Não há arquiteto que não reconheça as dificuldades e desafios inerentes à revitalização de um espaço para adequá-lo a outros usos. Ainda mais quando o espaço é uma caixa de concreto fria e insalubre destinada a receber 270 funcionários de uma das maiores siderúrgicas espanholas, a Celsa.
O encargo foi dado ao jovem arquiteto brasileiro Pedro Paes Lira, do escritório espanhol ACXT, que iniciou uma verdadeira incursão de reconhecimento ao edifício, pois o cliente não possuía nenhuma informação preliminar sobre a arquitetura, estrutura ou fundações da construção.
O volume de concreto está implantado ao lado de pátios industriais em meio a montanhas de ferro e aço, na região metropolitana de Barcelona. O local não é dos mais agradáveis e a caixa pré-existente de concreto, tampouco. Mas o cliente preferiu manter o edifício a derrubá-lo para a construção de outro.
"Pelos planos de expansão da empresa era melhor derrubar, mas como eles queriam rapidez, aproveitamos o perímetro e a estrutura da cobertura e recriamos um edifício de escritórios de cerca de 3 mil m2." Foram dez meses e 3 milhões de euros na construção que pode abrigar 270 pessoas. "Se tivéssemos construído um edifício do zero teríamos gasto em torno de 5 milhões de euros", explica.
O jeitão de bunker da construção já mostrava o desafio que Lira teria para humanizar o espaço e o tornar adequado ao trabalho e à convivência dos funcionários corporativos. O primeiro passo foi conhecer a fundo o volume, sua estrutura, fundações e instalações, para poder prever cargas extras e tipo de instalações.
Internamente foi retirado um mezanino e feita uma laje intermediária com steel deck que dividiu o volume em dois pavimentos, não sem antes liberar uma área central com pé-direito de cerca de 15 m. A segunda ação foi estabelecer núcleos e eixos de acesso. Foram definidos núcleos verticais como escadas de circulação, elevador, instalações dos banheiros e escada de segurança e acesso de entrada e circulações horizontais. A cobertura foi mantida, arrematada por uma pequena platibanda.
As placas de concreto pré-fabricado que fechavam o volume organizavam-se em duas direções, horizontal e vertical. Como a ideia principal era conseguir luz e ventilação, e ainda manter o fechamento do entorno, a solução foi retirar algumas das placas de modo a alternar membranas opacas, difusas e transparentes em um gradiente de transparência nas duas direções. "Removemos as placas de acordo com a orientação do edifício, abrimos pouco na fachada sul, de maior insolação, e mais nas norte e oeste", explica. As placas estavam fixadas na estrutura principal de concreto, que foi mantida. Após a retirada das placas, todas as fachadas foram recobertas com policarbonato celular de 40 mm, com nervuras internas, que formam câmaras de ar de 12 cm.
A luz passou a ser protagonista da arquitetura. De dia penetra nos espaços internos diretamente pelas aberturas-caixa de vidro que rompem a fachada de concreto, e indiretamente por meio do policarbonato. E de noite a caixa fechada, agora diáfana, se ilumina, e revela cores, materiais, movimento, com transparências diretas e indiretas, em um jogo cenográfico dinâmico e preciso.
Solução semelhante de fachada foi vista nas páginas da edição 162 de AU, quando o arquiteto norte-americano Steven Holl envolve a embaixada da Suíça em Washington em vidro serigrafado, ou na edição 172, quando os arquitetos equatorianos Adrian Moreno Nuñes e Maria Samaniego projetam sua própria residência e tiram partido da transparência segura do policarbonato.
O acesso principal se faz por uma linha em diagonal que corta a ortogonalidade da caixa e desemboca no vazio de pé-direito de 15 m de iluminação zenital. O espaço interno manteve-se livre, sem interferências, enquanto as mesas organizam-se de maneira contínua e sem divisórias.
As salas reservadas à formação técnica e as destinadas a reuniões são semifechadas por divisórias de vidro que não chegam ao teto, como caixinhas soltas no ambiente. Para diferenciar as estruturas novas, metálicas, das antigas, de concreto, Lira tirou partido de diferentes cores de pintura. O que era existente foi pintado de branco e as estruturas metálicas receberam tinta preta.
Complementando a dinâmica das cores, todas as circulações verticais são vermelhas. O caráter industrial manteve-se nos espaços internos nas placas de concreto deixadas à vista e no sistema de eletrificação escolhido, que foge das soluções tradicionais de escritórios e provê energia por meio de fios e cabos aparentes, que pendem do teto acima de cada mesa, e reforçam a imagem fortemente industrial do entorno de ferro.
DIAPHANOUS BUNKER
A concrete box destined to house more than 270 employees of one of the largest Spanish steel companies, Celsa, had to be transformed. The task was assigned to the Brazilian architect Pedro Paes Lira, from the Spanish ACXT office. The concrete volume is set next to industrial patios amidst mountains of iron and steel at the Barcelona metropolitan region. The location was unpleasant and so was the pre-existing concrete box, but the client preferred to keep the building to demolish it and build another. Internally, a mezzanine was removed and a steel deck intermediate slab was made, dividing the volume into two floors, also liberating a central area with some 15 m height. The pre-cast concrete plates which envelopes the volume were organized in two directions, horizontal and vertical. As the idea was to obtain lighting and air, and to still maintain the peripheral enclosure, the solution was to remove some of the plates in order to alternate opaque, diffuse and transparent membranes into a transparency gradient in two directions. The facade was thus fragmented for the creation of lighting spaces. "We opened a little at the southernmost, sunnier facade, plus at the northern and western ones", explains Mr. Lira. After removing the plates, all the facades were covered with 40 mm cellular polycarbonate, with internal nervures forming 12 cm air space.