E nós, arquitetos, saberíamos definir o que é "boa arquitetura"? Claro que não. Podemos citar características como proporção, volumetria, luminosidade, cores, espaços, unidade de tratamento e acabamento, implantação etc. E também, infelizmente, moda, mas você pode juntar tudo e obter uma péssima salada arquitetônica.
No dia-a-dia, nós arquitetos do establishment ou os internacionais do star system, esquecemos da modéstia (é necessário fazê-lo, se é que a temos) e se não dizemos o que é boa arquitetura, discriminamos o que desprezamos como má arquitetura.
E nós que fazemos (ou melhor, tentamos fazer) "boa arquitetura" não conseguimos nem tentamos justificá-la porque em geral somos do batente, e não possuímos o embasamento teórico, literário, filosófico para explicá-la. Há naturalmente os que possuem todo esse embasamento, mas aí em geral são críticos, escrevem e nem tentam fazer arquitetura, boa ou ruim. Em uma aproximação muitíssimo grosseira, eu diria que "boa arquitetura" ao longo de muitos séculos se baseou no (ou copiou o) Partenon e a arquitetura grega, os romanos e Andrea Palladio. Se houve algo que rompeu e ultrapassou qualquer esforço de imaginação, criatividade e conhecimento estrutural em arquitetura, foram as catedrais góticas, que na minha não modesta opinião significam o ponto mais alto (literalmente) e nunca mais atingido em qualidade de arquitetura.
Não acredito que modéstia combine com boa arquitetura. Um exemplo: o arrogante Frank Lloyd Wright (e põe right nisso) ignorou o Central Park e construiu o paradigma dos museus, o Guggenheim de Nova York. Diz-se que durante o processo pela morte de sua mulher, ao ser perguntado quem era e o que fazia, Wright teria dito: eu sou o melhor arquiteto do mundo, ao que o juiz teria respondido: "E muito modesto". A resposta de Wright: eu jurei dizer a verdade, só a verdade e nada mais do que a verdade...
Nessa inglória tentativa de definir "boa arquitetura", me vêm à cabeça algumas frases. De Timur ou Tamerlão, o grande guerreiro: "Se duvidais da nossa potência, olhai a nossa arquitetura". De Napoleão Bonaparte: "Chartres é um lugar onde os ateus se sentem desconfortáveis". De Sir Christopher Wren, sobre a Catedral de St. Paul: "Se procuras um monumento, olha ao teu redor". "Quando ouço Bach, sinto arquitetura", de Sting. E "Arquitetura é a música petrificada", de Goethe. Por isso, admiro a chamada arquitetura do espetáculo, a construção sem modéstia, que encanta as pessoas ao contrário da modéstia de Siza, por exemplo.
Se voltarmos à teoria e analisarmos a arquitetura moderna, veremos a que as abstrações teóricas de Le Corbusier, da Bauhaus, de Mies Van Der Rohe nos levaram: ao modernismo, ao racionalismo, à inacreditável censura estética, em nome de um progressismo social. E dizer que na área de edificações da avançada Bauhaus, que se pretendia a nova sociedade, as mulheres não eram admitidas!
Pensando bem, da forma que a profissão se estrutura e as faculdades matriculam, não seria boa ideia? Quantos anos de criatividade se perderam com o rigor estético do modernismo? Quanto se perdeu no Brasil com a absurda correlação entre "progressismo cultural e social" e concreto aparente?
Enfim: é difícil definir boa arquitetura. É como Letícia Birkheuer, Ana Claudia Michels, Ana Hickmann, Giselle Bündchen, Shirley Mallmann. Indefinível.
Talvez identifiquemos a "boa arquitetura" e outras belezas por nosso olho, treinado, aí sim no modernismo, mas com a liberdade mental e cultural de fugir aos ditames arquitetônicos e politicamente corretos de cada época.
E lembrando Potter Stewart, o juiz da suprema corte dos Estados Unidos, ao definir a pornografia: não sei definir o que é, mas sei o que é quando a vejo. Embora a comparação seja terrível, com a beleza e a boa arquitetura é a mesma coisa.