Habitação de interesse único Para superar um déficit de sete milhões de habitações somente o esforço conjunto de todo o setor orquestrado pelos vários níveis do poder público. Os sistemas mais industrializados de construção são os que responderiam com qualidade e rapidez ao desafio
Por Simone Sayegh
RENATO NAVARRO
Na verdade, quando trouxemos o steel frame para o Brasil tivemos muita dificuldade, então compramos uma área e fizemos o condomínio American Homes, que foi publicado em todas as revistas por quatro anos. Ficamos estigmatizados. Até hoje todo mundo pergunta se o steel frame serve para outros tipos de projeto, e é claro, serve para qualquer projeto.
FONSECA DE CAMPOS
O que tem qualidade e defeito não é a tecnologia, mas o projeto que usou a tecnologia do jeito errado. Não é o aço que tem problema, não é o concreto, mas é quem especifica errado, sem conhecimento técnico profundo, sem planejamento urbano. Se não houver projeto de arquitetura bem elaborado, não há tecnologia possível.
ARCINDO VAQUERO Y MAYOR
Se o déficit é de sete milhões, na velocidade com que as coisas estão andando vamos caminhar para uma guerra. Tem milhões de pessoas morando indignamente e se formos nesse ritmo, ainda discutindo uniformidade e rigidez, não vamos chegar nunca. Se não fizerem efetivamente esse programa vamos chegar a ficar muito pior. A indústria do aço, a indústria do concreto, a indústria da construção sabem quais são as soluções, não vamos ficar repetindo erros do passado. A Caixa anunciou que pretende financiar a construção de um milhão de casas, o déficit é de sete milhões: ainda vão faltar seis milhões. Se não industrializar não vai sair do papel. Afinal, quais são os maiores gargalos nessa história de industrialização da construção econômica?
TAUIL
A meu ver, um dos gargalos é a especulação da terra na América do Sul. O governo tem que interferir mais no mercado imobiliário e chamar grupos de arquitetos para indicar a tecnologia e tipologia mais apropriada, junto com os construtores. No mundo todo é assim.
FONSECA DE CAMPOS
Mas o governo pode interferir com as chamadas zonas especiais de interesse social, o município tem autonomia para "separar" os melhores terrenos para esse tipo de construção. Essa é a importância do planejamento urbano.
ZIGMANTAS
Nós também estamos preocupados com a especulação dos terrenos. Nunca teve tanto dinheiro de graça disponível. É um momento de todos crescerem. Mas estamos correndo o risco do dinheiro vazar para o setor especulativo e não produtivo. É o gargalo da terra, e o gargalo de desempenho da inovação. Temos que ajustar a capacidade laboratorial para desafogar o IPT.
FABIANA CLETO
Essa falta de infraestrutura laboratorial vai ser resolvida em grande parte pelo Sinat (Sistema Nacional de Avaliações Técnicas), criado dentro do PBQP-H, subordinado ao Ministério das Cidades. Para a Caixa avaliar um produto considerado inovador, sem norma técnica prescritiva, todos agora podem contar com a diretriz Sinat, que vai cadastrar novas Instituições Técnicas Avaliadoras em todo o Brasil, além do IPT.
ZIGMANTAS
Quando chegamos a setores sem normas técnicas, aí precisamos de um conhecimento mais específico, daí o Sinat. Por exemplo, com relação às paredes de concreto o setor já se reuniu e montou a primeira diretriz de como aprová-las no País, o que facilita a emissão do documento de avaliação técnica (Datec) para as empresas e construtoras interessadas em utilizar essa tecnologia.
CARLOS ROBERTO DE LUCA
No entanto, os materiais certificados dentro do PBQP-H não estão no rol dos exigidos pela Caixa, esse é outro aspecto que deveria ser alterado, porque é óbvio que materiais produzidos com mais qualidade e controle tornam-se mais caros, e não dá para comparar com materiais sem esse tipo de certificação. Não adianta ter norma se a Caixa não exige controle de qualidade. Não dá para competir.
FONSECA DE CAMPOS
Tivemos muitos problemas de compatibilidade no passado, mas hoje temos muito crítico de arte para pouco artista. Existe pouquíssima gente que trabalha com desenvolvimento de produto industrializado. Casos de gente que há anos tentam industrializar a construção porque não é possível enfrentar um déficit desse tamanho sem industrialização. Nós não temos produtos sob medida para essa demanda de zero a três (salários- mínimos), seja do ponto de vista de custo, do perfil, ou do ponto de vista do urbanismo. Isso tudo passa pelas construtoras, pelo desenvolvedor de tecnologia, laboratórios, arquitetos e engenheiros. É preciso ganhar mais tempo no projeto e se inverter a equação. E falar de obra econômica, não barata. Agora temos a possibilidade de construção massiva, e temos que testar já o que temos disponível.
Sistemas Construtivos
PRÉ-PRONTO O sistema construtivo da Brasitherm Engenharia consiste na utilização de paredes e lajes pré-moldadas de concreto armado com plenum interno. Destina-se à construção de casas e edifícios horizontais e verticais, tendo como principais benefícios a alta produtividade, com qualidade e diminuição dos custos. De acordo com a empresa, o sistema atende às exigências da Caixa Econômica Federal e do programa Minha Casa, Minha Vida.
ATÉ SEIS ANDARES Para edificações modulares de até seis pavimentos, a Precon fornece um sistema constituído de pilares, vigas protendidas e lajes pré-fabricadas. As lajes podem ser executadas com vigotas protendidas e blocos de concreto celular ou pré-lajes. Paredes internas e externas em painéis ou grandes blocos de concreto celular autoclavado completam o sistema.
PAINÉIS PORTANTES O sistema Premo é constituído de painéis externos e internos de concreto, pré-lajes, capeamento e arremates. As peças incorporam todos os detalhes da parede acabada, ou seja, elementos arquitetônicos, insertes, instalações elétricas e hidráulicas que tornam a obra mais ágil e racionalizada. Os detalhes de junção dos painéis são produzidos de forma a permitir estanqueidade em relação à entrada de água e solidarização entre os elementos do sistema.
CASA DIGNA Os componentes industrializados metálicos leves do sistema Casa Digna Kofar podem resistir às condições extremas da natureza como furacões, terremotos e raios. Os materiais são incombustíveis, não propagam chamas e não são atacados por cupim ou insetos. As casas partem de um projeto modulado padrão, que pode ser ampliado, adquirindo configurações para até três dormitórios com áreas de 34, 46 e 57 m2 respectivamente.
AUTOALINHÁVEL A Ulma desenvolve um sistema de fôrmas trepantes para paredes de concreto composto por painéis de altura padrão 2,70 m com uma estrutura de aço protegida com pintura eletrostática em epóxi, e superfície de contato de compensado fenólico de 18 mm. É uma fôrma autoalinhável, com fechamento feito por grapas metálicas. A empresa promete redução de custos na obra graças à facilidade de montagem e transporte.
CASA DE MONTAR A construtora Sequência é uma das pioneiras no uso do steel frame no Brasil. O processo industrial de origem norte-americana envolve um sistema com rigoroso cronograma de montagem e mão de obra especializada. O sistema estrutural é formado por perfis metálicos de aço galvanizado, interligados por parafusos especiais autobrocantes, formando um conjunto autoportante preparado para receber todos os esforços solicitados pela edificação.
EM CICLOS A tecnologia da Sergus consiste na moldagem de paredes e lajes de concreto armado, adotando-se fôrmas metálicas para a execução das paredes, e fôrmas de madeira para as lajes. O sistema caracteriza-se por ciclos diários de montagem e desmontagem, em geral com um jogo de fôrmas metálicas e dois de madeira para produção de dois apartamentos por ciclo de operação.
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