No século 19, a produção de charque era a principal atividade econômica do Rio Grande do Sul. Foi em função disso, e do espírito empreendedor do Visconde Ribeiro de Magalhães, que nasceu, em 1897, a Vila Santa Thereza, um aglomerado urbano no município de Bagé, RS, próximo à fronteira com o Uruguai. Implantadas ao longo de uma antiga ferrovia, as construções históricas que compunham a vila estavam se deteriorando até 2003, ano em que se iniciou o processo de restauração. Autor do plano geral para o sítio, o arquiteto gaúcho Flávio Kiefer fez do eixo da antiga linha férrea o elemento estruturador do projeto, a partir do qual se desenvolvem espaços de passeio e de convivência.
A faixa, que correspondia ao eixo ferroviário, foi ocupada por um calçadão que configura um passeio público. Ali, foram plantadas palmeiras provenientes do próprio local. "A transformação do calçadão em praça, em frente à capela e ao teatro, é uma interpretação de como a antiga vila poderia funcionar", explica Kiefer. A praça que estabelece a nova centralidade da vila é delimitada, de um lado, pelas edificações antigas e, do outro, por um muro de arrimo.
Restritos a pedestres, o calçadão e a praça foram pavimentados com placas de cimento pré-moldado e pedriscos brancos. Um belvedere assinala o início do percurso que se estende até a antiga e pequena estação, percorrendo o museu, o novo teatro, a capela e as casas dispostas em fita, onde residiam os antigos operários da indústria de carne. "A conquista das casas foi um avanço importante e cabe à prefeitura o mérito dessa iniciativa", acrescenta o arquiteto. Kiefer explica que parte das residências ainda é habitada, e que a permanência da população ali está garantida.
Viabilizado pelos recursos obtidos com a Lei de Incentivo à Cultura e a Lei Rouanet , o processo de revitalização da vila teve início com o restauro da capela Santa Thereza D'Ávila, construída em 1906. As paredes e o relógio foram restaurados de acordo com o projeto original. Parte do piso de ladrilho hidráulico foi aproveitado e o restante, reconstituído.
Kiefer conta que a reconstrução da cobertura e do forro já estava concluída antes dele começar a trabalhar no projeto. "Infelizmente, o trabalho de restauro não pôde ser muito ortodoxo, devido à falta de recursos e ao fato de as obras de recuperação terem começado antes mesmo de qualquer projeto", justifica.
Um dos destaques da capela são as telas do artista plástico bajeense Glênio Bianchetti, feitas especialmente para o santuário. Já a artista Teresa Poester, também nascida na cidade, foi responsável pela criação do painel que cobre parte do muro de arrimo. Construído com pedras calcárias da região, o muro demarca a praça e cria uma espécie de platô artificial onde se prevê a realização de atividades culturais ao ar livre. Sob o platô ou, mais especificamente, atrás do muro de arrimo, foram implantados os banheiros públicos.
A recuperação da memória arquitetônica do lugar era apenas um dos objetivos do projeto, que também contemplava obras novas. Além do muro de arrimo, a vila incorporou o Teatro Santo Antônio - uma edificação de linguagem arquitetônica atual e contemporânea, erguida sobre as fundações do antigo teatro da Vila Santa Thereza, construção do início do século 20 que estava em ruínas. "Busquei criar um novo edifício que se harmonizasse com o conjunto histórico", diz Kiefer.
O novo teatro é composto por dois volumes. Um deles é a cobertura, na forma de uma mesa metálica cujas pernas se apoiam nos vértices da antiga construção. O elemento, desvinculado e solto do bloco inferior, faz uma referência à volumetria do teatro antigo. "A ideia de uma grande mesa metálica trouxe o sombreamento e permitiu o desenvolvimento de um projeto livre para responder a um programa de necessidades contemporâneo", complementa o autor do projeto. Kiefer acrescenta que as cadeiras de madeira do auditório, reaproveitadas de um antigo cinema de Bagé, trouxeram grande economia para a obra.
O teatro está localizado entre a capela e o Museu Santa Thereza, implantado em duas casas geminadas que, antigamente, serviam de moradia para funcionários da charqueada. Além da documentação histórica, o local abriga salas de exposições e um café. Outro ponto que testemunha a história da antiga vila são as ruínas do casarão do Visconde Ribeiro de Magalhães que, apesar de estar um pouco distante do centro histórico, pode ser vista desde o belvedere, à noite. "Trabalhamos para estabilizar as ruínas e valorizá-las por meio de um jogo de luzes que permitem sua observação à distância", finaliza Kiefer.
Além das obras restauradas e construídas, o plano desenvolvido por Kiefer contempla ainda a execução futura de um shopping center e de uma arquibancada.
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