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Crônicas Agudas

Sergio Teperman discorre sobre obras famosas e alguns de seus problemas
POR SERGIO TEPERMAN ILUSTRAÇÃO OSVALDO PAVANELLI



O título do artigo é de um cartaz na portaria do Hotel Costão do Santinho, onde a AsBEA fez uma assembleia. Daí se depreende a besteira que são essas certificações, mas o cartaz serve pelo menos para ilustrar o artigo, que é apenas uma coletânea seca de algumas obras famosas e seus pobrema.

Então curto e grosso:

1) A mais famosa: a ópera de Sydney. O maravilhoso projeto de Jørn Utzon foi resultado de um concurso com centenas de projetos. O grande Eero Saarinen chegou a Sydney dois dias após o início do julgamento, retirou o projeto do "lixo" dos descartados, eliminou os outros 26 pré-classificados e escolheu o melhor projeto do mundo, símbolo de uma cidade, de um país e de um continente. O maravilhoso projeto do dinamarquês Jørn Utzon não teve solução estrutural durante anos, até que Peter Rice, engenheiro com 23 anos de idade, trabalhando na Arup, a melhor firma de consultoria do globo, conseguiu com computadores movidos a lenha, calcular o edifício imaginando todos os elementos da cobertura como secções de uma mesma esfera e possibilitando, na década de 60, formular equações para o projeto. Só para as placas de cerâmica da cobertura foram projetadas 950 formas e dimensões diferentes. Resultado: a obra durou anos a mais do que o previsto, custou três vezes mais do que o orçamento (no Brasil seria baratíssima), o governo caiu, Utzon se retirou e nunca mais foi à Austrália, nem viu o edifício pronto.

2) Outro dinamarquês, Spreckelsen, professor na academia de Copenhagen e dono de um pequeno ateliê, ganhou o concurso Tête de la Défense com o famoso arco e suas nuvens em Paris. Não conseguiu suportar a pressão dos franceses, retirou-se do projeto e nunca mais viu a obra, nem mais nada. Simplesmente suicidou-se.

3) Ludwig Mies van der Rohe passou cinco anos projetando a Farnsworth House. Os proprietários não se incomodaram absolutamente: Mrs. Farnsworth era amante de Mies e o marido provavelmente estava satisfeito de, além de ter um belo projeto, poder se livrar das tarefas conjugais com uma americana chata. Resumo: a casa, apesar de um pouco elevada, é situada em uma baixada (local escolhido por Mies em um terreno imenso) e de tantos em tantos anos inunda totalmente.

4) Frank Gehry (nome de guerra) está sendo processado porque em um de seus museus entra água por todos os lados, menos pelas torneiras dos banheiros.

5) Santiago Calatrava, o grande arquiteto-engenheiro está sendo processado pela Municipalità di Venezia. Motivo: a ponte que projetou para a cidade, a primeira construída depois de séculos, não oferece acessibilidade para deficientes físicos. Imagino que ao final do processo Calatrava deva passar por outra ponte, a dos Suspiros e dar adeus a seus projetos (e a muitas outras coisas).

6) Outra ponte, a Millenium Bridge, projetada por Foster + Partners ao lado da histórica Torre de Londres, foi utilizada por milhares de pessoas no dia de sua inauguração. Os passos de tanta gente entraram em ressonância com a vibração da passarela e a Millenium Bridge teve de ser reforçada para evitar o sucedido com outra ponte famosa, a Tacoma Narrows Bridge, nos Estados Unidos. A Tacoma começou a vibrar e, como não se conhecia bem a questão da ressonância, a vibração transformou-se em uma violenta ondulação. Depois de algum tempo a estrutura arrebentou e caiu no rio. A única vítima foi um cachorro que também tinha faltado às aulas de física e não conhecia o fenômeno da ressonância. Em compensação, Foster and Partners projetaram a ponte com estais em Millau, uma das mais altas e espetaculares do mundo e que, segundo as últimas informações, estais de pé.

7) Outro caso feliz é o da ponte pênsil Akashi-Kyo, com pilares de 400 m de altura e situada praticamente sobre o epicentro do terremoto que destruiu Kobe. A ponte resistiu espetacularmente, mesmo não estando concluída.

8) Naturalmente, no Brasil, pela "austeridade" das obras pelo menor preço, entre outras, a ponte do lago de Brasília, a da rodovia Piaçaguera-Guarujá e a enorme ponte da Ilha do Mosqueiro, no Pará, foram construídas três vezes até ficarem de pé.

9) O centro de convenções da Gameleira, em Belo Horizonte, com projeto de Oscar Niemeyer e cálculo estrutural do famoso engenheiro e poeta Joaquim Cardozo, desabou durante a obra.

10) Os arquitetos projetistas dos estádios da olimpíada de Montreal (década de 60!) estão até hoje pagando as contas dos reforços das coberturas, que não suportaram o peso da neve!

11) O genial Sergio Bernandes não conseguiu resolver o problema das coberturas do Paço de São Cristóvão e do centro de convenções de Brasília, que hoje funcionam com um remendo estrutural que nada tem a ver com o projeto original.

12) Antoni Gaudi foi contratado para substituir o arquiteto da Sagrada Família porque a obra que já durava dois anos e estava atrasada...

13) O Amoco Building (companhia de petróleo) processou o famoso arquiteto Edward Stone em 80 milhões de dólares porque todas as pedras de granito estavam rolando (Rolling Stones) de todas as fachadas.

14) Os vidros do altíssimo John Hancock Building em Chicago, projeto de SOM, começaram a cair (o prédio tem 400 m de altura) e foi necessário interditar a praça em frente para o reparo geral (imaginem o tamanho do processo).

15) E agora uma west side story, em New York: o belíssimo edifício do City Corp com 50 andares (aquele com uma máquina do tempo na cobertura...) foi projetado com uma estrutura em cruz com enormes balanços nos quatro cantos porque a arquiteta-chefe do patrimônio histérico exigiu que se preservasse uma igrejinha, que ficou sob um dos balanços dos cantos, adequadamente chamados cantilevers. Um belo dia cinzento, o famosíssimo calculista Leslie Richardson (que projetou o World Trade Center e inúmeras torres no mundo inteiro) recebe um telefonema de um estudante que estava analisando o cálculo do prédio como trabalho de graduação e queria tirar uma dúvida sobre o efeito do vento na estrutura.

Em vez de mandar o chato "mind your business", como se faz com estudantes, o consciencioso engenheiro resolveu verificar alguns itens do cálculo. Descobriu que a construtora (sempre elas) substituiu os perfis soldados projetados para toda a estrutura do edifício por rebites. Pequenos detalhes com o prédio ocupado há anos. Richardson descobriu que a substituição limitava a resistência da estrutura ao vento a 160 km por hora, um furacão na verdade. Foi bisbilhotar nas estatísticas e sua surpresa inicial transformou-se em preocupação final. Um vendaval de 160 km/hora atinge a cidade a cada... 16 anos!!!

O jeito foi reforçar toda a estrutura sem evacuar o prédio e não avisar nenhum funcionário. A partir daí, sob extremo segredo, um batalhão de operários entrava no subsolo às dez da noite vestidos de executivos e trabalhavam até as cinco da manhã, retirando e recolocando os forros com toda a sua parafernália e reforçando a estrutura. Foi proibido o acesso e trabalho à noite aos funcionários sob desculpa de redução de custos e corte geral de horas extras. Ao mesmo tempo, com uma esfarrapada desculpa foram cadastrados todos os moradores ou trabalhadores em um raio de 150 m do City Corp - a área que seria atingida se o prédio de 150 m de altura desabasse lateralmente.

Imagine quantos edifícios, funcionários e moradores existem nesse raio em pleno centro de New York.

O trabalho se desenvolvia normalmente quando a surpresa inicial e a preocupação final de Leslie Richardson se transformaram em terror definitivo: num início de semana o serviço de meteorologia telefonou para o "zelador" do prédio informando que um furacão de 180 km/hora se dirigia para o centro de New York, devendo atingi-la na sexta-feira. Foram tomadas todas as providências para a evacuação dos 150 m de raio e aí não houve jeito: a cidade e o mundo ficaram sabendo do problema e Leslie Richardson provavelmente pensou que iria se juntar a Spreckelsen, o finado projetista de La Défense.

Como nos filmes de Hollywood, na quarta-feira Superman desviou o furacão, os operários voltaram com os seus maçaricos e Leslie Richardson voltou às suas continhas.

Moral da histéria: New York, como São Paulo, é a cidade de demolição e não da preservação, portanto nas relações (profissionais, bem entendido) com arquitetas das "igrejinhas" do patrimônio, não se preocupe com os demolidores, mas tome muito cuidado com os preservativos!



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Nathalia Cavalcante Pantolfi [12/08/2009 01:10]Mensagem imprópria? Clique aqui

Sem duvida, Sergio Teperman consegue nos dar boas risadas e aprendizado, onde muitos so veriam tragedi. Poucos tem o dom de escrever de forma contagiante e estimuladora, e acho que essa dom lhe foi dado. Adorei o artigo. Parabens e obrigada.
 
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