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Edição 183 | Junho/2009
Fato & Opinião
Qual a responsabilidade dos planejadores na disseminação de doenças contagiosas? COLABOROU VALENTINA N. FIGUEROLA
A recente ameaça de pandemia do vírus AH1N1, inicialmente conhecido como vírus da gripe suína, levou o governo do México, país onde a doença teria se originado, a determinar cinco dias de recesso para conter a infecção, uma medida drástica com graves efeitos para a economia, sem contar os aspectos sociais e psicológicos envolvidos. A gripe suína segue a gripe aviária, ocorrida em 2007, e a Sars (síndrome respiratória aguda grave), em 2003. Em vista da frequência dessas pandemias e do crescimento da população urbana, cabe perguntar qual o papel dos planejadores para minimizar, ou pelo menos controlar, a transmissão entre as pessoas em sistemas de transporte lotados, edifícios dependentes de climatização, salas de aula abafadas e outros lugares de aglomeração de pessoas
Ronald Lima de Góis, arquiteto especializado em projetos hospitalares
Entendo que o problema é mais amplo e passa necessariamente por uma reforma urbana e de hábitos culturais. No primeiro caso, adotando-se densidades mais baixas no uso do solo das cidades e na criação de parques e outros espaços livres. No segundo caso, orientando a população no sentido de evitar, ao máximo, o que parece ser uma tendência irreversível de se viver em ambientes artificiais. No caso dos transportes é urgente privilegiar o transporte coletivo e dotá-lo de condições mais humanas de uso. No caso de edifícios, usar ar-condicionado só em locais estritamente necessários como nos centros cirúrgicos de hospitais, por exemplo. O uso de ventilação e iluminação naturais deve ser um hábito a ser cultivado a partir do ensino fundamental incutindo nas crianças, desde cedo, o valor do contato com a natureza. Não esquecer também um bom serviço público de saúde com ênfase na prevenção de doenças.
Fábio Bitencourt, arquiteto especializado em arquitetura hospitalar
A história recente das preocupações e valorização do conforto humano estabeleceu condições ambientais que determinaram a artificialização das condições do ar ambiente em muitas situações.
Decorrente desta introdução dos sistemas artificiais de climatização surgiu um problema para as edificações, definido como a Síndrome do Edifício Doente e que utiliza a sigla SBS (do termo inglês Syndrome of Building Sick). As tubulações, dutos de passagem do ar, os sistema de filtragens e o baixo controle sobre os filtros e demais componentes facilitaram a proliferação de microrganismos patogênicos em escala que compromete a qualidade do ar interior. Aos arquitetos e demais profissionais responsáveis pelo planejamento das edificações - especialmente aquelas onde convivem coletividades humanas - as preocupações com a qualidade do ar devem estar em destaque. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) uma das maiores preocupações para o século 21 seria a ameaça das doenças respiratórias. As patologias decorrentes da convivência e do fortalecimento das bactérias, vírus e microrganismos transmissores de doenças poderiam provocar epidemias e pandemias que funcionariam como facilitadores para abranger grandes regiões do mundo. E os ambientes seriam os grandes vetores para tais disseminações. Percebemos que as recentes situações com a Síndrome da Insuficiência Respiratória Aguda (SARS) e com a Gripe Suína (Influenza A H1N1) evidenciam a preocupação que os planejadores de ambientes devem ter: a responsabilidade pela qualidade de vida e pela qualidade do ar nos ambientes.
Domingos Fiorentini, arquiteto especializado em biossegurança e médico
O AH1N1, assim como os demais vírus mencionados, são microrganismos para os quais a comunidade não tem defesa imunológica natural ou por imunização, ou seja, por meio de vacinação. Dessa forma, a ação dos planejadores se restringe, no caso dos vírus emergentes citados no texto, em medidas preventivas, como: 1) orientar a população, em caso de sintomas, a comunicar ao serviço de vigilância sanitária ou serviço médico mais próximo; 2) segregar os suspeitos e as pessoas de seu convívio; 3) tratar os contaminados em instalações apropriadas; 4) ter barreiras em portos, aeroportos e outras entradas de pessoas que estiverem em região de risco. É claro que ao arquiteto cabe projetar edifícios sadios no que se refere à iluminação, ventilação e sistemas de ar-condicionado. Mas essas condições não evitam a disseminação desses microrganismos em questão, pois são insuficientes para evitar as epidemias: a transmissão homem a homem se dá pelo contato direto (espirros, gotículas de saliva, abraços, beijo e falta de higienização das mãos), além da permanência em ambientes fechados na presença de portadores. Vale dizer que o governo tem tomado as medidas possíveis e necessárias até o momento, verificando os focos, evitando sua disseminação e investindo em laboratórios especializados como os NB3, que são voltados ao diagnóstico, pesquisa e produção de vacinas.
João Carlos Bross, arquiteto especializado em projetos de edifícios voltados para a saúde
Epidemiologicamente, o que favorece as endemias em centros urbanos é a intersecção entre um grande número de pessoas potencialmente "contamináveis", dentro do que caracteriza o urbano, e os fatores específicos de cada patologia. Dentro desses três fatores os planejadores são capazes de agir de forma preventiva na urbanidade, cuidando eficazmente da educação e saúde, tanto quanto do abastecimento de água e saneamento, e da estruturação dos sistemas de transporte. Em uma análise mais abrangente essas medidas são compatíveis e sinérgicas com toda a nova postura de sustentabilidade. Devemos lembrar que medidas a posteriori sempre serão paliativas, não resolutivas.