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| Com casas construídas a partir do sistema light steel frame, de acordo com projeto desenvolvido pela Construtora Micura, a Vila da Dignidade é uma iniciativa da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) destinada a pessoas com mais de 60 anos e renda mensal de até dois salários mínimos. As unidades de 43,32 m² poderão ser construídas em apenas quatro dias, após a conclusão dos serviços de fundação. O primeiro conjunto será implantado em Avaré, no interior de São Paulo, e terá execução a cargo da Construtora Sequencia |
Quando se fala em habitação econômica no Brasil logo se pensa naqueles predinhos enfileirados, feios e monótonos, cheios de problemas construtivos. Para virar esse capítulo da nossa história e resolver uma parte, ainda que pequena, do nosso escandaloso déficit habitacional de sete milhões de unidades, o Governo Federal lançou o programa Minha Casa, Minha Vida, em parceria com Estados, municípios, empresas e movimentos sociais. O objetivo é construir um milhão de novas casas e apartamentos.
O programa promete muitas facilidades, como aumento dos subsídios, redução dos custos do seguro e acesso ao fundo garantidor da habitação, que refinancia parte das prestações no caso de desemprego. Os números são expressivos: cerca de 400 mil casas devem ser destinadas à faixa de zero a três salários-mínimos, subsidiadas, e 600 mil distribuídos para faixas entre três e dez salários. O setor está começando a se mexer para adequar-se a essa nova realidade, que representa uma grande oportunidade de crescimento, mas as iniciativas ainda são tímidas, principalmente nas grandes metrópoles. "Nunca teve tanto dinheiro de graça disponível. É um momento de todos crescerem", declara o engenheiro Luis Guilherme de Matos Zigmantas, da CEF (Caixa Econômica Federal).
Se o problema financeiro parece estar resolvido, que tal olharmos mais de perto os outros players do setor? Para efetivar na prática a produção de tantas habitações, a industrialização da construção parece ser a única saída. A produção em massa exige rapidez, racionalização dos processos, pouco desperdício, alta qualidade e efetivo controle tecnológico, características que somente os sistemas industrializados, interligados a subsistemas adequados, podem oferecer.
Mais importante é entender que o conjunto de tecnologias empregadas e interligadas nasce do projeto de arquitetura e de um criativo projeto urbanístico que não transforme, como no passado, conjuntos habitacionais em guetos. Precisamos de projetos inteligentes, construtoras capacitadas a realizá-los, sistemas construtivos avaliados e aprovados e terrenos disponíveis.
No caso dos terrenos, ponto nevrálgico nos grandes adensamentos, o governo pode, e deveria reservar áreas de interesse social, de maneira a fugir da especulação imobiliária. "O governo tem que interferir mais no mercado imobiliário, e os arquitetos devem liderar o processo, trabalhando junto com os construtores", diz o arquiteto e consultor Carlos Alberto Tauil, da Bloco Brasil. Todo esse processo depende de um cuidadoso planejamento, em que se dedique muito mais tempo ao projeto de modo que a execução possa se tornar uma montagem ou quase isso.
TECNOLOGIAS
Os sistemas desenvolvidos até aqui já permitem a criação de um processo industrializado. A pré-fabricação em concreto abrange paredes, pilares, lajes, vigas, escadas e uma série de elementos construtivos, que, dependendo da escala de construção, podem ter suas unidades de produção implantadas no próprio canteiro. Existem sistemas constituídos de pilares, vigas e lajes pré-fabricados, com paredes internas e externas executadas com grandes blocos de concreto celular autoclavado, para edificações modulares de até seis pavimentos. Outro sistema apresenta painéis maciços estruturais de concreto na região central (núcleos rígidos de contraventamento), e apenas um painel estrutural nas laterais do edifício, para assegurar a estabilidade. Os demais painéis alveolares possuem apenas a função de vedação, o que contribui para adequação a diferentes tipologias propostas pela arquitetura e pela segurança da edificação, inclusive na pós-ocupação das unidades.
No caso do emprego de paredes pré-fabricadas, o sistema completo ainda engloba as instalações elétricas e hidráulicas, a colocação de caixilhos, pré-pintura e, no local, a instalação do telhado e pintura final. Os painéis têm função estrutural e de vedação, sendo responsáveis por receber as cargas das lajes e transmiti-las à fundação, em um modelo estrutural específico, com capacidade de resistir aos esforços da estrutura e do vento. Esse sistema destina-se à construção de residências e edifícios horizontais e verticais, tendo como principais benefícios a alta produtividade, com aumento da qualidade e diminuição dos custos.
Para a engenheira Iria Doniak, diretora-executiva da Abcic (Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto), quando se fala em industrializar a construção, a pré-fabricação é uma ferramenta excelente, mas que não atua sozinha. É fundamental planejar de forma sistêmica desde a fase de projeto. "O projeto precisa ser otimizado, considerando a obra como pré-fabricada desde o início", explica.
Quando se fala em racionalização de peças moldadas in loco também se pensa em paredes de concreto. Esse sistema depende de fôrmas metálicas do tipo parede, e fôrmas de madeira para as lajes e caracteriza-se por ciclos diários de montagem e desmontagem das fôrmas, em um total de dois jogos de fôrmas de madeira e um de metálica para cada pavimento com quatro apartamentos. Nessas condições, segundo fornecedores do sistema, num edifício de 13 pavimentos-tipo as paredes e lajes são concluídas em aproximadamente 27 dias úteis.
Também podemos dispor da alvenaria estrutural cerâmica ou de concreto, com grande racionalização, modulação e liberdade construtiva. Nesse sistema, os blocos têm função dupla, de vedar e estruturar.
Outra grande opção industrializada é a construção com aço leve, como é o caso do light steel frame, que permite racionalização na montagem e desperdício quase zero, e está a caminho da aprovação na CEF para aplicação em obras para baixa renda. Todos os perfis de aço galvanizado são montados sobre um radier de concreto, com fechamento que pode ser de placas cimentícias ou de OSB, e paredes internas de drywall.
No entanto, a avaliação de novas tecnologias e sua aprovação estavam emperradas por um reduzido, ou podemos dizer, único sistema de aprovação que passava pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo). O Instituto trabalhava sem uma diretriz nacional que pudesse servir de base para avaliar todo e qualquer sistema considerado inovador. Para tentar desafogar o IPT e incentivar a criação de novas instituições técnicas avaliadoras em todo o país, o PBQP-H (Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat) criou o SiNAT (Sistema Nacional de Avaliação Técnica), que irá emitir diretrizes para a aprovação dos sistemas inovadores. "Essas diretrizes irão harmonizar os procedimentos de avaliação de novos produtos para a construção quando não existirem normas técnicas prescritivas relativas", explica a engenheira Fabiana Cleto, do Laboratório de Componentes e Sistemas Construtivos do IPT.
A primeira diretriz do SiNAT já foi publicada, e é relativa à avaliação técnica dos sistemas construtivos em paredes de concreto armado moldadas in loco. "O IPT, como Instituição Técnica Avaliadora, já está realizando avaliações de sistemas construtivos inovadores no âmbito do SiNAT", diz Cleto. Espera-se que com a operacionalização do SiNAT possa ser efetivada a criação de uma infraestrutura fundamental para o desenvolvimento tecnológico do setor da construção civil. Já os sistemas construtivos ditos tradicionais deverão atender às respectivas normas técnicas prescritivas e também à norma de desempenho (NBR 15.575).
No final, o desempenho da construção tem que ser atendido independentemente do sistema construtivo, inovador ou não.
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