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Exercício Profissional


Concursos: como e quando participar
Por Deh Oliveira


Oportunidade ou risco? A participação em concursos de arquitetura enseja esse dilema. Ambos caminham juntos, e a decisão passa necessariamente por saber equacionar as duas variantes, levando-se em conta o investimento em tempo e recursos financeiros. Independentemente do resultado, o desafio pode ser compensador, na avaliação de arquitetos com larga experiência nesse tipo de competição. A liberdade e o estímulo à criação de soluções que podem ser utilizadas futuramente estão entre os fatores positivos apontados.

Organização

Predominantemente, os concursos de arquitetura são realizados pelo poder público. Mas a iniciativa privada também pode optar por essa modalidade de contratação, dependendo da política da empresa. A organização do concurso com frequência fica a cargo do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), a quem cabe estabelecer requisitos técnicos da disputa. Além de concursos em território nacional, a entidade também atua na organização de concorrências internacionais, em parceria com a UIA (União Internacional de Arquitetos).

A participação da entidade é apontada como garantia para os profissionais vencedores, principalmente quanto ao aspecto financeiro, pois nem sempre o prêmio é suficiente para repor o investimento e obter lucro. "O IAB assegura a contratação, exige o cumprimento dessa cláusula. O ganhador tem de ser contratado", explica o arquiteto Héctor Vigliecca, que contabiliza em seu currículo a participação em 78 concursos, entre nacionais e internacionais.

Júri

No concurso, predominam questões técnicas. Por isso, a escolha do vencedor é feita por um corpo de jurados, mediante indicação do IAB. A composição do júri segue critérios específicos, segundo Rosana Ferrari, presidente da entidade. "São arquitetos que tenham, além de títulos, uma importância profissional, pela notoriedade ou por terem participado e vencido concursos, além de premiações pelo próprio IAB ou outras entidades que representem a classe", salienta.

O arquiteto Arthur Katchborian, sócio do Biselli Katchborian Arquitetos, defende também a participação no júri de alguém da sociedade civil, dependendo do caráter da obra. "É preciso avaliar se o projeto também é funcional, e nada melhor do que alguém que utiliza o espaço. Se for uma praça, por exemplo, ninguém melhor do que o usuário", afirma. Segundo ele, a experiência já foi feita com sucesso em concursos dos quais participou.

Como escolher

Em tese, profissionais dos mais variados níveis estão aptos a participar da maioria dos concursos, independentemente de especializações ou experiências anteriores. Mas a afinidade com o tema proposto é uma das variáveis, apontadas por arquitetos experientes, que devem pesar na hora de escolher quais concursos se deve participar e com chances reais de desempenhar um bom papel. "Deve-se analisar, primeiro, se o tema cativa. Depois, o valor, porque sempre tem o risco", ensina Katchborian.

Segundo o arquiteto, no Brasil, o fim de algumas distorções que havia no passado tornou os concursos mais atrativos. O principal problema consistia na apresentação do projeto separadamente ao preço. "Ocorria uma equação que não se fecha, pois o melhor projeto tinha de ser realizado pelo menor preço. É como você projetar uma BMW mas ter de vender pelo preço de um Fusca", compara. Katchborian recomenda avaliar bem o programa do concurso. Caso o valor não seja previamente fixado, melhor não entrar.

Onde procurar

A fórmula como são realizados os concursos no País é considerada perfeita pela presidente do IAB. "Mas ainda há muito poucos concursos, lamentavelmente. E quem perde é a arquitetura, são os usuários de edifícios, parques ou espaços urbanos, objetos que poderiam ser de concursos", avalia Rosana Ferrari. Na opinião dela, o Brasil tem capacidade de ampliar as ofertas, mas o poder público e as entidades precisam se sensibilizar sobre a importância de se realizar mais concorrências. O IAB se encarrega de divulgar os concursos organizados pela entidade. Além do site do instituto, os profissionais podem pesquisar em revistas especializadas da área e na página eletrônica da UIA, no caso das concorrências internacionais.

Custos

Por não haver ajuda de custo, a participação em concursos envolve riscos financeiros. O gasto excessivo e o tempo investido são os principais problemas apontados por arquitetos das concorrências realizadas no Brasil. "Aqui há um vício: quanto maior o concurso, mais exigências. A quantidade de peças é muito injusta, porque está todo mundo trabalhando a risco", afirma Héctor Vigliecca. Defensor dos concursos realizados em duas etapas, o arquiteto acredita que a simplificação do sistema pode atenuar as perdas. Na primeira fase, o profissional apresentaria o conceito básico do projeto. Depois, os profissionais classificados pelo júri receberiam uma verba para desenvolver seu projeto.

Vigliecca defende a aplicação de fórmula utilizada em outros países. "Nós fizemos concursos internacionais em que se apresentam três folhas de A3. Isso onera menos à produção do escritório", lembra Vigliecca, que cita casos em que nem foi preciso a utilização de papel, pois o projeto foi enviado pela internet.

Desafio

Evidentemente a conquista do prêmio de um concurso é uma realização profissional e pessoal. Mas não basta. Para alguns arquitetos, o estímulo está ligado ao desafio que a participação impõe aos profissionais e à liberdade para criar, pesquisar e a ampliar o repertório. "O concurso é você com o edital, você pode transgredir, nada te impede", afirma Katchborian. Ele recomenda que os arquitetos se aventurem em todos os concursos que se acharem capazes, até mesmo os profissionais em início de carreira. "Um recém-formado é tão habilitado quanto um arquiteto mais experiente", diz.

Guardadas as devidas proporções, Katchboriam compara o concurso ao projeto de conclusão de curso universitário. Segundo o arquiteto, quem não participa perde a oportunidade de se desenvolver, pois diferentemente de projetos particulares, há menos restrições à criação. O ganho profissional, de acordo com o arquiteto, não é apenas dos ganhadores, pois as soluções apresentadas podem ser aplicadas no futuro. Os novatos, no mínimo, terão ao menos um projeto para apresentar. As possibilidades de vitória, porém, não devem ser descartadas na hora de escolher em qual concurso participar. "Você coloca à prova seu conhecimento, seja um arquiteto recém-formado seja um já experiente. Ganhei prêmios com um ano de formado", lembra Héctor Vigliecca.

Planejamento

Como sempre envolve risco, para participar de um concurso é necessário planejamento para não atrapalhar o andamento dos demais projetos do escritório. Tratá-lo como mais uma conta da empresa é uma das saídas, reservando equipe para desenvolver o trabalho. Mas ao envolver a atuação de mais de um profissional, o concurso pode servir para motivar o trabalho em equipe, assim como capacitá-la. Engajamento do pessoal é fundamental, pois não raro o desenvolvimento do projeto, devido ao prazo, implica extrapolar a jornada de trabalho. A avaliação deve ser feita de forma minuciosa, levando-se em conta as consequências devido à demanda média de trabalho.

 
   
 
 
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