DEBATE
Conforto acústico: um luxo para poucos
Em debate organizado pela redação de AU, arquitetos, consultores e fornecedores são unânimes: apesar de muito usado na arquitetura corporativa, forro acústico ainda é entendido como um gasto
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| 1) Claudia Andrade Azevedo, arquiteta 2) Marcelo Pedrosa, coordenador do departamento técnico da Lafarge Gypsum 3) Valeria Eiras, arquiteta do departamento técnico Knauf do Brasil 4) Fábio Miceli Teixeira, diretor comercial MF/Knauf do Brasil 5) Helio Fernandes, arquiteto da Placo do Brasil 6) Schaia Akkerman, engenheiro e consultor da Acústica Engenharia 7) Vânia Bien, arquiteta promotora t |
Vocês, arquitetos e consultores, sentem alguma dificuldade na especificação do forro acústico?
CLAUDIA ANDRADE Ainda falta conhecimento por parte do arquiteto sobre a importância do forro. Não é só especificar um forro acústico, mas que tipo de forro. Ele precisa entender isso. Felizmente, a indústria tem uma vasta gama de informações e se o arquiteto souber o que realmente precisa, a indústria vai lhe fornecer a informação. O mercado de forro é bastante regulado, o que auxilia muito o nosso trabalho - ao contrário de outros segmentos de materiais de acabamento, que precisamos ir atrás de informações técnicas e laudos de desempenho que nem sempre existem.
SCHAIA AKKERMAN Mas muitos representantes dos fabricantes não estão preparados para o contato técnico. Não é raro solicitarmos um laudo técnico aos representantes que nos procuram, e eles dizerem que têm, mas não vêm preparados para aquele encontro. Eles vão para pegar informações sobre obras do escritório e levar para chefia. É um atrativo para o chefe dele. Mas não é isso que interessa. Os fabricantes precisam se conscientizar de que quem vai dialogar com o técnico tem de estar melhor preparado. Inclusive porque o forro atua no conjunto da solução ambiental.
Quando o forro acústico passou a ter importância no projeto?
PASCOAL GUGLIELMI No Brasil, há 20 anos, não havia a preocupação com a acústica, não tínhamos produtos que chegassem ao nível dos que existiam lá fora. Quando se falava em acústica era específico para auditórios, salas de som, de música. Para o edifício comercial, o conforto acústico passou a ter importância há uns 15 anos, graças às informações trazidas pela indústria, com produtos trazidos de fora e muita palestra. Agora, o forro acústico já é um produto bem estabelecido no Brasil, principalmente em São Paulo, mas ainda direcionado para edifícios corporativos.
ANDRADE No início da década de 1990, as empresas tiveram de se adequar à NR 17, que trata da ergonomia do ambiente de trabalho, atendendo os requerimentos acústicos, térmicos e de conforto ambiental. A indústria de forro acústico veio ao Brasil nessa época porque percebeu uma demanda. A mudança na forma de realizar as atividades no escritório coincidiu com a abertura de mercado e com o processo de terceirização, fazendo surgir um mercado significativo para as empresas de forro. Até então tínhamos o forro de gesso, o forro metálico e os forros-pacote. Só tínhamos duas modulações.
Existe o forro ideal?
ANDRADE Não existe forro ruim ou forro bom. Existe o forro que pode ser especificado de forma incorreta. Também existem forros que custam mais caro do que o orçamento do cliente permite. A responsabilidade do arquiteto é conseguir dentro do orçamento a melhor especificação. Temos de pensar quais são as características dos edifícios. Hoje, por exemplo, os edifícios de escritório são todos de vidro com duas grandes superfícies: o piso e o teto. Superfícies que devemos ter muito mais cuidado na hora da especificar, porque terão o desempenho acústico importante para o ambiente de trabalho.
AKKERMAN O forro não age sozinho. Tem a parede, o piso, as áreas vizinhas, o tipo de instalação, os outros aspectos técnicos, os aspectos decorativos, resultados de ensaios. Há soluções fora do conceito tradicional de forro, a de um plano paralelo ao piso. Para existir um diálogo entre o representante, o arquiteto, o escritório de engenharia e o de construção, a técnica, a estética e o comercial precisam estar muito ligados.
Mas a especificação é respeitada na hora da compra?
AKKERMAN O comprador não está preparado para fazer uma compra técnica. Para não perder o emprego, tem de mostrar para o chefe que conseguiu uma redução de tanto por cento no custo do forro. Mas ele não sabe o que tem em volta de uma compra técnica. Essa seria uma etapa a ser vencida: fazer com que ele entenda que o forro não é só pura e simplesmente um plano paralelo ao piso.
ANDRADE Muitas vezes o cliente não entende a consequência da especificação errada. O arquiteto especifica um produto com uma característica e quem vai comprar acaba adquirindo um mais barato, fora da especificação. Ele não entende que vai ter um impacto direto no desempenho das pessoas que trabalham naquele ambiente e no retorno do negócio. O mercado ainda precisa demonstrar com dados factíveis o quanto o cliente perde achando que tudo é a mesma coisa.
SILVA Muitas vezes, o comprador só está focado na informação de que o forro é acústico. E para ele já está bom.
GUGLIELMI A questão do comprador é uma das mais frustrantes que enfrentamos. Vemos projetos feitos com toda a preocupação para gerar um ambiente adequado àquela edificação, e de repente nos deparamos com alguém que vai simplesmente desconsiderar o trabalho de profissionais especializados e optar por um produto mais barato. Procuramos municiar o mercado com produtos e informações para atender essas várias necessidades, e de repente vai por água abaixo.
HELIO FERNANDES Realmente, vivenciamos muito isso.
ANDRADE Eu especifico o produto corretamente de acordo com os subsídios e os parâmetros técnicos de desempenho que a indústria me forneceu. Isso vai para a empresa que depois faz uma concorrência de obra, e quem compra o produto muitas vezes é o empreiteiro que está preocupado em garantir o lucro dele, dentro de um orçamento que já é apertado. Ele não vai procurar o departamento técnico da indústria, mas os representantes dessa indústria, que têm o único comprometimento com o lucro. O empreiteiro liga para a loja do amigo dele e pede o forro acústico baratinho, com determinado coeficiente de absorção acústica. Quem vai fiscalizar a obra não sabe ver a diferença. Pode até ver que não é o mesmo produto, mas tem o mesmo coeficiente especificado, é acústico, então está ótimo.
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