que deu certo.
CATALYSIS ARCHITECTURE
The Piano Forte residential condominium transformed the destiny of the municipality of Wettingen, in Switzerland: from an industrial region, it became the scenery for the proliferation of multi-family residences. Designed by RD2B, a practice with offices in Zurich and in São Paulo, the complex is formed by three short buildings set around a park - a disposition intended to minimize the factories' noise around the apartments. The main facades are made of glass and wood panels in different plans, creating paced surfaces transmitting rhythm and movement. Positioned at the central portion of the buildings and executed in cast in loco concrete the vertical circulations operate as rigid nuclei which confer horizontal stability to the buildings. The remaining structural elements - slabs, beams and pillars (the latter always peripheral) - are made of pre-cast concrete.
Pre-fabricated wooden panels were especially produced to close the facades, and are made of two cedar-wood layers filled with thermal insulation, and plaster panels in the internal finish. With 3m in height and 9m in length, the panels came from the factory with the frames already in place. Due to their auto-portability, they did not overbear the pre-cast concrete structure which could thus remain slimmer.