O Sesc (Serviço Social do Comércio) possui desde 1948 um centro de férias que hoje soma 1 milhão de m2 em Bertioga, litoral de São Paulo. Depois de uma série de alterações sem continuidade urbanística ou de projeto, a diretoria do Sesc implanta desde 1999 diretrizes de um plano diretor elaborado pelas arquitetas Rita de Cassia Alves Vaz e Christina de Castro Mello, do escritório Teuba Arquitetura e Urbanismo. "Fomos chamadas para organizar os espaços dentro de uma nova política de valorização da formação do cidadão e de fomento à cultura e lazer", explica Christina.
Faz parte do plano diretor a reforma gradual dos blocos de hospedagem para fortalecer a vocação de parque de lazer, inserido em uma área de preservação ambiental. "Sempre tivemos preocupação com as questões hoje tratadas como sustentáveis, e neste projeto estivemos atentos em todos os detalhes, desde a implantação até a escolha das instalações", explica Christina. No plano também já tinha sido prevista a reforma das casas, que serão transformadas em unifamiliares (hoje cada casa abriga até duas famílias), assim como a ampliação das áreas de parque, de jardins e dos caminhos para pedestres e praças de estar, em detrimento de vias de circulação de veículos.
Dos 12 conjuntos de habitação que serão reformados, dois já foram reconstruídos, com obras finalizadas em março de 2009. Como a reforma seria dispendiosa, optou-se pela demolição dos antigos e construção de novos. Os antigos pavilhões possuem uma tipologia semelhante à dos sanatórios, com um corredor central que divide quartos com beliches e banheiros. O novo projeto suprimiu o corredor central e abriu os apartamentos ao entorno verde. Mas mantém a tipologia de volumes térreos com telhados de barro, grandes planos de cobertura que flutuam sobre o jardim.
"Buscamos recuperar tradições da casa do caiçara e da arquitetura brasileira como as varandas com telha vã, janelas conversadeiras, chão de pedra", explica Christina. De fato, os novos pavilhões dispõem-se sobre uma laje de concreto e têm estrutura convencional de concreto, paredes de alvenaria e cobertura de telhas, que remete ao simples da arquitetura vernacular.
Cada conjunto de 24 apartamentos divide-se em dois blocos longitudinais de 12 unidades, seis de cada lado, interligados por uma área central de estar, coberta, onde estão ambientes de apoio aos hóspedes e de apoio aos serviços de hospedagem (rouparia, depósito, sanitário de funcionários, acesso ao piso técnico e quadros de comando das instalações).
O acesso às unidades é feito por uma varanda privativa que se abre nas fachadas laterais, de maneira a criar áreas de sombra e ar fresco. A circulação externa é coberta pelo beiral e limitada por jardins. A transparência e a fluidez dos espaços integram ambientes internos e externos, com a clara intenção de provocar a experiência do estar junto à natureza, em contraponto ao viver urbano das cidades. Na entrada de cada unidade uma parede de elementos vazados protege um tanque-pia de concreto.
Portas de correr de PVC com beiral baixo, antigas conversadeiras, voltam-se para redes nos espaços das varandas: a ideia é de descanso e total transparência. O revestimento externo apresenta cores que diferenciam as unidades, e permite pouca manutenção anual. Os quartos têm revestimento de piso em arenito Paraná, que está também na divisória e na pia dos banheiros. Paredes com meia-altura são revestidas de madeira, por onde saltam leds de iluminação direcionados. O espaço culmina em um teto inclinado, diferente do tradicional espaço cúbico comum em quartos de hotel, que contribui para um sistema de ventilação cruzada, com entrada de ar fresco pelas aberturas baixas das "janelas conversadeiras" e a saída do ar quente por aberturas superiores protegidas por ripado de madeira. Esse sistema proporciona um efeito chaminé que promove renovação de ar mesmo em dias de calmaria.
Preocupações com a sustentabilidade, com redução de gastos energéticos e com manutenção estão presentes em todos os detalhes do projeto. No eixo central longitudinal do volume, os banheiros se justapõem criando uma linha onde se concentram todas as instalações hidráulicas e sobre a qual foi criado um piso técnico que recebe as redes de distribuição e facilita a manutenção e modernização de equipamentos. Uma providencial cobertura de vidro permite a iluminação natural do banheiro e cria a necessária diferença de temperatura que faz o ar circular sem qualquer recurso mecânico. O espaço recebe ainda ventilação pelas aberturas dos elementos vazados do piso técnico, que auxiliam a retirada do ar dos apartamentos. O aquecimento da água é feito por placas solares instaladas acima do piso técnico.
Todo o mobiliário das unidades foi projetado pelo escritório. Os móveis possuem rodízios que facilitam a limpeza do piso e a montagem de diferentes arranjos. Foram confeccionados com ripado de madeira de reflorestamento, retomando a tradição construtiva do mobiliário do sertão e do litoral brasileiro.
O reservatório elevado de água construído para abastecer as novas unidades transformou-se em um mirante que completa o conjunto. O volume é um prisma triangular composto por três planos verticais de alvenaria com os vértices do triângulo abertos, rasgados para a paisagem. À medida que se sobe em direção ao topo é possível avistar ora o mar, ora a montanha, em uma leitura dinâmica da paisagem. No topo, um cálice em forma de pipa cobre o mirante para que o usuário possa desfrutar da paisagem ao abrigo do sol e da chuva. "É uma referência ao mirante existente na piscina do Sesc Bertioga, projeto do arquiteto Renato Nunes", conclui.
HISTÓRICO
Logo após a criação do Sesc, em 1947, o traçado urbanístico da Colônia de Férias de Bertioga foi encomendado ao engenheiro Prestes Maia. A colônia entrou em funcionamento com equipamentos essenciais em outubro de 1948, com 27 casas pré-fabricadas dispostas em semicírculo, e um pavilhão central destinado à instalação provisória de uma área para jogos, bar e restaurante, abrigando em torno de 150 hóspedes. Na época era inovador introduzir no dia-a-dia do comerciário tempo destinado ao lazer e ao descanso.
Ao longo dos anos, com o aumento de público e com as mudanças de costumes, foram feitas reformas e ampliações, acrescentando-se instalações com projetos de arquitetos como Candido Malta Campos Filho e Siegbert Zanettini (conjunto social); Ícaro de Castro Mello, Alfredo Paesani, Teru Tamaki (conjunto esportivo) e Cunha Carril (conjunto administrativo) e Botti Rubin (conjunto aquático).
Hoje o Centro de Férias Sesc Bertioga é um dos maiores do País, com capacidade para hospedar até mil pessoas, e com uma extensa área preservada. Da área total de 1 milhão de m2, somente 39 mil m2 correspondem à área construída. Conta com 50 casas (para grupos de oito a 12 pessoas) e 12 conjuntos de apartamentos (para duas a cinco pessoas).
CAIÇARA* ACCENT
Since 1999, Sesc, a private sector social service organization, implements the guidelines of a master plan elaborated by architects Rita de Cassia Alves Vaz and Christina de Castro Mello, who comprise Teuba Arquitetura e Urbanismo. It is part of the plan to refurbish the lodging blocks so as to strengthen the leisure park image, inserted in an environmental preservation area. Of the twelve lodging complexes to be refurbished, two have already been rebuilt. The new project opened the apartments onto the greenery, but kept the typology of ground floor volumes with ceramic shingle roofs. Each 24-apartment complex is divided into two longitudinal 12-apartment blocks, six on each side, interconnected by a central living area. The apartments have a sloped ceiling which contributes to a natural air circulation system, with the fresh air entering through the lower openings of the windows and the hot air exiting through the top openings protected by wooden lattice-work. This system provides a chimney effect which fosters air renewal even on windless days. All the furniture in the units was designed by the architects'' practice. The tall water reservoir built to feed the new units became a belvedere which completes the project.
*Caiçara is how the native people from the southeast beaches of Brazil are often called