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Exercício Profissional


Para crescer na crise
POR IAGO BOLIVAR


Há controvérsia sobre a veracidade do velho clichê motivacional de que crise, em chinês, significa também oportunidade. Mas a verdade é que às vezes, crise significa crise mesmo, em português bem claro: diminuição de negócios, menor fluxo de dinheiro, menos encomendas e mais angústia em relação ao futuro. No momento em que os sinais de possível recuperação da economia brasileira coincidem com a divulgação dos dados negativos dos últimos meses, os profissionais de arquitetura medem com cuidado os passos, tentando manter as estratégias de crescimento e se preparar para a esperada retomada do ritmo de negócios.

"Se você não continuar investindo não estará preparado para o próximo momento de reação", diz o professor Silvio Aparecido dos Santos, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). "Se o foco estiver realmente apenas em corte de investimento, enxugar totalmente os custos, não há como deixar a equipe pronta para o momento da arrancada." Coordenador do GPEADE (Grupo de Pesquisa em Administração Avançada e Empreendedorismo), Santos diz que a crise afeta de modo diferente os profissionais cujo trabalho está inserido em negócios em fases distintas de estruturação empresarial. Comum na arquitetura, a diferença entre o profissional que trabalha como autônomo e o que está inserido em uma empresa com unidades de negócios definidas e separadas pode apontar caminhos para resistir à turbulência - e até tentar crescer em meio a ela.

"O profissional que trabalha como pessoa física vai procurar aprimorar métodos de controle, os escritórios mais famosos vão se preocupar em atrair projetos que agreguem mais valor, que alavanquem a imagem deles no mercado, que valorizem o trabalho deles servindo de vitrine", diz o especialista em empreendedorismo. Para Santos, a crise pode ser o empurrão que falta rumo a uma postura de maior organização do negócio em si e de planejamento para o futuro.

A arquiteta paulista Mariana Cecchin conta que já passou por fases de adaptação e evolução em meio a crises anteriores que a levaram a mudar a forma de administrar sua carreira e, depois, sua empresa. Ela busca, agora, ganhar espaço durante este período de desaceleração. Formada em 1995 pela FAUUSP, ela começou a trabalhar em casa, como autônoma, em 1997, enfrentando, além das dificuldades próprias do início da vida profissional, os efeitos das crises da Ásia, da Rússia e a desvalorização do real que frearam a economia nos dois anos seguintes.

Em 2000, após resistir com uma política de preços baixos, ela se juntou a um sócio do setor de design para abrir um escritório em um centro comercial, contratou outro arquiteto e se viu em meio à divisão de atribuições, tendo de administrar a empresa, delegar tarefas e executar os serviços. O equilíbrio delicado ficou mais difícil nos anos seguintes, quando novas turbulências econômicas travaram a economia do País. Foi então que ela resolveu fazer um curso de gerenciamento de projeto, que a ajudou a organizar os processos do escritório e a dividir-se melhor entre as múltiplas tarefas.

"Isso serviu como uma baliza forte para mim em um momento complicado", diz Cecchin, em cujo escritório atualmente trabalham outros três arquitetos, além de dois profissionais de administração e suporte.

Em dezembro passado, sentindo redução em algumas das demandas, a arquiteta investiu em comunicação. Encomendou a reformulação do site da empresa, um estudo sobre a logomarca e o próprio nome do escritório. "Muitos projetos estão em andamento, alguns setores sentem mais, mas na maioria das áreas os projetos estão mantidos", avalia.

A percepção ganhou números precisos no começo deste mês. Os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que o País teve a primeira recessão técnica desde 2003, com dois trimestres seguidos de recessão. No setor da construção civil, a queda foi de 9,8% nos três primeiros meses de 2009 em relação ao alto patamar do período entre janeiro e março do ano passado. Analistas em geral, e o governo federal com mais ênfase, dizem que possivelmente a reação já teve início.

Fiel à visão de que o escritório de arquitetura tem um comportamento que define como orgânico, com o ritmo ditado pelas demandas do mercado e pelos contatos feitos naturalmente ao longo da carreira, o arquiteto Miguel Vigil diz que mesmo nos momentos considerados mais agudos da atual crise sentiu os efeitos de forma branda em sua experiência concreta de profissional liberal. "Vi que escritórios maiores sentiram o problema lá fora, ficaram com medo e demitiram pela expectativa do problema", conta Vigil, para quem o principal efeito foi uma "freada" nas obras de um de seus clientes, uma rede de lojas. Mas ele conta que há dois meses o ritmo voltou ao planejado, e que mesmo o movimento em algumas das empresas de arquitetura maiores passou a ser o de reabsorver profissionais.

Para Vigil, o caminho do crescimento em meio à crise passa pela colaboração. "O arquiteto tem às vezes de deixar o ego, a rivalidade, a vaidade da criação para trocar experiência", diz, explicando que um de seus principais clientes atuais era atendido por um amigo arquiteto que fez a ponte para que os dois, atualmente, prestem serviços casados. Defensor de um planejamento estruturado dos negócios, o professor Silvio Aparecido dos Santos concorda que, em um momento de dinheiro mais escasso, uma forma de investimento é a parceria, em que o capital investido é a rede de contatos, a confiança e a capacidade - principalmente nos casos de competências complementares - dos profissionais e das empresas.

"A ideia é apresentar não um produto, um serviço, mas uma solução, e nesse sentido a parceria, a oferta de um projeto completo faz a diferença", defende o especialista. Ele diz que a "rede de valor agregado" não depende necessariamente de uma fusão formal, de algum tipo de sociedade, mas é uma forma de organização que pode ser aplicada para cada projeto.

Impulsionada pela escassez - apesar de ser uma regra geral - a prática pode acarretar ganhos duradouros.

Esteja pronto para crescer
n Focar em cortes de custos e de pessoal vai afastar oportunidades e impedir o crescimento quando a situação se normalizar
n Em especial, não corte investimentos pela expectativa de problemas
n Adote uma postura de maior organização do negócio e planejamento para o futuro
n Quem trabalha sozinho deve aprimorar seus métodos de controle; escritórios maiores devem procurar trabalhos que alavanquem sua imagem no mercado
n Invista em comunicação, aprimore o site da empresa, a logomarca e até o nome do escritório
n Aposte em parcerias. Aqui, o capital investido é a rede de contatos, a confiança e a capacidade dos profissionais e empresas, com a proposta de entregar ao cliente não apenas um produto, mas uma solução completa



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