Publicidade
 
Login:   Senha:   OK
 
 
 
   
Materiais de projeto


Edson Mahfuz fala sobre as fachadas contemporâneas
POR EDSON MAHFUZ


Manuel Cerda
Diener & Diener, Edifício Novartis, Basiléia. Distribuição aleatória de painéis coloridos cria enorme ruído visual sem estabelecer qualquer relação com os espaços que delimita
Enquanto nas suas primeiras aparições os brise-soleil são uma espécie de projeção a partir da superfície de vidro, na arquitetura tardia de Le Corbusier − especialmente nos projetos feitos na Índia e em Brasília − eles ganham independência e se tornam muros perfurados, o que "restabelece o espaço de transição entre interior e exterior que foi perdido quando a parede sólida foi destruída e substituída por uma pele impenetrável e 'sem dimensões'".

Toda essa preocupação com o conforto ambiental não foi suficiente para os críticos que nos anos 70 e 80 insistiram em confundir os seus leitores ao não distinguir a verdadeira arquitetura moderna da sua aplicação comercial depurada dos seus melhores valores, essa sim responsável pela proliferação de "estufas" pelo mundo.

Na esteira dessas críticas, vários arquitetos associados ao chamado "pós-modernismo" censuraram a arquitetura moderna por sua suposta "falta de comunicação"; os anos 1970 foram pródigos em comentários sobre a perda da capacidade representativa da arquitetura moderna. No entanto, não houve exatamente perda daquela capacidade senão uma mudança do que era representado. Enquanto os edifícios pré-modernos se referiam a temas políticos, religiosos e culturais por meio da ornamentação aplicada, sua contrapartida no século 20 aludia a componentes do programa ou punha em evidência o sistema construtivo − na arquitetura de Mies van der Rohe o que se vê é muito mais uma representação da estrutura como sistema visual do que os elementos estruturais propriamente ditos.

Reprodução de www.flickr.com_photos_mymapofjapan_1
Herzog & de Meuron, Loja Prada, Tóquio. Fachada como superfície contínua e indiferenciada que assume parte da função estrutural
Um dos remédios para esse mal, proposto por Robert Venturi, consistia na desvinculação entre a fachada e o corpo dos edifícios: o corpo resolveria a função enquanto a fachada seria dedicada ao aspecto simbólico da edificação, abrindo a porta a uma infinidade de obras caricatas e sem nenhuma relevância, na maioria dos casos utilizando elementos históricos fora de contexto em nome de uma suposta relação com a tradição.

O tema da representatividade da fachada nunca se esgota, apenas muda de foco. Se, por um lado, o "pós-modernismo" se caracterizou pela busca de recuperação da representatividade literal da fachada, o que resultou numa produção marcada por pastiches e paródias, por outro lado, em vez de retornar ao ornamento tridimensional aplicado, houve quem tirasse partido dos avanços da tecnologia do vidro, imprimindo por serigrafia imagens associadas ao programa sobre as fachadas, numa atualização da "arquitetura falante" de tempos passados.

Além da alusão ao que passa no interior de um edifício por meio da associação de imagens (prática herdada da arquitetura clássica), ao longo do século 20 alguns pretenderam que as fachadas, por meio da sua configuração geométrica e volumétrica, fossem reveladoras do interior, como se fossem uma espécie de raio X arquitetônico. Nunca o foram, a não ser em poucos casos de menor importância.

Reprodução de www.flickr.com/photos/caprilemon/316
Louis Kahn, Centro de Estudos Britânicos, New Haven, Estados Unidos. A estrutura formal/espacial do objeto é revelada na fachada
No entanto, isso não implica a independência total entre fachada e interior, como se tem visto muitas vezes em casos que reduzem esse elemento fundamental a um mero veículo de efeitos visuais a serviço da sociedade do espetáculo. Isso sugere alguns temas importantes e recorrentes na prática de projetos: em que grau a fachada constitui um meio de comunicação de mensagens não-arquitetônicas? Qual o grau de independência da fachada em relação ao que acontece no interior do edifício? E em relação à sua própria sustentação, será válido omiti-la, como é comum em muito da arquitetura "depilada" dos dias de hoje, que não fornece nenhuma evidência da sua construção?

O que de melhor tem sido produzido na arquitetura contemporânea continua sem pretender que fachada seja um raio X do interior, mas tampouco a trata como um elemento independente do ponto de vista da concepção. As fachadas mais bem-sucedidas derivam sua configuração geral da constituição do organismo que limitam: seus componentes revelam o ritmo da estrutura resistente, o grão da estrutura espacial, a maior ou menor necessidade de proteção, etc., sem ser uma consequê­ncia direta deles.

Helio Piñon
Helio Piñón, estudos para fachada de um edifício residencial, Neuquen, Argentina
Passado o interlúdio pós-modernista, no qual o foco da discussão era exclusivamente a aparência dos edifícios, pode-se dizer que nas últimas três décadas a discussão se ampliou, indo bem além da questão comunicativa ou representativa. Um dos desenvolvimentos mais interessantes e relevantes é fruto do interesse nos modos como as fachadas exercem o seu papel de reguladoras do conforto ambiental do interior. Como consequência, ao menos em países mais desenvolvidos - e também naqueles projetos realizados aqui dispondo de orçamento adequado - já quase não se vê projetos cuja fachada seja constituída de uma única parede de alvenaria com aberturas ou de uma curtain wall básica.

Impulsionados por uma preocupação generalizada com a habitabilidade e a sustentabilidade, os arquitetos passaram a criar fachadas mais complexas, compostas de várias camadas e utilizando os mais variados materiais em combinação. A partir daí, a aparência das fachadas e, consequentemente, do edifício, passa a ser em grande parte determinada pelo modo como é obtido o sombreamento, a ventilação e o isolamento do espaço interior.

Manuel Cerda
Peter Zumthor, Galeria de Arte, Bregenz, Áustria. Vidro opaco como material de revestimento
Parece estar se generalizando a consciência de que uma fachada, para ser eficiente do ponto de vista ambiental e energético, apenas em raras ocasiões poderá utilizar um único material e resumir-se a uma única camada. Essa nova fachada não implica o uso de materiais sofisticados, pois até mesmo com o velho tijolo se podem obter resultados satisfatórios, mas para funcionar deverá apresentar três componentes genéricos básicos: uma camada interna, uma câmara de ar e uma camada externa. A partir dessa definição as possibilidades são infinitas. A camada interna pode ser de qualquer material, mais aberta ou mais fechada, e pode ter sobre ela uma camada isolante agregada, dependendo da sua localização geográfica; a câmara de ar pode ser mínima ou até constituir um espaço habitável, como uma sacada, por exemplo; a camada externa, normalmente responsável pela proteção das demais, costuma incorporar elementos móveis.

Reprodução de Deados 4, 2008, Colegio Oficial de A
Francisco Mangado, edifício de escritórios Gamesa Eólica, Sarriguren, Espanha. Uma fachada dupla de vidro em que o conforto térmico é obtido pela ventilação da câmara e pela presença de persianas no seu interior
Os desenvolvimentos recentes em relação ao tema da fachada levantam questões interessantes para discussão. Uma é o fato de que a fachada de vidro - tão vilipendiada até há pouco tempo - volta a ser uma característica recorrente dos edifícios contemporâneos. O sonho do edifício de vidro dos primeiros modernos é, enfim, possível, agora sem os terríveis problemas ambientais que acarretava no início. Isso não significa dizer que a transparência total é enfim possível: as múltiplas camadas e os sistemas de fixação tornam esse sonho improvável. Sendo assim, o vidro é hoje muito mais um material de revestimento e vedação, embora conservando parte da sua transparência característica, do que o elemento que proporciona a integração total entre interior e exterior.

Outra questão, talvez a mais importante, é a da pertinência. Mesmo com todos os avanços da tecnologia não há o que garanta um grau mínimo de adequação do que é construído. Como as fachadas fazem parte dos edifícios, sua independência se limita ao suporte de cargas verticais e a pertinência da sua definição estará sempre ligada à pertinência da concepção geral do edifício.

Edson Mahfuz é arquiteto formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-graduado pela Architectural Association de Londres e doutor em arquitetura pela Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos. É professor titular do departamento de arquitetura da UFRGS.

PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2

FÓRUM FATO & OPINIÃO Lista de Fóruns Enviar Tema
Lucas Mutti C. A. de Santana [22/07/2009 17:59]Mensagem imprópria? Clique aqui

Show de bola!
Lucas Mutti C. A. de Santana [22/07/2009 17:58]Mensagem imprópria? Clique aqui

Legal.
 
Para participar do FÓRUM você deve estar logado no Portal PINI
Usuário: Se você não é cadastrado, clique aqui!
Senha: Esqueci minha senha

  O fórum da aU é um espaço livre para que nossos leitores debatam idéias. Use-o de forma adequada. Mensagens ofensivas, impróprias ou que contenham palavras de baixo calão serão excluídas. Seus comentário serão exibidos juntamente com o nome de seu cadastro no portal Pini.  

 
   
 
 
Publicidade


Relacionados
 

aU - Arquitetura e Urbanismo :: Fóruns :: ed 214 - Janeiro 2012
Brasília deve continuar tombada?

PINIweb :: 07/02/12
Casa Bandeirista é restaurada em São Paulo

PINIweb :: 06/02/12
Comissão da Unesco vai reavaliar tombamento de Brasília

PINIweb :: 06/02/12
IAB-SP se manifesta sobre desocupação da favela do Pinheirinho, em São José dos Campos

 
 
digital aU
 
 
 
     
 
Notícias  
 

07/02/2012
Expo Revestir 2012 acontece de 6 a 9 de março em São Paulo

07/02/2012
Casa Bandeirista é restaurada em São Paulo

07/02/2012
Contrato de construção do monotrilho de Manaus é assinado

06/02/2012
Comissão da Unesco vai reavaliar tombamento de Brasília

 
 
lojaPini
OK
 
TAGs
Entender TAG
ABNT Aeroportos ANAC Concreto Concurso CONFEA construcao Copa do Mundo de 2014 Dersa Emprego Estrutura FGV Licitação Norma de Desempenho PLANEJAMENTO Rio de Janeiro São Paulo Secovi-SP SindusCon-SP TCU
 
 
Guia da Construção
 
 
 
 
piniweb Copyright © 2011 - Editora PINI Ltda. Todos os direitos reservados.
   
  OK
 
 
sites Pini  
     
   
  aU - Arquitetura e Urbanismo
Casa | Brasil | Internacional | Entrevista | Interseção | Crônicas Agudas | Exercício Profissional | Interiores
  NOTICIÁRIO
Tecnologia e Materiais|Custos|Exercício Profissional |Mercado Imobiliário|Gestão|Arquitetura|Urbanismo|Sustentabilidade|Habitação|Infraestrutura|Legislação|Nordeste
  REVISTAS
Construção Mercado | Guia da Construção | aU - Arquitetura e Urbanismo | Téchne | Equipe de Obra | Infraestrutura Urbana | aU em Rede | Anuário PINI 2011
  LIVROS | TCPO | SOFTWARE
  GUIA DA CONSTRUÇÃO
Anuário PINI | Preços Pesquisados | Índices e Custos | Atualização Monetária | Como Especificar
  PINIempregos
Meu Currículo | Cadastrar Currículo | Buscar Vagas | Cadastrar Vagas | Buscar Currículo | Empresas | Benefícios
  CONTATO
Fale Conosco | Cadastre-se | Suporte de Software | Representantes | FAQ Portal | Anuncie
   
 
 
Gerenciamento de Conteúdo/CMS - ContentStuff.com
 
Construção & Mercado Arquitetura & Urbanismo Téchne Equipe de Obra