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Crônicas Agudas


Sergio Teperman e o PAC
POR SERGIO TEPERMAN ILUSTRAÇÃO OSVALDO PAVANELLI



Na época do maldito cursinho, na matéria de física (que é muitíssimo importante para arquitetura e que juntamente com a testosterona move o mundo), tínhamos uma área que, embora indispensável para a Fórmula 1, era totalmente inútil para a construção: a cinemática. Muita gente da arquitetura faz cinema, mas cinemática trata do movimento e nós todos projetamos imóveis, ou seja, se houver movimento significativo, é bom sair de baixo e de perto.

Na cinemática havia uma equação que definia o movimento que era: V = Vo + yT na qual V era a velocidade, Vo a velocidade inicial, y aceleração e T o tempo. Quando Vo = 0, a velocidade é definida apenas por yT, ou seja, você começa a pressionar o acelerador a partir do zero e aos poucos a coisa vai andando. Em resumo, em termos populares não há aceleração nenhuma, é como se começasse lentamente o Vo.

Está aí, de maneira curta e grossa a definição do PAC. Não dá nem adianta acelerar um carro que está parado e com o motor desligado. Portanto, acredito que Dilma Rousseff, uma pessoa dinâmica, não é a mais adequada para acelerar esse programa. Sugiro Rubens Barrichello.

Detesto comentar, ler ou me interessar por política, na verdade politicagem nacional, mas para escrever alguma coisa sobre um programa que é da nossa área, a construção, é necessário abordar um pouco do que move (ou deveria mover) esse programa, que é na verdade um marketing político mal-ajambrado.

O Brasil já chegou a crescer durante vários anos a uma taxa próxima de 10% ao ano, com um volume enorme de trabalho para os arquitetos, com a administração Delfim Netto (quem manda é quem controla o dinheiro) utilizando os baixos juros internacionais da época. Resultado: uma tremenda dívida e bancarrota.

No governo atual, nenhuma dívida, nenhuma bancarrota. E nenhuma obra.

A título de informação, nos dois primeiros anos de existência do PAC, o governo federal conseguiu gastar apenas 28% do orçamento destinado aos projetos e neste ano até 20 de abril foi gasto a inacreditável parcela de 1,07% dos 50 bilhões de reais autorizados para 2009.

Escrevi há muitos anos que "certas teses da esquerda, se desenvolvidas por gente competente (difícil) teriam alterado a face retrógrada deste País". Não é possível desenvolver país nenhum, mesmo com os imensos recursos naturais, territoriais e uma elite técnica e profissional competente como possuímos, com políticos de quinta categoria e com funcionários públicos vitalícios e desinteressados.

Recordo-me de que, quando morei no Reino Unido, fiz um concurso para trabalhar no Greater London Council (a prefeitura da grande Londres), uma tremenda escola de planejamento, onde trabalhavam 600 arquitetos de 87 nacionalidades projetando as novas cidades que se criavam (ou ampliavam outras menores) para desafogar o crescimento da capital.

E praticamente recém-formado, me deram um bairro inteiro para projetar (só entendo essa loucura porque era o ano do surgimento dos Beatles, da Swinging London e valia tudo, inclusive dar uma tarefa como essa a um jovem inexperiente). Todo orgulhoso, contei o fato à minha namorada que me olhou com um imenso ar de desprezo e lamentou: "A civil servant!" (um funcionário público!), e foi necessário um tour de force para não perdê-la!

Analisando de maneira rápida alguns desses itens do PAC, que tem como base a infraestrutura, podemos mencionar:

1) Estradas: é muito simples, as concessões rodoviárias provaram no Estado de São Paulo que é perfeitamente possível termos rodovias comparáveis às dos países desenvolvidos, bastando pagar caríssimos pedágios para quilometragens mínimas.

E se perguntar não ofende, para que serve o IPVA e o imposto sobre combustíveis?

2) Aeroportos: também é simples, basta jogar fora a canalha que vive ali dependurada e dar às grandes companhias aéreas a sua concessão. As taxas de embarque nesse caso cairão verticalmente porque o lucro virá de outros itens e não será necessário patrocinar as passagens dos deputados, mesmo porque os aviões voam "blowing in the wind", como dizia o usuário Suplicy e sua namorada.

3) Portos: há uns 20 anos, li a seguinte notícia no jornal: o governo está muito preocupado com o congestionamento dos portos brasileiros, que já dura mais de 20 anos. Foi criado um grupo de trabalho para resolver a questão e se espera uma solução para as próximas duas semanas...! Ainda que se construam e ampliem nossos portos, nada será possível sem um sistema contínuo de dragagem, mas como isso, da mesma forma que o sistema de esgotos, não aparece e não há votos, continuamos na mesma.

4) Hidrelétricas: o país mais aquinhoado com rios e imenso território para conseguir soluções de energia menos poluentes não consegue fazê-lo. Porque, se são necessários uns dez anos para planejar, projetar, construir e pôr em marcha uma grande usina, são necessários outros dez para conseguir uma licença ambiental.

Então fazemos termoelétricas, que são sistemas da idade da pedra, abandonadas por todos os países civilizados pelo dano ambiental, no caso do carvão, pelo uso intensivo de combustível, pela contaminação do ar... E continuamos a criticar as usinas nucleares, que caso bem localizadas e não no litoral mais belo do País, são absolutamente seguras, se não forem entregues a técnicos incompetentes.

5) Habitação: enquanto não aceitarmos o fato de que o problema de comprar uma casa não é um problema de construção ou de planejamento, mas de poder aquisitivo, que em nosso país decorre de uma imensa desigualdade social, qualquer plano de habitação é uma lorota.

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