A padronização e a modulação de sistemas, tecnologias e produtos para a construção civil inibem ou limitam a arquitetura como expressão artística e cultural? COLABOROU GIOVANNY GEROLLA
É senso comum que a industrialização é a única resposta para o imenso déficit habitacional brasileiro por permitir repetição, menores prazos e preços, mantendo a qualidade. Mas será que ainda persiste entre os arquitetos a noção de que a construção industrializada produz arquitetura inexpressiva, nos moldes em que foi feita no pós-guerra? AU ouviu alguns profissionais de diferentes experiências para avaliar a questão e teve uma surpresa.
José Alves, arquiteto, sócio do escritório Frentes Arquitetura
A expressão artística prescinde de padrões, módulos, sistemas, tecnologia e produtos. Caso a arquitetura seja idealizada e projetada sob padrões, nada a impedirá de impregnar-se de belos conceitos. Cabe ao arquiteto fazer dela a sua arte e, assim, superar sua condição telúrica.
Ruy Ohtake, arquiteto formado em 1960 pela FAUUSP
A arquitetura pode ser expressa artisticamente com formas orgânicas, moduladas ou mistas. Com linhas retas ou curvas. Com maior dose de tecnologia, ou maior dose de trabalho artesanal. O importante é que a manifestação seja contemporânea.
Erica Yukiko Yoshioka, arquiteta, fez mestrado e doutorado em Sorbonne e leciona no Departamento de Tecnologia da FAUUSP
A produção da arquitetura é um processo no qual diversos fatores de várias naturezas são considerados. São fatores que fazem parte do saber do arquiteto, que é quem os traduzirá em traços e desenhos, configurando espaços arquitetônicos. Dessa maneira, o que importa é que se tome uma decisão fundamentada - independente de ser padronizada ou não, modular ou não. Essas soluções podem ser colocadas na mesma categoria de fatores que fazem parte do saber do arquiteto e que deverão compor e nortear o processo criativo. Esse exercício consciente é o que garantirá que o resultado obtido seja "belo".
Henrique Cambiaghi, arquiteto e diretor geral da CFA Cambiaghi Arquitetura
Não acredito que a padronização de sistemas de construção limite a arquitetura enquanto expressão artística. Quando um arquiteto atende à solicitação de um trabalho, há vários fatores que poderiam ser chamados de "limitantes", mas que na verdade são parte do processo de produção da arquitetura: programas de uso, legislação, as múltiplas realidades do entorno. Da mesma forma como esses fatores conduzem a idealização de um projeto, o sistema construtivo pode ser interpretado como mais um elemento a contabilizar. Por outro lado, acredito também que um sistema construtivo específico poderá ser um fator inibidor da criatividade em um determinado tipo de edifício, mas não em outros. Em alguns, poderá até mesmo ser a solução desejada.
Joan Villà e Silvia Chile, arquitetos. Villà é docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Centro Universitário Belas Artes
A relação íntima entre a arquitetura e a construção se estabeleceu a partir de uma pauta comum que o ofício historicamente encontrou na geometria. Modulação e coordenação modular de sistemas, tecnologias e produtos significa não apenas dimensões, mas elementos constitutivos de uma geometria capaz de relacionar as partes na totalidade da obra. Assim, afirmar que a padronização ou a modulação de sistemas limita a expressão artística da arquitetura seria tão aberrante quanto imaginar que os arcos da sede da Mondadori, de Oscar Niemeyer, ou as fachadas cerâmicas de Renzo Piano em Potsdamer Platz poderiam ter alcançado níveis mais elevados de "expressão artística e cultural" se não tivessem sido submetidos ao rigor da modulação. No entanto, ao persistirem certos receios e temores, será possível afastar os perigos da inibição e das limitações impostas à liberdade de projetar: uma boa ferramenta sempre vai poder subdividir o módulo tijolo, ou o telha, ou qualquer outro produto industrial, em favor da expressão.