Um dos maiores choques culturais que já tive foi a minha (in)adaptação ao Reino Unido, depois de ter passado a vida no Brasil e ter desfrutado da minha primeira bolsa de estudos em Firenze, com a bendita "organizazzione" italiana. Cheguei à capital do mundo e cruzei o centro de Londres dirigindo do lado errado, vendo zilhões de paquistaneses, nigerianos, cucarachas, turistas de toda a Europa, França e Bahia, extraterrestres, britânicos, gauleses, romanos e até londrinos vestidos de minissaia, chapéu coco e umbrelas. Ninguém se espantava, porque era a época dos Beatles e suas fardas de Sgt. Pepper's. Mas como um país com ingleses, escoceses, irlandeses, galeses, celtas, o terrorismo do IRA, as diferentes línguas, acentos e rivalidades não se chamava Reino Desunido?
Contudo "on the other side of the world" existia um continente que se chamava America Latrina, onde ao sul do Equador havia uma província na qual coisas igualmente esquisitas aconteciam. Pois é, o lugar já tinha se chamado Vera Cruz, depois Santa Cruz, e depois Estados Unidos do Brasil, que muitos diziam estar, como no hino nacional, em ordem inversa: deveria ser Brasil dos Estados Unidos. E hoje o mais justo seria se chamar Tijuana ou Marijuana, vulgo Rio de Janeiro, que era na verdade um oceano e foi descoberto em fevereiro, pelos lusitanos.
Esse estranho país tinha um ilusionista, disfarçado durante anos sem que sua mulher soubesse, na direção da Casa Civil do governo; era presidido por um torneiro mecânico e à frente da prefeitura da maior cidade do país havia uma sexóloga! E o que tem a arquitetura e o urbanismo a ver com isso?
Tem a ver que as nossas grandes questões de urbanismo são discutidas e resolvidas pelo Ministério Público que, ao que me consta, é integrado por advogados. E as questões de arquitetura e as construções que dela resultam são fiscalizadas pelos tribunais de contas, no qual há profissionais de muitas categorias, mas não me consta que haja muitos arquitetos. Todos podem ser sérios, honestos e bem-intencionados, mas arquitetura, urbanismo e construção não se analisam por planilhas, memoriais, requerimentos e ofícios. Nunca imaginei que uma frase que escrevi séculos atrás poderia vir a ser verdadeira. Dizia algo como: se não agirmos, corremos o sério risco de, parodiando Clemenceau, ouvir que a arquitetura é algo muito importante para ser entregue a arquitetos.
Pior ainda, o MP e os TC não podem responder às ONGs que fazem lobby junto ao legislativo. É inacreditável o que existe de ONG bloqueando não projetos e obras ruins ou de custos despropositados, mas sim todos os projetos. E boa parte dessas ONGs tem em seus quadros arquitetos que também não sabem o que é uma obra boa para a comunidade - estas envolvem fatores econômicos, sociais, urbanísticos, arquitetônicos e até ambientais, mas não jurídicos ou meramente contábeis.
Uma ONG perde totalmente o seu sentido quando seus integrantes passam a fazer parte do governo e assim obtêm poder para impor a sua visão da sociedade e, no nosso caso, da arquitetura - ou melhor da não-arquitetura, como os antiprojetos. O Brasil é original, temos organizações não-governamentais no governo, como o MST, que é o atual encarregado do planejamento territorial do país.
O panorama se agrava com a malfadada Lei das Licitações. Tive uma difícil discussão com o relator da lei, Luiz Roberto Ponte, um homem capaz e educado, mas no barco errado. Water under troubled bridges, conforme Simon and Garfunkel. As disfarçadas concorrências de técnica e preço são simplesmente de preço. E um funcionário público, com terror de agulhas e injeções, jamais eliminará um projeto por seu custo inexequível. O resultado são trabalhos vergonhosos, orçamentos de projeto ridículos e falsos de obra, feitos a partir de projetos básicos. E fazem de conta que economizam. Os autores das leis usaram ainda toda a sua criatividade para criar os leilões de serviços, os inacreditáveis pregões certamente lusitanos, em que leva quem dá menos.
Ainda assim, são menos daninhos que outra forma de contratação adotada pelos órgãos públicos e endeusada por tantos arquitetos: o concurso público, uma invenção democrática que dá a todos a chance igual de perder um monte de dinheiro. A propósito, para ser membro dos tribunais de contas, que são cargos vitalícios, é necessário prestar um concurso?